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Boas Notícias como Reino de Deus e como testemunho de Jesus


Recebi em empréstimo, de uma nova amiga, o livro The future of liberation theology: Essays in honor of Gustavo Gutiérrez, editado por Marc H. Ellis e Otto Maduro em 1989. O livro é bastante instigante e trata dos vários aspectos da teologia de Gustavo Gutiérrez, mais conhecido como o “pai” da Teologia da Libertação, pois foi o primeiro a nomear a teologia que acontecia na América Latina por este nome. Junto a Gustavo Gutiérrez temos nomes como Leonardo Boff, Frei Betto, Hugo Assmann, Juan Luis Segundo e Jon Sobrino, dentre outros. Aqui me dedico a compilar e comentar extratos do capítulo 25, “Jesus, theology, and good news”, de Jon Sobrino.

Ao fazer a leitura do capítulo “Jesus, theology, and good news”, de Jon Sobrino, do livro The future of liberation theology, percebo que ele está direcionado a teólogos, refletindo sobre a realidade essencial do cristianismo como eu-aggelion (evangelho, boas notícias) e as consequências disso para a teologia. Ele ainda analisa a relação entre teologia e boas notícias em dois de seus aspectos: a apresentação precisa de Cristo como boas notícias e o modo evangélico de teologia. Como não sou teólogo, não posso me sentir destinatário dos pontos que Sobrino levanta aos cuidados que teólogos devem ter ao realizar seu ofício. Porém, senti-me particularmente interessado quanto à especificação das boas notícias e sua relação com o Reino de Deus, tema particularmente de meu interesse.

Considero que a proposta de vida que Jesus nos faz está sintetizada no termo “Reino de Deus” e que sua proposição aos pobres, injustiçados e oprimidos do mundo vem a ser boas notícias, evangelho. Na verdade, a proposta do Reino de Deus representa boas notícias a essas pessoas justamente pela situação em que elas se encontram e pelo que o Reino traz de nova organização social e comunitária, restabelecendo sua posição de cidadania, inclusão e sustância. De fato, para pessoas que não se encontram nas situações apontadas acima, como pobres, oprimidos e injustiçados, talvez as propostas de estilo de vida de Jesus não pareçam assim tão boas notícias pelo que implica em mudanças no cotidiano e na relação comunitária. Para quem não tem nada, ou perdeu tudo, pensar em uma mudança que leve à partilha dos bens e à solidariedade para com os demais pode representar a única alternativa à morte. Para pessoas de posses, talvez isso se torne o contrário, a própria morte em vida, pelo necessário despojamento e renúncia à forma de vida alcançada pela posse de bens.

Sobrino dá grande ênfase ao papel das boas notícias para o entendimento do que é o cristianismo. De fato, ele chega a afirmar que elas são o conteúdo central da teologia e são também o princípio hermenêutico para dizer se uma teologia é cristã ou não. Ou seja, ao dizer que boas notícias são o princípio hermenêutico, ele quer dizer que são a chave de leitura para dizer se uma teologia é cristã ou não. Teologias que ele chama de cristãs devem se referenciar às boas notícias, para serem consideradas realmente cristãs. Afirma que podemos entender o termo eu-aggelion como expressão do que é bom e positivo no cristianismo, mas com características específicas. Que o bem e o positivo despontam no tempo, acontecem como algo real nas vidas humanas e são anunciados claramente. Porém, antes que pensemos que se trata de uma posição ingênua de sua parte, ele alerta que boas notícias nada têm a ver com atitudes otimistas ou ingênuas. Muito menos com escapismo de realidades desagradáveis. Não suaviza, adoça ou edita a tragédia da história ou os esforços custosos e dolorosos para transformá-la.

Quando recebemos boas notícias, tendemos a comunicá-las às pessoas queridas mais próximas. Boas notícias não costumam ser guardadas, mas divulgadas. Ainda mais quando representam a possibilidade de melhoria das condições de vida, diante de estados de penúria e abandono massacrantes. Sobrino nos alerta, entretanto, que boas notícias não podem ser bem comunicadas, mesmo em linguagem teológica, sem convicção, sem esperança, ou sem alegria. De forma mais radical, se o cristianismo cessar totalmente de ser boas notícias, ele simplesmente cessaria de ser cristianismo. As boas notícias pertencem à identidade do cristianismo e, portanto, é o que o faz relevante. Em seu texto, ele cita Schillebeeckx sobre as igrejas que estão se esvaziando porque os cristãos perdemos a capacidade de apresentar o evangelho para nossos contemporâneos com fidelidade criativa e como boas notícias. Consequentemente, se há uma crise óbvia de relevância – “as igrejas estão se esvaziando” – isto é derivado de uma crise de identidade: por não se saber o que fazer com o eu-aggelion como tal.

Como havia dito acima, as boas notícias podem não sê-lo para todas as pessoas, principalmente num ambiente de disseminação expressiva do cristianismo, em que ele se tornou mais uma prática ritual sem vida ou sentido à maioria dos seus adeptos do que uma proposta de vida plena, extremamente significativa como forma de nova organização social comunitária. A teologia cristã, diz Sobrino, ao invés de comunicar o conteúdo central de sua verdade – o que são as boas notícias – acabou sendo pensada mais e mais em termos de firmar a verdade (o magistério, a tradição, as escrituras). Isso é melhor expresso por Sobrino quando apresenta as diferenças de visão entre Paulo e Jesus sobre as boas notícias. Na visão de Paulo, o eu-aggelion é destinado para todos, enquanto que na visão de Jesus o eu-aggelion é boas notícias diretamente para os pobres deste mundo e somente para eles. Quando a teologia se dedica aos pobres deste mundo, ela fala sobre esperança histórica. Então, de forma visível, o que a teologia comunica traz esperança, alegria e gratidão reais. Isso também requer ação. Por outro lado, quando as boas notícias são direcionadas para todos os seres humanos, essas boas notícias tendem a se concentrar na esperança universal ou na esperança transcendental de salvação escatológica – algumas vezes espuriamente traduzida em mera sobrevivência após a morte – e é difícil combinar isso com esperança e alegria históricas ,que podem ser visivelmente obtidas aqui na Terra.

Refletindo sobre a relevância do cristianismo diante da distância de sua proposta frente à situação de grande número de cristãos, para quem a proposta não representa ser boas notícias mas, ao contrário, más notícias, exatamente pelas renúncias materiais e do egoísmo, proponho uma nova forma de se pensar as boas notícias. Se o cristianismo não tem relevância para os seus adeptos no mundo de hoje, cresce a demanda pela ritualização e pela reafirmação da verdade. O cristianismo precisa voltar a ser relevante para toda e qualquer pessoa, e isso pode ser alcançado considerando que diferentes grupos de pessoas necessitam diferentes boas notícias. Por exemplo, para pessoas que têm acesso a alimento e posses, mas não desfrutam do verdadeiro sentido da vida, chegando às raias de cometerem suicídio, boas notícias são desvendarem o sentido da vida para além da posse e usufruto dos bens materiais, desfrutando da alegria proporcionada pela vida. O que quero dizer é que é possível encontrar boas notícias para toda e qualquer pessoa a partir do cristianismo, desde que nos coloquemos como servidores das mais profundas necessidades humanas não abarcadas pela posse de bens ou pela vida desregrada. Caso tenhamos sucesso nessa empreitada, o cristianismo voltará a ter relevância para o mundo, mas desde que não percamos a dimensão de serviço e de chamado à ação inerentes à proposta do Reino de Deus. Para exemplificar, dou o testemunho do desempenho do papel de pai, que deseja o melhor para o filho e não oferece a ele o que ele quer, mas sim o que ele precisa. Muitas vezes tenho que negar ao meu filho alguma coisa que pode resultar negativo para ele, e outras vezes ofereço algo diferente do que ele pediu, porque o que ele pediu não é benéfico. Da mesma forma, ao procurarmos disseminar as boas novas a esse nosso mundo atribulado e confuso, perdido em meio a tantos chamados contraditórios, temos que ter em mente as palavras de Sobrino: “As palavras usadas para afirmar formalmente que a essência da realidade cristã é o bem e o supremo bem são: amor, justiça, salvação, redenção, libertação”. Ao procurarmos promover boas notícias, elas devem ser reguladas por esses valores, não pelos desejos superficiais e egoístas que diferentes grupos de pessoas têm. É como diz Santo Agostinho: “Ama, e faze tudo o que queres”. Ou seja, se o seu critério para fazer tudo o que quiser é o amor, nada do que faça será em prejuízo a você ou à sua comunidade, e tudo o que você se sentir movido a fazer será em benefício de todos; o seu próprio querer será movido pelo amor, e não pelos “baixos apetites” (cf. Rm 6, 12).

“A despeito de que o que é bom no que concerne às boas notícias é compreensível, e portanto analisável pela razão, as boas notícias como tais não são obtidas somente pela razão, mas são-nos dadas. Um de seus elementos é o fato de serem um dom, uma graça”. Ou seja, muitas vezes recebemos graças, mas não as percebemos e não as reconhecemos como tais. Isso porque temos uma expectativa totalmente diversa do que são graças para nossa vida; esperamos uma coisa e nos sobrevém outra. Achamos, pelo uso de nossa “razão”, que sabemos o que é melhor para nós, ou do que precisamos, quando, na verdade, é algo completamente diverso do que pensamos. Boas notícias não são coisas que vêm para nos agradar, mas são coisas que transformam nosso viver para o melhor para nós e para a comunidade de que fazemos parte, o que nem sempre aceitamos. Mas, quando temos plena consciência dos efeitos que as transformações necessárias para concretizar o Reino de Deus em nossa vida causam, vemos que não há alternativas e o caminho mais lógico é render-se e aceitar o que é proposto. Citação que Sobrino faz de J. Jeremias: “As boas notícias da chegada do Reino de Deus são irresistíveis (overwhelming) e trazem grande alegria”.

O sentido que Sobrino dá a Cristo como boas notícias: “Jesus anuncia e inicia o eu-aggelion (o Reino de Deus) e ele mesmo é eu-aggelion, boas notícias, porque através de sua encarnação, morte e ressurreição Deus realiza a salvação do mundo. O Reino de Deus anunciado por Jesus é boas notícias assim como também são boas notícias que Jesus o anuncie”. Isso me faz pensar na figura de Jesus em seu ineditismo em proclamar as boas notícias no contexto sócio-histórico em que vivia. Sua época tinha a violência como algo que tece o cotidiano, com alto índice de mortalidade por todo o tipo de causas. Num contexto social como esse, nada mais natural do que considerar a violência como uma alternativa. Além disso, a religião já havia deixado de ser uma referência pela helenização, pela paganização que o judaísmo de seu tempo sofrera. Mesmo assim, diante de todo um contexto que se contrapunha a ele, Jesus surgiu defendendo uma proposta contrária a todo o seu universo, desnaturalizando e contrastando com a sociedade de sua época e de seu tempo. Isso faz de Jesus uma pessoa ímpar, destoante de todos os seus coetâneos, inclusive de outros líderes carismáticos que traziam propostas de revolução e transformação social. Vejamos mais pontos colocados por Sobrino sobre Jesus.

“Uma síntese como a de Atos 10, 38 pode dizer que Jesus ‘passou fazendo o bem’, tornando a bondade de Deus em fato histórico neste mundo. Mas no Novo Testamento também se diz em que modo ele passou fazendo o bem. De forma sistemática, a epístola aos Hebreus mostra Jesus como um homem temente a Deus e misericordioso para com os seres humanos fracos. Ao mesmo tempo, o mostra como um ser humano real, próximo aos demais e em solidariedade para com eles. O fato do mediador ser assim já são boas notícias”.

Jesus é destacado por promover a libertação. Pode-se questionar sobre o que isso quer dizer, principalmente entre o público que venha a ler este texto. Mas, para além daqueles que venham a ter condições de ler este texto (acesso à internet, interesse por esses temas, etc.), encontramos pessoas tomadas pelos vícios de drogas (tanto lícitas quanto ilícitas), pelo vício do consumo, pela total carência de condições materiais para a subsistência, pela carência de condições sociais de superação da pobreza (falta ou inadequação no fornecimento público de educação, saúde, transporte, segurança, moradia, cultura, etc.), e tantas outras mazelas que sobrevêm sobre pessoas e comunidades, retirando-lhes a condição de liberdade. Para essas pessoas é que a proposta de Jesus de instauração do Reino de Deus pode ser entendida como boas notícias. “Jesus é boas notícias por causa de sua mensagem libertadora, mas é também porque nele alcançamos a aparência do verdadeiro humano”. (...) “As narrativas evangélicas mostram Jesus entrando ativamente nas vidas dos marginalizados (leprosos, publicanos, prostitutas, os pobres). Esta intimidade já é boas notícias para os marginalizados”. (...) “A realidade na qual Jesus vive é uma realidade de opressão. Sua reação primária frente a isso é a piedade. Ele sente o sofrimento dos oprimidos realmente intolerável. Isso por si são boas notícias”.

“O conteúdo da verdade de Jesus é boas notícias: ele proclama uma verdade em favor dos pobres e contra seus opressores. Também é boas notícias por ele mostrar que acredita na verdade, responde às suas demandas e está convencido de que a verdade humaniza a todos”. (...) “A liberdade de Jesus é direcionada para o bem dos outros e é liberta pela convicção da bondade de Deus. É uma liberdade libertadora fazer essa bondade de Deus real na história para os outros. Jesus tem a convicção de que Deus é bom e é o maior bem para os seres humanos. Jesus acredita que, a despeito de tudo, a realidade é, em última instância, positiva e boa; ele conhece até bem demais que a realidade é limitação, opressão e maledicência, mas acredita que sua possibilidade última também é justiça, companheirismo, graça e bênção”.

Jesus se destaca por acreditar que, mesmo diante da pior situação de opressão a acometer a humanidade, ainda há uma alternativa a ser tentada. É o homem da esperança, da perseverança, do agrupar e do fazer acreditar, para se continuar acreditando e tentando uma nova forma de vida, uma nova organização social. Ele morreu frente a seus opositores, mas jamais deixou de acreditar em uma alternativa que sobrepujasse esse mesmo sistema que o assassinou. Se há uma pessoa a quem valha a pena seguir, essa pessoa só pode ser Jesus. Outras pessoas que adotaram posturas semelhantes, até mesmo inspiradas em Jesus, também devem nos comover na mesma medida, mas nenhuma pode se equiparar ao fato de Jesus ter sido aquele que proclamou isso em palavras, mas também em atos coerentes com suas palavras, renunciando a tudo para manter essa coerência, desde sua vivência familiar até a entrega da própria vida.

“A ressurreição funciona, e se crê nela, como o horizonte último das boas notícias. Mas em segundo lugar isso não altera o fato de que, histórica e existencialmente, Jesus de Nazaré ser tomado como boas notícias por si mesmo, independentemente de sua ressurreição. E mais, na minha opinião (Jon Sobrino) a vida de Jesus tem mais peso que sua ressurreição para o entendimento do que são boas notícias na fé. Não há oposição entre Jesus de Nazaré como eu-aggelion e o Cristo crucificado e erguido como eu-aggelion. Eles se reforçam mutuamente mas, na experiência histórico-existencial, o primeiro é uma estrada necessária para se chegar ao segundo”.

Gustavo Lopes Borba
07/10/12

Agir a partir dos sinais dos tempos - Olhar para a Igreja

SEMINÁRIO DE ESTUDO
“Agir a partir dos sinais dos tempos”
Rumo ao VI Encontro Nacional
19/11/11

Objetivo:
VER e JULGAR a partir do documento preparatório:

• Olhar para a Igreja (Ms. Gustavo Borba)
Objetivo: analisar os últimos 30 anos de ação pastoral a partir do Concílio Vaticano II, considerando: Igreja Povo de Deus, a Teologia da Libertação, Medellín/Puebla, Santo Domingo/Aparecida, romanização do jeito de ser Igreja, espiscopalização, direito canônico e pastoral, tutela do laicato, questão da mulher, diminuição dos católicos. O discurso profético e inovador do CV II e a prática de reordenamento e institucionalização dos espaços eclesiais.

AGRADECIMENTOS
Agradeço ao Edson pela confiança em me convidar para este Seminário de Estudos. Também agradeço à comissão de formação do CLASP, na pessoa da Mírian, por me permitir fazer parte e contribuir de alguma forma com o laicato em São Paulo. Quero me desculpar antecipadamente pela superficialidade de algumas das afirmações que vou fazer, mas é preciso compensar o pouco tempo disponível para o grande número de informações.

PREÂMBULO
1. Primeiro, gostaria de perguntar a vocês o que a palavra euangelion, que aportuguesamos como Evangelho, significa.

2. E o verbo “evangelizar”? Guardem isso, porque vamos voltar a isso depois.

DE VOLTA AO CONCÍLIO VATICANO II
3. Bem, aqui estamos de novo falando do Concílio Vaticano II (CV II). Já se passaram 46 anos desde o término do CV II e ainda continuamos falando dele. Quais os motivos? O que ele representa para a vida da Igreja hoje, para que a gente continue falando dele?

4. O CV II mudou toda a forma da Igreja ser para si mesma e para o mundo. Foi um concílio de renovação e de atualização, fomentando a abertura ao diálogo. Para compreendermos o que mudou depois de tanto tempo, é preciso fazer contrastes com o jeito da Igreja antes e depois do CV II. Antes as missas eram celebradas em latim e quem não conhecia a língua, no mundo todo, não entendia e nem podia participar efetivamente da celebração. Hoje as missas são celebradas na língua natal de cada país e todos são co-celebrantes junto com o padre que preside a celebração. O padre ficava de costas para os fiéis e hoje já encontramos igrejas em que o altar fica no centro, possibilitando maior participação de todos. A Igreja se considerava à parte do mundo, que era visto como um local de pecados. Considerava-se que não haveria chance de salvação de ninguém de fora da Igreja Católica e hoje se considera que a Igreja é um dos caminhos de salvação. A Igreja estava identificada com a hierarquia e hoje se tem um discurso de que todos são membros da Igreja, apesar de que isso não encontra paralelismo com o que se vive no cotidiano. Antes leigas e leigos eram vistos como ovelhas a serem apascentadas, seguidoras sem questionamento do que era dito pela hierarquia. Hoje ainda persiste um posicionamento de alguns, tanto presbíteros quanto leigos, que gostariam que as coisas fossem assim, mas estamos caminhando e crescendo em formação e em discernimento para atuar ministerialmente em comunhão.

5. O CV II foi revolucionário nas mudanças que propôs para a Igreja. De fato, ainda estamos esperando a plena efetivação dessas mudanças, de tão profundas que foram.

CONFERÊNCIAS EPISCOPAIS LATINOAMERICANAS
6. O CV II foi tão importante para transformar a Igreja que suas influências se fazem sentir até hoje e estão presentes nos documentos das conferências episcopais latinoamericanas.

7. A primeira conferência episcopal latinoamericana foi realizada no Rio de Janeiro, em 1955, antes, portanto, do CV II. De um de seus pedidos ao papa nasceu o CELAM, o Conselho Episcopal Latino Americano.

8. A segunda conferência episcopal latinoamericana foi realizada em Medellín, na Colômbia, em 1968, e já foi realizada com o objetivo de contextualizar as conclusões do CV II para a realidade latinoamericana. A forma com que isso foi feito foi além do que o CV II poderia prever, pois a conferência de Medellín mudou radicalmente a forma da Igreja latinoamericana, voltando-a aos pobres e fazendo-se encarnada nas diversas realidades vividas pelos países da região, o que era um desejo não realizado por São Hélder Câmara*  durante sua participação no CV II e agora concretizado. Em muitos países latinoamericanos já encontrávamos o domínio de ditaduras militares instauradas após golpes. A forte interferência do governo estadunidense no continente a fim de ganhar e preservar força na guerra fria causou o fim de muitos processos democráticos e levou à opressão de todos os povos ao sul do rio Grande.

* Hélder Câmara e outros são aqui tratados como santos porque a Igreja Comunidade não necessita da aprovação da Santa Sé para considerar algum seguidor de Cristo – ou qualquer outra pessoa que agiu bem – como santo, pois consideramos santo aquele que se destaca como exemplo de seguimento e de luta pelo bem dos filhos e filhas de Deus.

9. A terceira conferência episcopal latinoamericana ocorreu na cidade mexicana de Puebla, em 1979. Reafirmou as opções de Medellín e fortaleceu a opção pelos jovens, além de refletir a influência da exortação pastoral de Paulo VI, Evangelii Nuntiandi. Nesta conferência já se fez sentir o peso da intervenção de Roma, reflexo do temor da influência do materialismo histórico**  na Igreja latinoamericana e uma preocupação com a nascente Teologia da Libertação.

** O materialismo histórico é o método de interpretação da História adotado por Karl Marx e, em suma, adotava a noção de que os movimentos da História podem ser explicados pelas alterações no modo de produção material da humanidade.


 10. A quarta conferência episcopal latinoamericana foi realizada em Santo Domingo, na República Dominicana, em 1992, e foi caracterizada pela mudança de prioridades, não havendo mais o foco central na opção preferencial pelos pobres e pelos jovens, mas na inculturação e no protagonismo dos leigos. Em Santo Domingo também vemos o abandono da tradicional metodologia VER-JULGAR-AGIR, refletindo diretamente a intervenção de Roma no andamento da conferência. Tal conferência foi a que menos repercutiu na Igreja latinoamericana pela baixa adesão às suas propostas.

11. A quinta conferência foi realizada em Aparecida, no Brasil, em 2007 e enfatizou os aspectos do discipulado e missionariedade do seguimento de Jesus, apontando os cinco rostos sofredores: pessoas em situação de rua, migrantes, enfermos, dependentes de drogas e presos. Novamente não se dá ênfase à opção pelos pobres e percebe-se um esforço em apresentar outra metodologia de análise da realidade a partir de referenciais pastorais, excluindo-se o materialismo histórico.

PAPADO DE JOÃO PAULO II
12. O papa João XXIII exerceu seu papado de 1958 até 1963, morrendo em pleno CV II. Quando convocou o CV II em 1959, a palavra italiana usada para descrever o significado desse concílio foi “aggiornamento”, que significa “colocar-se em dia”, “atualizar-se”.

13. O papa Paulo VI († 1978) veio em seguida e deu continuidade ao CV II, um processo já em andamento. Talvez por isso mesmo ele não tenha conseguido progredir em aspectos considerados fundamentais para a continuidade do processo de abertura da Igreja. Por exemplo, sua encíclica Humanae Vitae, sobre a regulação da natalidade, veio reafirmar posturas da hierarquia da Igreja contra métodos anticoncepcionais considerados não naturais, como pílula ou camisinha, e defendendo métodos “naturais”, como “tabelinha”, além de afirmar que a união do casal deve necessariamente estar direcionada para a procriação.

14. O papa João Paulo I viveu somente um mês e não representou muito em termos da análise do CV II.

15. O papa João Paulo II († 2005) foi quem efetivamente pôde promover a implementação das resoluções do CV II. Toda a avaliação quanto ao CV II ter sido ou não ainda implementado cabe ao papado de João Paulo II*** .

*** Evidentemente, não estamos aqui nos referindo apenas à pessoa de João Paulo II ou à sua ação ou omissão diretas na implementação, mas na figura que representou e em suas opções de ação, assim como sua submissão a forças internas à Igreja Instituição.

16. João Paulo II viveu na Polônia dominada pela URSS e pelo comunismo. Em plena guerra fria, o padre que viria a se tornar papa viveu atrás da “cortina de ferro”. O chamado socialismo real – assim chamado por ser considerado como o exemplo prático de socialismo e não apenas uma teoria – se mostrou, na verdade, ser um regime antidemocrático, tirano e violento. Os dois países que polarizaram o mundo após a Segunda Grande Guerra – Estados Unidos e URSS – dividiram o mundo em áreas de influência. Da parte da URSS, ficaram todos os países do leste europeu, incluindo aí a Polônia de João Paulo II. Não bastasse isso, a URSS invadiu e endureceu o controle dos países sob sua influência após a chamada Primavera de Praga, movimento reformista democratizante ocorrido na Tchecoslováquia em 1968 que buscou abrandar a repressão do modelo soviético de comunismo. Isso desagradou Moscou, que mandou tropas para derrubar o governo reformista e manter o país sob controle. Para João Paulo II, o maior inimigo era o comunismo, sob o qual viveu. Não que ele aceitasse o capitalismo, mas pareceria contraditório apregoar contra o capitalismo, pois pareceria estar defendendo o comunismo. Após a queda do muro de Berlim o papa chegou a se colocar contra o capitalismo e contra uma globalização desigual, mas aí ele já estava próximo ao fim da vida, doente e cansado. Esse embate contra a exploração capitalista dos povos jamais chegou a ser feito.

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
17. Por sua aversão a qualquer coisa que lembrasse o sofrimento que sua terra natal e ele mesmo sofreram nas mãos do comunismo, João Paulo II jamais soube compreender o papel da Teologia da Libertação e seu uso do materialismo histórico como método de análise do contexto social da América Latina****  e atuou no combate a tal teologia e ao método materialista. Infelizmente ele não demonstrou a compreensão de que, assim como ele e os seus sofreram nas mãos dos comunistas, os povos latinoamericanos também sofriam nas mãos dos capitalistas. A Teologia da Libertação procurou dar uma resposta dos cristãos frente a tanto sofrimento e exploração. Como os cristãos poderiam se eximir de indignar-se frente ao sofrimento e à opressão de tantos sob regimes militares que sufocavam seus opositores com tanta violência? A Teologia da Libertação foi a resposta encontrada por cristãos inspirados pelo CV II em seus diversos documentos. Agora retomemos o significado do que é evangelizar. Muitos documentos, inclusive a Evangelii Nuntiandi e o documento de Puebla centram o sentido de “evangelizar” na proclamação da pessoa e da mensagem de Jesus. Mas como falar em ação de Deus no mundo diante de tanta morte, sofrimento e exploração? É hipocrisia dizer a todos que Jesus os ama e ignorar que tais pessoas sofrem com a fome, a violência, o desemprego, o abandono. A resposta só é possível quando consideramos que é um imperativo evangelizador lutar pela promoção desse povo sofrido e procurar mudar as estruturas que causam a morte de tantos. O objetivo geral das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil do período 2011-2015 é: “Evangelizar, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida (cf, Jo 10, 10), rumo ao Reino definitivo”. Assim, evangelizar é trazer a boa notícia de que Deus está do lado daqueles que sofrem e promove a superação das condições que causam sofrimento a cada um dos rostos sofredores de Aparecida e outros que ali não foram citados. Evangelizar é dar a boa notícia que os sofredores necessitam. É levar à superação da dependência química aos drogados, é garantir emprego e renda aos desempregados, é promover política habitacional aos desabrigados, é promover a igualdade de gêneros para as mulheres que sofrem, etc. E isso também é influência do CV II.

**** Como bem lembrou a Ana Flora durante o Seminário, a Teologia da Libertação não fazia uso direto do materialismo histórico. Talvez apenas Hugo Assmann tenha feito esse uso. Porém, como psicólogo social discursivo, considero que a pragmática do discurso conta com tanta força quanto os fatos e, pela postura de João Paulo II e da Cúria Romana, a Teologia da Libertação estava identificada com o materialismo histórico. Também as forças conservadoras de direita faziam essa identificação, haja vista que os generais que governaram o Brasil e a imprensa da época da ditadura militar chamavam são Hélder Câmara de “O bispo vermelho”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
18. Para terminar, gostaria de lembrar que os chamados padres conciliares, aqueles que participaram do CV II, estão morrendo. São Hélder Câmara († 1999), São Luciano Mendes de Almeida († 2006)***** , São Aloísio Lorscheider († 2007), São Antônio Batista Fragoso († 2006), Dom Jorge Marcos de Oliveira († 1989), São João Batista da Mota e Albuquerque († 1984). As novas gerações de bispos e presbíteros pouco têm feito para implementar o CV II ou mesmo estão desfazendo aos poucos suas transformações. Hoje já temos a autorização do papa para que missas sejam celebradas em latim novamente em alguns lugares. Seminaristas estão retornando com o costume de vestir batina. Aos poucos as mudanças vão chegando e revertendo os passos dados. E nós, como nos colocamos diante disso?

***** São Luciano, efetivamente, nem era bispo nos anos do CV II. Porém, gostaria de incluí-lo aqui pela sua atuação fervorosa durante as conferências episcopais latinoamericanas e pelo seu empenho em viver segundo as orientações advindas do CV II. Ele é, para nós, realmente um “santo”, um exemplo de fidelidade ao Evangelho e à tradição da Igreja Comunidade.


 19. O texto-base preparatório para o nosso VI Encontro Nacional apresenta as partes 1 e 2 – momentos VER e JULGAR – relativamente extensos, enquanto que a parte 3, AGIR, é menor. Essa postura é justificada por expressar a crença de que o agir deve ser construído coletivamente, em diálogo, e com a reflexão advinda de um bom exercício do VER e do JULGAR o momento atual. Muitas pessoas esperam que alguém diga a elas o que devem fazer. Mas o maior dom deste seminário de hoje é possibilitar às pessoas interessadas que conquistem instrumentos analíticos que lhes permitam perscrutar os “Sinais dos tempos”, ou os “sinais do Espírito” a fim de responderem aos desafios atuais que se apresentam, assim como fez o papa João XXIII, ou como fez a Igreja da América Latina. Também nós somos chamados a responder aos desafios que afligem leigas e leigos nos dias de hoje a fim de manter viva e atual a mensagem do Evangelho, que deve ser uma boa mensagem aos povos de nosso tempo e lugar. E isso só se faz quando ouvimos os chamados do Espírito.

20. Para terminar, gostaria de ler o evangelho de Lucas, cap. 12, versículos de 54 a 57, na Bíblia do Peregrino:

“Disse ao povo:
- Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, dizeis logo que haverá chuva, e assim acontece. Quando sopra o vento sul, dizeis que haverá mormaço, e assim acontece. Hipócritas! Sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu, e não sabeis interpretar a conjuntura presente? Por que não julgais por vossa conta o que é justo?”

Obrigado.