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Páscoa sob chave de interpretação do Reino de Deus

Páscoa novamente
            Novamente celebramos a páscoa. Tradicionalmente, entre os cristãos é dia em que se relembra a ressurreição de Jesus Cristo, que ressurgiu do túmulo após sua morte e abriu caminho a seus seguidores para a vida nova que há de vir após o fim dos tempos, quando todos serão julgados e terão seu destino determinado entre a vida eterna junto a Deus ou a perdição eterna.

            “Páscoa” deriva da palavra hebraica “pesach”, cujo significado é “passagem” e que se refere à saída do povo hebreu da escravidão a que eram submetidos no Egito. Ou seja, diz respeito à passagem de uma vida de escravidão e opressão à vida em liberdade e autodeterminação. A páscoa cristã também se refere a um movimento de passagem, de mudança de vida, em que a tradição é crer na passagem da vida terrena, limitada e cheia de dores, para a vida celeste, infinita e indolor. É a crença na vida eterna pós morte, junto a Deus e a seus escolhidos.

            O fundamento sobre o qual se firma a tradição é a ressurreição de Jesus, após 3 dias de sua morte, de forma a se tornar o primeiro a adentrar essa nova vida por meio dessa passagem da vida terrena à vida celeste. Ele seria o primeiro e, para se chegar lá, o caminho se faz no seguimento de sua vida. Se formos dignos de viver como Jesus Cristo, seremos elevados à dignidade de morrer e ressuscitar como ele, passando desta vida para a vida celeste junto a Deus.

Relatos da páscoa
            Todo o conhecimento que temos sobre a ressurreição de Jesus nos vem dos relatos dos evangelhos. E aqui começam os problemas. Pois todos sabemos que os evangelhos não se pretendiam textos jornalísticos e nem históricos. São mensagens com destinatários certos e com objetivos delimitados à época e contexto histórico. Seus escritores usaram os recursos e métodos da época, mas também de sua origem, a fim de construir seus textos de forma a que seus destinatários pudessem assimilar as mensagens que queriam transmitir.

            Por origem, os produtores dos textos evangélicos são semitas orientais. Como orientais, sua forma de compreender e produzir textos difere bastante de nossa forma atual. Quando lemos um texto, a primeira pergunta que procuramos responder é “como foi que tudo aconteceu?”, enquanto que os orientais daquela época e lugar procuravam responder: “o que isso quer dizer para mim hoje?”. São duas formas essencialmente diferentes de procurar entender o significado de um texto. Isso repercute na forma com que eles liam os evangelhos à época e causa confusões na forma com que os lemos hoje.

            Portanto, para se compreender hoje o sentido que se pretendia transmitir por meio dos textos evangélicos, é preciso ter em mente a ressalva apontada acima e retomar os textos de uma nova perspectiva. Quando relemos em João 20, 1-9 a descrição do encontro dos discípulos com o sepulcro vazio, devemos nos perguntar “o que isso quer dizer?”, tomando em conta o contexto da vida e da missão de Jesus e o significado que o evento de sua ressurreição tem para seus seguidores naquele e nos contextos futuros da nascente comunidade cristã no entorno do Mediterrâneo. Não podemos nos esquecer que a produção dos textos dos evangelhos foi feita anos após os eventos que eles pretendem relatar (presume-se a elaboração do evangelho de João nos anos 90 do primeiro século da era cristã) e são fruto da junção de diversas tradições orais.

Paralelos da ressurreição
            Para algumas pessoas, é impensável realizar qualquer questionamento em torno à ressurreição, já que, como diz Paulo, “se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou” (1 Cor 15, 13). Porém, cabe lembrar aqui que não é a ressurreição o que distingue Jesus Cristo dos demais e o faz especial. De fato, a ressurreição não é privilégio ou exclusividade de Jesus. Em sua época, havia o culto a Mitra praticado entre os romanos, principalmente entre os soldados, que o levaram à Grã-Bretanha, à Alemanha e a postos avançados do império. No início da era cristã, seu culto já havia se espalhado para a Índia, Babilônia e até Portugal. Mitra era uma divindade indo-iraniana cuja referência mais antiga remonta ao 2º milênio a.C.. O culto surgiu na Índia, tendo se difundido pela Pérsia e mais tarde pelo médio oriente, tendo rivalizado com o cristianismo em número e taxa de crescimento de fiéis.

            Mitra é o deus da luz, combatente do mal, protetor dos justos e mediador entre a humanidade e o ser supremo. Assim como Cristo, Mitra encarnou para viver entre os homens e morreu para que todos fossem salvos. O festival romano da Saturnália, dedicado ao deus Saturno, era celebrado entre 17 e 23 de dezembro e havia o costume de se trocar presentes nos dois últimos dias. Em 25 de dezembro se celebrava o nascimento do sol invencível, ou seja, era o solstício de inverno, momento em que o sol está mais distante do equador e a partir de tal momento passa a se aproximar gradativamente, trazendo tempos mais quentes. À medida que as tradições romanas iam sendo suplantadas pelas tradições orientais importadas, os maiores festejos realizavam-se em honra do deus Mitra, cujo nascimento se comemorava a 25 de Dezembro. Coincidentemente, o mesmo dia em que celebramos o nascimento de Jesus. Há outros pontos em comum entre Jesus e Mitra: este também nasceu de uma virgem; pastores, que assistiram ao evento, foram os primeiros que o adoraram; o líder do culto mitráico era chamado de papa e ele governava de um “mithraeum” na Colina Vaticano, em Roma; uma característica iconográfica proeminente no mitraismo era uma grande chave, necessária para destrancar os portões celestiais pelos quais se acreditava passarem as almas dos defuntos; os mitraistas consumiam uma comida sagrada (myazda) que era composta de pão e vinho; assim como os cristãos, eles celebraram a morte reconciliadora de um salvador que ressuscitou em um domingo.

            Apesar de se colocar em pé de igualdade com o cristianismo nos primeiros séculos de nossa era em termos de número de fiéis e índice de crescimento, é o cristianismo, conforme interpretado por Paulo e pelos Padres da Igreja, que alcança o status de religião oficial do império romano. O mitraismo sumiu oficialmente em 377 d.C., data em que o imperador cristão Teodósio proibiu todas as religiões diferentes do cristianismo. Pequenos grupos de adeptos continuaram secretamente a prática do culto até o século V, quando os bispos desencadearam pesada perseguição contra os cultos solares. Surpreendentemente, a própria Igreja cristã incorporou boa parte das práticas mitraistas, como a liturgia do batismo, da crisma, da eucaristia, da páscoa, e a utilização de incenso, de velas, dos sinos, etc. Até as vestimentas usadas pelo clero católico eram extremamente parecidas com as dos sacerdotes de Mitra. Enfim, um sistema religioso que pretende se tornar preponderante não pode abrir mão de ritos e símbolos que funcionavam anteriormente para adeptos de outras tradições, sem correr o risco de perder em números e não conseguir se firmar. Ao ressignificar rituais e celebrações de religiões passadas ou proibidas, o cristianismo se torna mais familiar aos antigos seguidores dessas religiões e se torna alternativa viável, cuja aceitação não causa tanto estranhamento devido às similitudes com as religiões anteriores.

Escolhido de Deus
            Se a ressurreição não é um diferencial de Jesus, o que há de importante em sua páscoa para diferenciá-la? Apesar das similaridades com a tradição mitráica, a vida de Jesus atraiu seguidores judeus, cujas esperanças se apoiavam na tradição do surgimento do messias (que quer dizer “ungido” em hebraico e se diz “cristo” em grego – unção é colocar óleo na cabeça como rito que marca o recebimento de influência espiritual, usado entre os antigos reis de Israel como distinção que marcava sua escolha como reis por Deus) como forma de libertação do mando imperialista romano. A terra em que existia Israel foi tomada pelos romanos em 63 a.C., mas já fora submetida a outros domínios anteriormente. Sob os romanos, obtiveram tolerância para a prática religiosa. Mas aos judeus, repletos de restrições que garantissem pureza para o contato com Deus, mesmo com a tolerância religiosa, era inaceitável a dominação romana e a espera pelo surgimento do messias salvador do povo hebreu tomou tons de iminência. Dessa forma, não pareceu estranho ao povo ouvir do surgimento de mais um candidato a messias do povo, dentre tantos outros que assim se haviam identificado. O messias era o rei que surgiria para unir os israelenses na luta contra os impuros dominadores e que libertaria Israel para a instauração do reino definitivo da nação escolhida pelo próprio Deus.

Para a instauração do Reino
            Conhecemos Jesus como “Cristo”, ou seja, a seu nome ficou apenso o título grego de “ungido”, de rei escolhido por Deus. Que podemos dizer sobre o sentido que a páscoa tem hoje para nós? Como podemos interpretar as passagens evangélicas sobre a páscoa de Jesus? Antes de tudo, devemos nos lembrar que Jesus jamais se colocou como o fim mesmo do seguimento, mas priorizava propagar o Reino de Deus como alternativa à constituição do mundo como era naquele momento. Assim, Jesus não se definia como o fim último da crença ou, como prefiro, da fidelidade a si, mas sim a constituição do Reino de Deus, como ponto alto de sua atuação e do que solicitava daqueles que desejassem se tornar seus seguidores. Jesus queria instaurar o Reino de Deus ainda nesta vida, e não somente na vida após a morte. Mas seu Reino não se limitava ao reino das esperanças israelitas, que se restringiam ao mundo político-religioso-cultural, de libertação da dominação romana para a autodeterminação judaica.

            O Reino se faria presente não por uma intervenção divina (escatologia apocalíptica, do tipo de João Batista), mas por meio da conversão interior dos que se dedicassem ao seguimento de Jesus praticando suas proposições de vida (escatologia ascética, de Jesus). O objetivo de Jesus, portanto, era a instauração do Reino de Deus por meio da conversão de “corações e mentes” à proposta que apresentava para que as pessoas mudassem sua forma de ser e incorporassem a solidariedade, a fraternidade, a partilha e a presença “curadora” em suas relações interpessoais. Essa é a chave de interpretação dos relatos dos evangelhos, incluindo aí a descrição da páscoa de Jesus.

Por meio de seus seguidores
            Se páscoa é passagem, para onde, então? Precisamos realizar a passagem interna, mudar nosso interior para nos tornarmos pessoas melhores e mais humanas, pois o humano se tornou escasso na atualidade. Mas não só isso, pois isso não é suficiente para a construção do Reino de Deus. Uma vez ouvi de uma irmã em Cristo que ser cristão é tratar bem as pessoas, ser educada e cordeira, sorrir onde não há sorrisos, e que a discussão política não é necessária. Ouvi de outro irmão em Cristo que o capitalismo é o melhor sistema de produção que a humanidade já produziu. Diante dessas declarações, sinto que ainda há necessidade de se fazer a páscoa entre os cristãos, que ainda há necessidade de esclarecimentos e de se fortalecer a mensagem original de Jesus, que não queria somente uma transformação interna, como os budistas propõem, mas que faz um chamamento para que todas as pessoas transformem suas mudanças interiores em ações exteriores, que lutem para construir o Reino, que lutem para transformar esse nosso mundo de acordo com os desígnios de Deus. É muito pouco achar que ser cristão, diante das tristezas e desumanidades presentes no mundo – como as 50 mil crianças que morrem de fome e doenças diariamente, como os assassinatos, raptos e violações de mulheres, como a exploração do trabalho infantil e do trabalho escravo – que basta sorrir diante de tudo isso para garantir que se está sendo fiel ao chamamento de Jesus.

            Assim como se pode crer que o sistema elaborado para a acumulação do lucro, não importa sobre quem ou com quantas desigualdades tecidas, quantas vidas empobrecidas e destruídas, que esse sistema seja considerado como sendo o melhor sistema de produção já concebido, assim também somos chamados a dar uma enfática resposta enquanto seguidores de Jesus. Não! Não é essa a resposta do cristão, não é esse o seguimento que Jesus pede. Ele pede a passagem de tudo isso para o Reino, para um mundo de fraternidade, de igualdade, de partilha dos bens da vida, de apoio mútuo, de valorização das pessoas pelo que elas são, e não pelo que consomem ou produzem. Um outro mundo é não só possível, como também necessário. Estamos diante de uma calamidade mundial, maior que a ameaça da guerra fria, que é o aquecimento global, capaz de ampliar todas as mazelas sociais que atualmente afligem a humanidade. Qual será a resposta dos cristãos: irão se empenhar na construção do Reino acolhendo os que sofrem, propondo alternativas às medidas tímidas dos governos, ou irão lamentar e se trancar nos templos clamando aos céus pela salvação?

Encontrando o ressuscitado
            Jesus ressuscitou e vive em cada comunidade de seus seguidores que procura colocar em prática suas propostas para a instauração de uma vida nova entre as pessoas, de acordo com o que ficou conhecido como Reino de Deus. Ali, onde as pessoas procuram viver laços fraternos, na solidariedade e na partilha dos bens necessários à vida, ali mesmo Jesus ressuscitado vive entre nós. Ali a páscoa aconteceu e testemunha a necessidade de que aconteça em todas as outras relações humanas que ainda não alcançaram este nível de transformação e de humanização, que somente Deus mesmo poderia propor.

            Provamos ao mundo que Jesus venceu a morte quando o honramos fazendo de nossa vida o testemunho do Reino de Deus.

Gustavo Lopes Borba

04/04/15 

Boas Notícias como Reino de Deus e como testemunho de Jesus


Recebi em empréstimo, de uma nova amiga, o livro The future of liberation theology: Essays in honor of Gustavo Gutiérrez, editado por Marc H. Ellis e Otto Maduro em 1989. O livro é bastante instigante e trata dos vários aspectos da teologia de Gustavo Gutiérrez, mais conhecido como o “pai” da Teologia da Libertação, pois foi o primeiro a nomear a teologia que acontecia na América Latina por este nome. Junto a Gustavo Gutiérrez temos nomes como Leonardo Boff, Frei Betto, Hugo Assmann, Juan Luis Segundo e Jon Sobrino, dentre outros. Aqui me dedico a compilar e comentar extratos do capítulo 25, “Jesus, theology, and good news”, de Jon Sobrino.

Ao fazer a leitura do capítulo “Jesus, theology, and good news”, de Jon Sobrino, do livro The future of liberation theology, percebo que ele está direcionado a teólogos, refletindo sobre a realidade essencial do cristianismo como eu-aggelion (evangelho, boas notícias) e as consequências disso para a teologia. Ele ainda analisa a relação entre teologia e boas notícias em dois de seus aspectos: a apresentação precisa de Cristo como boas notícias e o modo evangélico de teologia. Como não sou teólogo, não posso me sentir destinatário dos pontos que Sobrino levanta aos cuidados que teólogos devem ter ao realizar seu ofício. Porém, senti-me particularmente interessado quanto à especificação das boas notícias e sua relação com o Reino de Deus, tema particularmente de meu interesse.

Considero que a proposta de vida que Jesus nos faz está sintetizada no termo “Reino de Deus” e que sua proposição aos pobres, injustiçados e oprimidos do mundo vem a ser boas notícias, evangelho. Na verdade, a proposta do Reino de Deus representa boas notícias a essas pessoas justamente pela situação em que elas se encontram e pelo que o Reino traz de nova organização social e comunitária, restabelecendo sua posição de cidadania, inclusão e sustância. De fato, para pessoas que não se encontram nas situações apontadas acima, como pobres, oprimidos e injustiçados, talvez as propostas de estilo de vida de Jesus não pareçam assim tão boas notícias pelo que implica em mudanças no cotidiano e na relação comunitária. Para quem não tem nada, ou perdeu tudo, pensar em uma mudança que leve à partilha dos bens e à solidariedade para com os demais pode representar a única alternativa à morte. Para pessoas de posses, talvez isso se torne o contrário, a própria morte em vida, pelo necessário despojamento e renúncia à forma de vida alcançada pela posse de bens.

Sobrino dá grande ênfase ao papel das boas notícias para o entendimento do que é o cristianismo. De fato, ele chega a afirmar que elas são o conteúdo central da teologia e são também o princípio hermenêutico para dizer se uma teologia é cristã ou não. Ou seja, ao dizer que boas notícias são o princípio hermenêutico, ele quer dizer que são a chave de leitura para dizer se uma teologia é cristã ou não. Teologias que ele chama de cristãs devem se referenciar às boas notícias, para serem consideradas realmente cristãs. Afirma que podemos entender o termo eu-aggelion como expressão do que é bom e positivo no cristianismo, mas com características específicas. Que o bem e o positivo despontam no tempo, acontecem como algo real nas vidas humanas e são anunciados claramente. Porém, antes que pensemos que se trata de uma posição ingênua de sua parte, ele alerta que boas notícias nada têm a ver com atitudes otimistas ou ingênuas. Muito menos com escapismo de realidades desagradáveis. Não suaviza, adoça ou edita a tragédia da história ou os esforços custosos e dolorosos para transformá-la.

Quando recebemos boas notícias, tendemos a comunicá-las às pessoas queridas mais próximas. Boas notícias não costumam ser guardadas, mas divulgadas. Ainda mais quando representam a possibilidade de melhoria das condições de vida, diante de estados de penúria e abandono massacrantes. Sobrino nos alerta, entretanto, que boas notícias não podem ser bem comunicadas, mesmo em linguagem teológica, sem convicção, sem esperança, ou sem alegria. De forma mais radical, se o cristianismo cessar totalmente de ser boas notícias, ele simplesmente cessaria de ser cristianismo. As boas notícias pertencem à identidade do cristianismo e, portanto, é o que o faz relevante. Em seu texto, ele cita Schillebeeckx sobre as igrejas que estão se esvaziando porque os cristãos perdemos a capacidade de apresentar o evangelho para nossos contemporâneos com fidelidade criativa e como boas notícias. Consequentemente, se há uma crise óbvia de relevância – “as igrejas estão se esvaziando” – isto é derivado de uma crise de identidade: por não se saber o que fazer com o eu-aggelion como tal.

Como havia dito acima, as boas notícias podem não sê-lo para todas as pessoas, principalmente num ambiente de disseminação expressiva do cristianismo, em que ele se tornou mais uma prática ritual sem vida ou sentido à maioria dos seus adeptos do que uma proposta de vida plena, extremamente significativa como forma de nova organização social comunitária. A teologia cristã, diz Sobrino, ao invés de comunicar o conteúdo central de sua verdade – o que são as boas notícias – acabou sendo pensada mais e mais em termos de firmar a verdade (o magistério, a tradição, as escrituras). Isso é melhor expresso por Sobrino quando apresenta as diferenças de visão entre Paulo e Jesus sobre as boas notícias. Na visão de Paulo, o eu-aggelion é destinado para todos, enquanto que na visão de Jesus o eu-aggelion é boas notícias diretamente para os pobres deste mundo e somente para eles. Quando a teologia se dedica aos pobres deste mundo, ela fala sobre esperança histórica. Então, de forma visível, o que a teologia comunica traz esperança, alegria e gratidão reais. Isso também requer ação. Por outro lado, quando as boas notícias são direcionadas para todos os seres humanos, essas boas notícias tendem a se concentrar na esperança universal ou na esperança transcendental de salvação escatológica – algumas vezes espuriamente traduzida em mera sobrevivência após a morte – e é difícil combinar isso com esperança e alegria históricas ,que podem ser visivelmente obtidas aqui na Terra.

Refletindo sobre a relevância do cristianismo diante da distância de sua proposta frente à situação de grande número de cristãos, para quem a proposta não representa ser boas notícias mas, ao contrário, más notícias, exatamente pelas renúncias materiais e do egoísmo, proponho uma nova forma de se pensar as boas notícias. Se o cristianismo não tem relevância para os seus adeptos no mundo de hoje, cresce a demanda pela ritualização e pela reafirmação da verdade. O cristianismo precisa voltar a ser relevante para toda e qualquer pessoa, e isso pode ser alcançado considerando que diferentes grupos de pessoas necessitam diferentes boas notícias. Por exemplo, para pessoas que têm acesso a alimento e posses, mas não desfrutam do verdadeiro sentido da vida, chegando às raias de cometerem suicídio, boas notícias são desvendarem o sentido da vida para além da posse e usufruto dos bens materiais, desfrutando da alegria proporcionada pela vida. O que quero dizer é que é possível encontrar boas notícias para toda e qualquer pessoa a partir do cristianismo, desde que nos coloquemos como servidores das mais profundas necessidades humanas não abarcadas pela posse de bens ou pela vida desregrada. Caso tenhamos sucesso nessa empreitada, o cristianismo voltará a ter relevância para o mundo, mas desde que não percamos a dimensão de serviço e de chamado à ação inerentes à proposta do Reino de Deus. Para exemplificar, dou o testemunho do desempenho do papel de pai, que deseja o melhor para o filho e não oferece a ele o que ele quer, mas sim o que ele precisa. Muitas vezes tenho que negar ao meu filho alguma coisa que pode resultar negativo para ele, e outras vezes ofereço algo diferente do que ele pediu, porque o que ele pediu não é benéfico. Da mesma forma, ao procurarmos disseminar as boas novas a esse nosso mundo atribulado e confuso, perdido em meio a tantos chamados contraditórios, temos que ter em mente as palavras de Sobrino: “As palavras usadas para afirmar formalmente que a essência da realidade cristã é o bem e o supremo bem são: amor, justiça, salvação, redenção, libertação”. Ao procurarmos promover boas notícias, elas devem ser reguladas por esses valores, não pelos desejos superficiais e egoístas que diferentes grupos de pessoas têm. É como diz Santo Agostinho: “Ama, e faze tudo o que queres”. Ou seja, se o seu critério para fazer tudo o que quiser é o amor, nada do que faça será em prejuízo a você ou à sua comunidade, e tudo o que você se sentir movido a fazer será em benefício de todos; o seu próprio querer será movido pelo amor, e não pelos “baixos apetites” (cf. Rm 6, 12).

“A despeito de que o que é bom no que concerne às boas notícias é compreensível, e portanto analisável pela razão, as boas notícias como tais não são obtidas somente pela razão, mas são-nos dadas. Um de seus elementos é o fato de serem um dom, uma graça”. Ou seja, muitas vezes recebemos graças, mas não as percebemos e não as reconhecemos como tais. Isso porque temos uma expectativa totalmente diversa do que são graças para nossa vida; esperamos uma coisa e nos sobrevém outra. Achamos, pelo uso de nossa “razão”, que sabemos o que é melhor para nós, ou do que precisamos, quando, na verdade, é algo completamente diverso do que pensamos. Boas notícias não são coisas que vêm para nos agradar, mas são coisas que transformam nosso viver para o melhor para nós e para a comunidade de que fazemos parte, o que nem sempre aceitamos. Mas, quando temos plena consciência dos efeitos que as transformações necessárias para concretizar o Reino de Deus em nossa vida causam, vemos que não há alternativas e o caminho mais lógico é render-se e aceitar o que é proposto. Citação que Sobrino faz de J. Jeremias: “As boas notícias da chegada do Reino de Deus são irresistíveis (overwhelming) e trazem grande alegria”.

O sentido que Sobrino dá a Cristo como boas notícias: “Jesus anuncia e inicia o eu-aggelion (o Reino de Deus) e ele mesmo é eu-aggelion, boas notícias, porque através de sua encarnação, morte e ressurreição Deus realiza a salvação do mundo. O Reino de Deus anunciado por Jesus é boas notícias assim como também são boas notícias que Jesus o anuncie”. Isso me faz pensar na figura de Jesus em seu ineditismo em proclamar as boas notícias no contexto sócio-histórico em que vivia. Sua época tinha a violência como algo que tece o cotidiano, com alto índice de mortalidade por todo o tipo de causas. Num contexto social como esse, nada mais natural do que considerar a violência como uma alternativa. Além disso, a religião já havia deixado de ser uma referência pela helenização, pela paganização que o judaísmo de seu tempo sofrera. Mesmo assim, diante de todo um contexto que se contrapunha a ele, Jesus surgiu defendendo uma proposta contrária a todo o seu universo, desnaturalizando e contrastando com a sociedade de sua época e de seu tempo. Isso faz de Jesus uma pessoa ímpar, destoante de todos os seus coetâneos, inclusive de outros líderes carismáticos que traziam propostas de revolução e transformação social. Vejamos mais pontos colocados por Sobrino sobre Jesus.

“Uma síntese como a de Atos 10, 38 pode dizer que Jesus ‘passou fazendo o bem’, tornando a bondade de Deus em fato histórico neste mundo. Mas no Novo Testamento também se diz em que modo ele passou fazendo o bem. De forma sistemática, a epístola aos Hebreus mostra Jesus como um homem temente a Deus e misericordioso para com os seres humanos fracos. Ao mesmo tempo, o mostra como um ser humano real, próximo aos demais e em solidariedade para com eles. O fato do mediador ser assim já são boas notícias”.

Jesus é destacado por promover a libertação. Pode-se questionar sobre o que isso quer dizer, principalmente entre o público que venha a ler este texto. Mas, para além daqueles que venham a ter condições de ler este texto (acesso à internet, interesse por esses temas, etc.), encontramos pessoas tomadas pelos vícios de drogas (tanto lícitas quanto ilícitas), pelo vício do consumo, pela total carência de condições materiais para a subsistência, pela carência de condições sociais de superação da pobreza (falta ou inadequação no fornecimento público de educação, saúde, transporte, segurança, moradia, cultura, etc.), e tantas outras mazelas que sobrevêm sobre pessoas e comunidades, retirando-lhes a condição de liberdade. Para essas pessoas é que a proposta de Jesus de instauração do Reino de Deus pode ser entendida como boas notícias. “Jesus é boas notícias por causa de sua mensagem libertadora, mas é também porque nele alcançamos a aparência do verdadeiro humano”. (...) “As narrativas evangélicas mostram Jesus entrando ativamente nas vidas dos marginalizados (leprosos, publicanos, prostitutas, os pobres). Esta intimidade já é boas notícias para os marginalizados”. (...) “A realidade na qual Jesus vive é uma realidade de opressão. Sua reação primária frente a isso é a piedade. Ele sente o sofrimento dos oprimidos realmente intolerável. Isso por si são boas notícias”.

“O conteúdo da verdade de Jesus é boas notícias: ele proclama uma verdade em favor dos pobres e contra seus opressores. Também é boas notícias por ele mostrar que acredita na verdade, responde às suas demandas e está convencido de que a verdade humaniza a todos”. (...) “A liberdade de Jesus é direcionada para o bem dos outros e é liberta pela convicção da bondade de Deus. É uma liberdade libertadora fazer essa bondade de Deus real na história para os outros. Jesus tem a convicção de que Deus é bom e é o maior bem para os seres humanos. Jesus acredita que, a despeito de tudo, a realidade é, em última instância, positiva e boa; ele conhece até bem demais que a realidade é limitação, opressão e maledicência, mas acredita que sua possibilidade última também é justiça, companheirismo, graça e bênção”.

Jesus se destaca por acreditar que, mesmo diante da pior situação de opressão a acometer a humanidade, ainda há uma alternativa a ser tentada. É o homem da esperança, da perseverança, do agrupar e do fazer acreditar, para se continuar acreditando e tentando uma nova forma de vida, uma nova organização social. Ele morreu frente a seus opositores, mas jamais deixou de acreditar em uma alternativa que sobrepujasse esse mesmo sistema que o assassinou. Se há uma pessoa a quem valha a pena seguir, essa pessoa só pode ser Jesus. Outras pessoas que adotaram posturas semelhantes, até mesmo inspiradas em Jesus, também devem nos comover na mesma medida, mas nenhuma pode se equiparar ao fato de Jesus ter sido aquele que proclamou isso em palavras, mas também em atos coerentes com suas palavras, renunciando a tudo para manter essa coerência, desde sua vivência familiar até a entrega da própria vida.

“A ressurreição funciona, e se crê nela, como o horizonte último das boas notícias. Mas em segundo lugar isso não altera o fato de que, histórica e existencialmente, Jesus de Nazaré ser tomado como boas notícias por si mesmo, independentemente de sua ressurreição. E mais, na minha opinião (Jon Sobrino) a vida de Jesus tem mais peso que sua ressurreição para o entendimento do que são boas notícias na fé. Não há oposição entre Jesus de Nazaré como eu-aggelion e o Cristo crucificado e erguido como eu-aggelion. Eles se reforçam mutuamente mas, na experiência histórico-existencial, o primeiro é uma estrada necessária para se chegar ao segundo”.

Gustavo Lopes Borba
07/10/12

Por quê o nome “cristianismo das catacumbas”?

Na busca pela renovação do cristianismo, pode parecer estranho pra muitos que o nome adotado seja “cristianismo das catacumbas”. Afinal, o momento histórico em que o cristianismo conviveu com as catacumbas foi há muitos e muitos anos atrás, num momento totalmente adverso para os cristãos. As catacumbas funcionavam como local de reunião, culto e sepultamento dos cristãos, que sofriam perseguição por causa da proposta de vida que seguiam e da conseqüente negativa em adorar o imperador romano como um deus.

Diante desse quadro, cabe perguntar: afinal, por que “cristianismo das catacumbas”? Reflitamos sobre como os cristãos viviam e em que época se refugiaram nas catacumbas. Era o surgimento do cristianismo. Haviam se passado poucos anos desde a morte de Cristo. Sua proposta de vida ainda contava com poucos seguidores, ainda que seu número crescesse a cada dia. Na verdade, o seguimento a Jesus Cristo era considerado como uma de inumeráveis seitas de inspiração judaica que existiam na palestina do 1º século. Não tinha, portanto, nada de mais que a diferenciasse de outros movimentos religiosos com que coexistia. Mas ele passou a ser perseguido pelo próprio império. Por quê?

Numa resposta simples, porque começou a fazer a diferença. Não foram poucos os cristãos mortos por se negarem a adorar o imperador romano como um deus. Para esses mártires, a fidelidade ao seguimento do mestre era mais importante do que a própria vida. Podia-se encontrar pessoas com tal coerência a seus princípios com cada vez mais freqüência no império. Mais do que qualquer palavra já dita por eles, o que conseguia arrastar multidões ao Caminho – assim eram conhecidos os cristãos nos primeiros séculos – era seus gestos concretos, seus exemplos de vida, sua coerência entre o que pregavam e o que viviam. A simples existência de pessoas com tal têmpera já serviria para alarmar qualquer governante. Mas o que dava o caráter que diferenciava os primeiros cristãos era sua capacidade de fazer o bem àqueles mesmos que os perseguiam. A despeito de todas as infâmias e tentativas de incriminação, das perseguições e zombarias, os cristãos continuavam acolhendo, socorrendo, apoiando, ajudando os cidadãos romanos pagãos, os mesmos que não hesitaram em lhes apontar o dedo e proferir impropérios.

Por causa das perseguições e das incompreensões, os cristãos dos primeiros séculos eram proibidos de se reunirem para cultuar Deus, nem podiam fazer reuniões em seu nome e nem enterrar os seus mortos segundo seus rituais. A partir daí, começaram a freqüentar cavernas naturais para realizarem seus encontros às escondidas, diminuindo os riscos de perseguição intolerante. Assim, ninguém podia dizer o que diferenciava um cristão de um pagão pelos ritos ou palavras que costumava empregar. Mas, para os mais sensíveis ou conhecedores da proposta de Jesus Cristo, facilmente se distinguiria um cristão pela sua alegria e esperança, pelo seu estilo de vida simples e solidário, pela sua presença na vida de toda e qualquer pessoa, principalmente daquelas em sofrimento ou em necessidade.

Daí que tiramos o nome “cristianismo das catacumbas”. Do momento em que os cristãos viviam seu seguimento com fidelidade heróica; do momento em que o que distinguia o cristão era mais sua atitude para com os outros do que um símbolo pendurado no pescoço ou um rito seguido à risca; do momento em que ser cristão implicava em ser fiel até a última conseqüência.

Gustavo Lopes Borba
08/10/07

Autoridade

Talvez me perguntem o que é o cristianismo das catacumbas. Vou dizer o que não é: não é a fundação de mais uma igreja. Pelo menos não no sentido que atribuímos a “igreja” hoje. Não estou propondo uma nova seita, ou uma nova tradição religiosa cristã. Não quero disputar espaço com as religiões estabelecidas. Não tenho tais pretensões.

Mas gostaria que se entendesse o significado de “igreja” que uso. O termo vem do grego ekklesia, e quer dizer “comunidade, assembléia reunida”. O cristianismo das catacumbas deve ser entendido como sendo uma comunidade de pessoas que se reúnem em torno da pessoa de Cristo, de sua mensagem, do apoio mútuo para superar as dificuldades que o mundo atual apresenta àqueles que querem se dedicar, pelo exemplo de vida, a viver o que ele nos anunciou.

Quanto à questão da autoridade, tão importante nas “igrejas” atuais, deve ser vivida segundo o próprio Cristo nos relata nos evangelhos, de acordo com o testemunho dos evangelistas: deve ser vivida como serviço. Não deve existir na valorização do cargo e nem servir como algo que distinga alguém dos demais, mas deve ser um mandato a servir a todos e a cada um, no aprofundamento do próprio seguimento. Quem pretende ser visto como autoridade no cristianismo das catacumbas deverá ser aquele que serve, que admoesta, que ajuda, que se preocupa com a vida, o cotidiano de todos, independentemente de se dizerem seguidores do Cristo no espírito das catacumbas ou não, de serem pessoas com outras tradições religiosas, de não acreditarem em Deus.

A autoridade no cristianismo das catacumbas se conquista pela maior fidelidade às palavras de Cristo, fazendo cotidianamente o que ele nos prescreveu. Se conseguirmos transformar em vida vivida suas palavras, o que nos leva, indubitavelmente, a um maior cuidado e zelo por todas as pessoas ao nosso redor, então conquistaremos uma autoridade, que não é separadora, não é distintiva, fazendo de nós pessoas “especiais”, com direitos e privilégios diferentes, mas fazendo de nós exemplos vivos de como colocar em prática as palavras de Cristo, referências para a “comunidade”, a igreja. Não queremos hierarquias, papas, padres ou pastores. Temos aquelas pessoas que exercem papéis de destaque como tradutores das palavras de Cristo para a ação. Mas não queremos que nos impinjam formas de pensar baseado apenas na autoridade de quem diz ser aquilo verdade. A verdade suprema é o ser humano e o bem supremo é mitigar o sofrimento da pessoa humana.

Gustavo Lopes Borba
17/09/07