Comentário de Mt 13, 24-43

Esta passagem mostra Jesus refletindo sobre a natureza do Reino, mas sob a perspectiva de seus efeitos sobre o restante da sociedade. O Reino é mostrado como algo quase sem importância – como a semente de mostarda, chamada da menor das sementes – ou como um elemento presente em menor número – como o caso do fermento na massa, que é colocado em menor quantidade –, mas cujos efeitos são muito grandes e sentidos por todos.

Na verdade, é importante compreender a introdução feita, quando Jesus diz, em sua parábola, que o joio e o trigo crescem juntos. Podemos interpretar isso de forma pessoal, levando em conta que joio e trigo – o bem e o mal, a tendência a fazermos algo bom e para fazermos algo ruim – são aspectos internos a nós e que teremos que lidar com eles por toda a nossa existência. Não nos cabe achar que temos a capacidade de eliminar alguma dessas tendências de dentro de nós. Elas continuarão a nos influenciar, mesmo que não queiramos. O que nos cabe fazer é compreender que nem sempre fazemos “o bem que queremos” (cf. Rm 7, 19) e continuar seguindo em frente, procurando alimentar a tendência do bem, sem fomentar a tendência do mal.

Mas a dimensão que Jesus quer dar é que existirão pessoas que podemos considerar serem trigo e pessoas que podemos considerar como sendo joio, cada uma dando vazão a alguma dessas tendências internas em si, caracterizando-se como totalidades boas ou más. Na verdade, nós tendemos a classificar as pessoas por algum aspecto que presenciamos e, a partir daí, as rotulamos, não acreditando mais que possam agir de formas diferentes daquela do rótulo que demos. Trabalho com adolescentes em conflito com a lei e, muito freqüentemente, as pessoas não acreditam que eles possam se modificar, se regenerar e passar a fazer parte da sociedade de forma construtiva. É a atuação dos preconceitos, que promovem iniciativas como a redução legal da maioridade penal, passando a encarcerar em nossas cadeias – verdadeiros calabouços da Idade Média – os nossos adolescentes mal informados, desorientados e famintos. O ponto que Jesus quer chamar a atenção aqui, entretanto, não é propriamente dos preconceitos. Ele já conta com isso de forma implícita. Ele quer mesmo é destacar o fato de que vamos ter que conviver com as pessoas que rotulamos por toda a vida. Elas farão parte de nossas vidas até que venha o juízo, que só ocorre após a morte. Portanto, a questão diz respeito ao que Jesus nos pede para fazermos diante dessa perspectiva de convivência com todo o tipo de pessoas, até aquelas que consideramos ruins.

O que fazer? Como agir com essas pessoas? Será que devemos simplesmente viver nosso cristianismo dentro das igrejas e esperar que essas pessoas, por alguma crise de consciência, passem a querer fazer parte de nosso “clubinho”? Para tirarmos as dúvidas sobre qual a melhor maneira de agir frente a essas pessoas, temos que nos espelhar naquele que é nosso mestre, aquele a quem dizemos querer seguir. Ou seja, devemos nos perguntar sobre como Jesus agiria nessa situação. Nos evangelhos já encontramos o procedimento de Jesus para com essas pessoas. Diante daqueles considerados excluídos, impuros, pecadores, errados, ruins, maus de seu tempo, Jesus é o primeiro a tomar a iniciativa. Ele não espera por ninguém; vai atrás por vontade própria. Diz que o são não precisa de médico, mas sim o doente (cf. Mt 9, 12; Mc 2, 17; Lc 5, 31). Convive com essas pessoas, come com elas, de forma tão ostensiva que passa a ser chamado de glutão e beberrão pelos “arautos da perfeição” (cf. Mt 11, 19; Lc 7, 34). Enfim, Jesus não os exclui, pelo contrário, faz deles sua meta e direção, transforma-os em seu destino. Coloca-os no centro de toda a sua ação (cf. Mc 3, 3; Lc 6, 8).

Somos chamados a realizar este tipo de inversão hoje, como seguidores de Cristo. Nos sentimos capazes de fazer isso? Consideramos que colocamos aqueles considerados como excluídos, como inválidos, como incapazes, como marginais, como escória, como nada no centro de nossas ações? A mensagem desta passagem está clara: teremos que conviver com essas pessoas ainda pelo resto de nossas existências. Que lugar destinaremos para elas? Estaremos presentes no meio delas levando o exemplo da bondade e amor de Deus para elas, ou esperaremos que elas decidam por própria conta se aproximarem e começarem a fazer parte de nossas igrejas? Será a verdadeira ajuda convidá-las a fazer parte de nossa religião, ou será que não poderemos ajudar mais colaborando para que elas passem a ter uma vida melhor, com menos fome, menos desigualdades, menos desemprego, menos ausência de educação para a autonomia, menos carência na saúde, menos injustiças...

Devemos realizar o que Jesus contou em suas parábolas: sermos fermentos da massa que é a sociedade, fazermos crescer a mudança nos comportamentos ao nosso redor por meio de sementes pequeninas que são os gestos de amor e acolhida que podemos realizar para com aquelas pessoas que estão ao nosso redor. Convenceremos não pelas nossas palavras, mas pelos exemplos de fidelidade à proposta de Jesus. Não nos preocuparemos em identificar as pessoas como joio ou trigo, não realizaremos atos discriminatórios, mas acolheremos a todas, procurando mostrar que o amor de Deus para a humanidade não faz discriminações e quer o bem de todos. Faremos acontecer o Reino de Deus nesta terra por meio de nossas ações, de nossas opções, que devem proporcionar o bem a todas as pessoas, mas principalmente àquelas que são deserdadas pelas sociedades. Não hesitaremos em tratar bem àqueles ao nosso redor, como sinal do amor de Deus, mas também saberemos ser prudentes como as serpentes (cf. Mt. 10, 16) para perceber que o bem maior pode ser realizado quando as estruturas da atualidade forem alteradas.

Este é o nosso chamamento. Esta é a maneira do Reino de manifestar no mundo. Iremos responder?

Gustavo Lopes Borba
20/07/2008

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