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Páscoa sob chave de interpretação do Reino de Deus

Páscoa novamente
            Novamente celebramos a páscoa. Tradicionalmente, entre os cristãos é dia em que se relembra a ressurreição de Jesus Cristo, que ressurgiu do túmulo após sua morte e abriu caminho a seus seguidores para a vida nova que há de vir após o fim dos tempos, quando todos serão julgados e terão seu destino determinado entre a vida eterna junto a Deus ou a perdição eterna.

            “Páscoa” deriva da palavra hebraica “pesach”, cujo significado é “passagem” e que se refere à saída do povo hebreu da escravidão a que eram submetidos no Egito. Ou seja, diz respeito à passagem de uma vida de escravidão e opressão à vida em liberdade e autodeterminação. A páscoa cristã também se refere a um movimento de passagem, de mudança de vida, em que a tradição é crer na passagem da vida terrena, limitada e cheia de dores, para a vida celeste, infinita e indolor. É a crença na vida eterna pós morte, junto a Deus e a seus escolhidos.

            O fundamento sobre o qual se firma a tradição é a ressurreição de Jesus, após 3 dias de sua morte, de forma a se tornar o primeiro a adentrar essa nova vida por meio dessa passagem da vida terrena à vida celeste. Ele seria o primeiro e, para se chegar lá, o caminho se faz no seguimento de sua vida. Se formos dignos de viver como Jesus Cristo, seremos elevados à dignidade de morrer e ressuscitar como ele, passando desta vida para a vida celeste junto a Deus.

Relatos da páscoa
            Todo o conhecimento que temos sobre a ressurreição de Jesus nos vem dos relatos dos evangelhos. E aqui começam os problemas. Pois todos sabemos que os evangelhos não se pretendiam textos jornalísticos e nem históricos. São mensagens com destinatários certos e com objetivos delimitados à época e contexto histórico. Seus escritores usaram os recursos e métodos da época, mas também de sua origem, a fim de construir seus textos de forma a que seus destinatários pudessem assimilar as mensagens que queriam transmitir.

            Por origem, os produtores dos textos evangélicos são semitas orientais. Como orientais, sua forma de compreender e produzir textos difere bastante de nossa forma atual. Quando lemos um texto, a primeira pergunta que procuramos responder é “como foi que tudo aconteceu?”, enquanto que os orientais daquela época e lugar procuravam responder: “o que isso quer dizer para mim hoje?”. São duas formas essencialmente diferentes de procurar entender o significado de um texto. Isso repercute na forma com que eles liam os evangelhos à época e causa confusões na forma com que os lemos hoje.

            Portanto, para se compreender hoje o sentido que se pretendia transmitir por meio dos textos evangélicos, é preciso ter em mente a ressalva apontada acima e retomar os textos de uma nova perspectiva. Quando relemos em João 20, 1-9 a descrição do encontro dos discípulos com o sepulcro vazio, devemos nos perguntar “o que isso quer dizer?”, tomando em conta o contexto da vida e da missão de Jesus e o significado que o evento de sua ressurreição tem para seus seguidores naquele e nos contextos futuros da nascente comunidade cristã no entorno do Mediterrâneo. Não podemos nos esquecer que a produção dos textos dos evangelhos foi feita anos após os eventos que eles pretendem relatar (presume-se a elaboração do evangelho de João nos anos 90 do primeiro século da era cristã) e são fruto da junção de diversas tradições orais.

Paralelos da ressurreição
            Para algumas pessoas, é impensável realizar qualquer questionamento em torno à ressurreição, já que, como diz Paulo, “se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou” (1 Cor 15, 13). Porém, cabe lembrar aqui que não é a ressurreição o que distingue Jesus Cristo dos demais e o faz especial. De fato, a ressurreição não é privilégio ou exclusividade de Jesus. Em sua época, havia o culto a Mitra praticado entre os romanos, principalmente entre os soldados, que o levaram à Grã-Bretanha, à Alemanha e a postos avançados do império. No início da era cristã, seu culto já havia se espalhado para a Índia, Babilônia e até Portugal. Mitra era uma divindade indo-iraniana cuja referência mais antiga remonta ao 2º milênio a.C.. O culto surgiu na Índia, tendo se difundido pela Pérsia e mais tarde pelo médio oriente, tendo rivalizado com o cristianismo em número e taxa de crescimento de fiéis.

            Mitra é o deus da luz, combatente do mal, protetor dos justos e mediador entre a humanidade e o ser supremo. Assim como Cristo, Mitra encarnou para viver entre os homens e morreu para que todos fossem salvos. O festival romano da Saturnália, dedicado ao deus Saturno, era celebrado entre 17 e 23 de dezembro e havia o costume de se trocar presentes nos dois últimos dias. Em 25 de dezembro se celebrava o nascimento do sol invencível, ou seja, era o solstício de inverno, momento em que o sol está mais distante do equador e a partir de tal momento passa a se aproximar gradativamente, trazendo tempos mais quentes. À medida que as tradições romanas iam sendo suplantadas pelas tradições orientais importadas, os maiores festejos realizavam-se em honra do deus Mitra, cujo nascimento se comemorava a 25 de Dezembro. Coincidentemente, o mesmo dia em que celebramos o nascimento de Jesus. Há outros pontos em comum entre Jesus e Mitra: este também nasceu de uma virgem; pastores, que assistiram ao evento, foram os primeiros que o adoraram; o líder do culto mitráico era chamado de papa e ele governava de um “mithraeum” na Colina Vaticano, em Roma; uma característica iconográfica proeminente no mitraismo era uma grande chave, necessária para destrancar os portões celestiais pelos quais se acreditava passarem as almas dos defuntos; os mitraistas consumiam uma comida sagrada (myazda) que era composta de pão e vinho; assim como os cristãos, eles celebraram a morte reconciliadora de um salvador que ressuscitou em um domingo.

            Apesar de se colocar em pé de igualdade com o cristianismo nos primeiros séculos de nossa era em termos de número de fiéis e índice de crescimento, é o cristianismo, conforme interpretado por Paulo e pelos Padres da Igreja, que alcança o status de religião oficial do império romano. O mitraismo sumiu oficialmente em 377 d.C., data em que o imperador cristão Teodósio proibiu todas as religiões diferentes do cristianismo. Pequenos grupos de adeptos continuaram secretamente a prática do culto até o século V, quando os bispos desencadearam pesada perseguição contra os cultos solares. Surpreendentemente, a própria Igreja cristã incorporou boa parte das práticas mitraistas, como a liturgia do batismo, da crisma, da eucaristia, da páscoa, e a utilização de incenso, de velas, dos sinos, etc. Até as vestimentas usadas pelo clero católico eram extremamente parecidas com as dos sacerdotes de Mitra. Enfim, um sistema religioso que pretende se tornar preponderante não pode abrir mão de ritos e símbolos que funcionavam anteriormente para adeptos de outras tradições, sem correr o risco de perder em números e não conseguir se firmar. Ao ressignificar rituais e celebrações de religiões passadas ou proibidas, o cristianismo se torna mais familiar aos antigos seguidores dessas religiões e se torna alternativa viável, cuja aceitação não causa tanto estranhamento devido às similitudes com as religiões anteriores.

Escolhido de Deus
            Se a ressurreição não é um diferencial de Jesus, o que há de importante em sua páscoa para diferenciá-la? Apesar das similaridades com a tradição mitráica, a vida de Jesus atraiu seguidores judeus, cujas esperanças se apoiavam na tradição do surgimento do messias (que quer dizer “ungido” em hebraico e se diz “cristo” em grego – unção é colocar óleo na cabeça como rito que marca o recebimento de influência espiritual, usado entre os antigos reis de Israel como distinção que marcava sua escolha como reis por Deus) como forma de libertação do mando imperialista romano. A terra em que existia Israel foi tomada pelos romanos em 63 a.C., mas já fora submetida a outros domínios anteriormente. Sob os romanos, obtiveram tolerância para a prática religiosa. Mas aos judeus, repletos de restrições que garantissem pureza para o contato com Deus, mesmo com a tolerância religiosa, era inaceitável a dominação romana e a espera pelo surgimento do messias salvador do povo hebreu tomou tons de iminência. Dessa forma, não pareceu estranho ao povo ouvir do surgimento de mais um candidato a messias do povo, dentre tantos outros que assim se haviam identificado. O messias era o rei que surgiria para unir os israelenses na luta contra os impuros dominadores e que libertaria Israel para a instauração do reino definitivo da nação escolhida pelo próprio Deus.

Para a instauração do Reino
            Conhecemos Jesus como “Cristo”, ou seja, a seu nome ficou apenso o título grego de “ungido”, de rei escolhido por Deus. Que podemos dizer sobre o sentido que a páscoa tem hoje para nós? Como podemos interpretar as passagens evangélicas sobre a páscoa de Jesus? Antes de tudo, devemos nos lembrar que Jesus jamais se colocou como o fim mesmo do seguimento, mas priorizava propagar o Reino de Deus como alternativa à constituição do mundo como era naquele momento. Assim, Jesus não se definia como o fim último da crença ou, como prefiro, da fidelidade a si, mas sim a constituição do Reino de Deus, como ponto alto de sua atuação e do que solicitava daqueles que desejassem se tornar seus seguidores. Jesus queria instaurar o Reino de Deus ainda nesta vida, e não somente na vida após a morte. Mas seu Reino não se limitava ao reino das esperanças israelitas, que se restringiam ao mundo político-religioso-cultural, de libertação da dominação romana para a autodeterminação judaica.

            O Reino se faria presente não por uma intervenção divina (escatologia apocalíptica, do tipo de João Batista), mas por meio da conversão interior dos que se dedicassem ao seguimento de Jesus praticando suas proposições de vida (escatologia ascética, de Jesus). O objetivo de Jesus, portanto, era a instauração do Reino de Deus por meio da conversão de “corações e mentes” à proposta que apresentava para que as pessoas mudassem sua forma de ser e incorporassem a solidariedade, a fraternidade, a partilha e a presença “curadora” em suas relações interpessoais. Essa é a chave de interpretação dos relatos dos evangelhos, incluindo aí a descrição da páscoa de Jesus.

Por meio de seus seguidores
            Se páscoa é passagem, para onde, então? Precisamos realizar a passagem interna, mudar nosso interior para nos tornarmos pessoas melhores e mais humanas, pois o humano se tornou escasso na atualidade. Mas não só isso, pois isso não é suficiente para a construção do Reino de Deus. Uma vez ouvi de uma irmã em Cristo que ser cristão é tratar bem as pessoas, ser educada e cordeira, sorrir onde não há sorrisos, e que a discussão política não é necessária. Ouvi de outro irmão em Cristo que o capitalismo é o melhor sistema de produção que a humanidade já produziu. Diante dessas declarações, sinto que ainda há necessidade de se fazer a páscoa entre os cristãos, que ainda há necessidade de esclarecimentos e de se fortalecer a mensagem original de Jesus, que não queria somente uma transformação interna, como os budistas propõem, mas que faz um chamamento para que todas as pessoas transformem suas mudanças interiores em ações exteriores, que lutem para construir o Reino, que lutem para transformar esse nosso mundo de acordo com os desígnios de Deus. É muito pouco achar que ser cristão, diante das tristezas e desumanidades presentes no mundo – como as 50 mil crianças que morrem de fome e doenças diariamente, como os assassinatos, raptos e violações de mulheres, como a exploração do trabalho infantil e do trabalho escravo – que basta sorrir diante de tudo isso para garantir que se está sendo fiel ao chamamento de Jesus.

            Assim como se pode crer que o sistema elaborado para a acumulação do lucro, não importa sobre quem ou com quantas desigualdades tecidas, quantas vidas empobrecidas e destruídas, que esse sistema seja considerado como sendo o melhor sistema de produção já concebido, assim também somos chamados a dar uma enfática resposta enquanto seguidores de Jesus. Não! Não é essa a resposta do cristão, não é esse o seguimento que Jesus pede. Ele pede a passagem de tudo isso para o Reino, para um mundo de fraternidade, de igualdade, de partilha dos bens da vida, de apoio mútuo, de valorização das pessoas pelo que elas são, e não pelo que consomem ou produzem. Um outro mundo é não só possível, como também necessário. Estamos diante de uma calamidade mundial, maior que a ameaça da guerra fria, que é o aquecimento global, capaz de ampliar todas as mazelas sociais que atualmente afligem a humanidade. Qual será a resposta dos cristãos: irão se empenhar na construção do Reino acolhendo os que sofrem, propondo alternativas às medidas tímidas dos governos, ou irão lamentar e se trancar nos templos clamando aos céus pela salvação?

Encontrando o ressuscitado
            Jesus ressuscitou e vive em cada comunidade de seus seguidores que procura colocar em prática suas propostas para a instauração de uma vida nova entre as pessoas, de acordo com o que ficou conhecido como Reino de Deus. Ali, onde as pessoas procuram viver laços fraternos, na solidariedade e na partilha dos bens necessários à vida, ali mesmo Jesus ressuscitado vive entre nós. Ali a páscoa aconteceu e testemunha a necessidade de que aconteça em todas as outras relações humanas que ainda não alcançaram este nível de transformação e de humanização, que somente Deus mesmo poderia propor.

            Provamos ao mundo que Jesus venceu a morte quando o honramos fazendo de nossa vida o testemunho do Reino de Deus.

Gustavo Lopes Borba

04/04/15 

Mensagem e ações


Em outro lugar (“Jesus como mestre de humanidade” – blog Cristianismo das Catacumbas), escrevi que a força da pregação de Jesus tem fundamento pela força dos valores que ele promoveu. Gostaria de esclarecer melhor alguns aspectos dessa declaração no que concerne à natureza e ao papel desses valores na vida cristã. Ou por outra, o que realmente eu queria dizer ao destacar a força dos valores promovidos por Jesus? O que são valores humanos, afinal?

Valores humanos dizem respeito ao campo da discussão ética da vida em comunidade. Valores orientam a vida de indivíduos e comunidades na sua interação e na sua organização. Valores são indicativos das prioridades eleitas por grupos e pessoas. Aquilo que explicitamos como nossos valores indicam um pouco de nossas motivações e objetivos. Jesus não usou de meios termos na divulgação dos valores que o orientavam. Eles estão presentes na descrição que os evangelhos fazem de seus ensinamentos.

Aliás, devemos entender que valores não são belas palavras no papel, mas objetivos maiores que devem orientar nossos objetivos práticos, nossas ações cotidianas. Quando nos referimos a valores, não estamos apontando as palavras com que os nomeamos, os substantivos. Podemos expressar determinadas palavras como sendo nossos valores, mas não colocá-las em prática. Podemos até não expressar quais são nossos valores, pois eles se expressam nas ações que praticamos. Os valores nos orientam e guiam, conformando tudo o mais em nossa vida e em nossa expressão de acordo com eles. Nosso ser não manifesta valores em momentos extraordinários. Ao contrário, nossos valores devem conformar nossa vida ordinária. É o que fazemos no cotidiano que expressa o que valorizamos, nossos objetivos, nossa visão ética do mundo.

Fiz questão de trazer este esclarecimento para deixar claro o papel das palavras no cristianismo das catacumbas. É bom que se entenda que o que marca e destaca a figura de Jesus não são somente seus ensinamentos, suas palavras, sua mensagem, enfim. Nem se trata de dar importância às suas ações, ao que ele fez. É preciso ter claro que, ao tomar qualquer um desses polos em separado, mensagem ou ações, não se conseguirá compreender a grandeza da pessoa de Jesus e a força de sua proposta do Reino de Deus. Só alcança esse entendimento e só se comove por esse encontro com a pessoa de Jesus quem consegue superar o raciocínio linear e concebe a sua proposta do Reino como ensinamentos e atos, palavras e vida, mensagem e ação. Só assim, integrando o dito com a prática, é que a proposta de Jesus faz sentido e que o seguimento ganha corpo e atualidade.

Desconfiem daqueles que têm palavras bonitas na ponta da língua e vivem somente em púlpitos de “pregação”; daqueles que conhecem de cor citações bíblicas e que vivem trancados em salões a auditórios para os sedentos por belas mensagens. Desconfie também daqueles caridosos abnegados que não param em casa por terem as chaves da “igreja”, daqueles de quem se depende para fazer funcionar qualquer coisa no prédio paroquial. Vivem os extremos empobrecidos da pouca compreensão da proposta de Jesus. São como pássaros mutilados, em que lhes falta uma das asas. Pois que o Reino não é puro ativismo e nem compêndio de palavras, senão a dialética viva entre a mensagem, a proposta, o plano, os ensinamentos de Jesus na sua compreensão do ser humano e do seu destino comunitário e as ações, os atos, as realizações, os arranjos comunitários que colocam tal projeto do Reino de Deus em prática. Me atrevo a dizer que, se ainda não compreendemos isso, não fomos capazes de compreender Jesus e sua proposta do Reino, a despeito de qualquer estudo ou título acadêmico que tenhamos. Se as palavras e as ações não se tornam unas em nossa vida comunitária, não somos cristãos e não podemos nos considerar Igreja no sentido próprio dos primeiros cristãos. Se consideramos que basta ir à celebração da missa dominical e que nos ignoremos cordialmente durante o ritual, fingimos ser seguidores do revolucionário que, francamente, admiramos e respeitamos pelo que disse e consideramos isso até belo, mas que achamos inviável na prática e, “pensando bem, até que não é tanto para ser realizado, mas pode servir para nos fazer sentir bem”.

Esse é um dos motivos para que eu mire os rituais com meus canhões de ferinidade, pois eles nos enganam ao nos iludir com a noção de que basta segui-los para fazermos o que Jesus gostaria de nós, quando na verdade eles não são nem o começo. É preciso transcendê-los e ir muito além, crescer no entendimento de quem é Jesus, do que ele propõe e o que cabe a nós, como coletivo, realizar para tornar viável sua visão, seu projeto neste mundo, nesta vida, no nosso tempo, na nossa carne. Os ritos não existem para si e não são absolutos. Sua função é pedagógica, para nos fazer crescer na compreensão de Jesus e de seu Reino e, assim, descartarmos a necessidade dos próprios ritos. Existem pessoas que ainda precisam dos ritos, pois ainda estão aprendendo sobre Jesus e o Reino. Mas há aqueles que já suplantaram essa etapa e não encontram maneiras de continuar sua caminhada. É por isso que muitos cristãos amadurecem e deixam o seio da igreja instituição, pois esta não está preparada para lhes oferecer um lugar de continuidade na caminhada. Essa é a tarefa mais importante para a igreja instituição nos dias de hoje: tornar-se relevante para um grande número de seguidores de Jesus que já transcenderam os ritos, amadureceram e querem dar testemunho no mundo e colaborar para a continuidade do Reino de Deus na atualidade.

Enquanto os defensores da igreja instituição, majoritariamente clero e parte do laicato, não perderem o medo da maturidade, a igreja instituição continuará distante do Reino e os ritos continuarão a ser apresentados como única via de seguimento. A igreja comunidade continuará a crescer fora da igreja instituição e a imagem principal dos cristãos frente ao mundo continuará cindida entre os que pregam a mensagem e os que agem sem um projeto claro.

Enquanto isso, “toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto” (Rm 8, 22).

Gustavo Lopes Borba
17/07/12

A bíblia como orientação à nossa vida



“Lâmpada para meus passos é tua palavra e luz no meu caminho” Sl 119, 105
Bíblia tradução CNBB

A bíblia tem sido usada como referência para guiar milhões de pessoas em todo o mundo. Lá encontramos um conjunto de orientações sapienciais para todos os aspectos da vida humana. É claro que tais orientações têm data e contexto moral. Isso não impede que muitas pessoas busquem se orientar por seus preceitos nos dias de hoje.

Aliás, um dos grandes impedimentos para que saibamos nos beneficiar da bíblia da melhor maneira diz respeito a essa crença de que seus ensinamentos devem ser entendidos hoje como então, pela letra e não pelo sentido. Isso nos remete à questão da interpretação da bíblia, ou como dizem os estudiosos, à hermenêutica.

Segundo consta na Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermenêutica), “Hermenêutica é um ramo da filosofia e estuda a teoria da interpretação, que pode referir-se tanto à arte da interpretação, ou a teoria e treino de interpretação. A hermenêutica tradicional - que inclui hermenêutica Bíblica - se refere ao estudo da interpretação de textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito”.

Assim, é essencial que consideremos a interpretação que se faz dos textos da bíblia para considerar como ela pode nos orientar na vida. Por ser considerada um livro sagrado, inspirada pelo próprio Deus aos homens que a escreveram, a bíblia ganha uma natureza de imutabilidade e de irrefutabilidade que impede uma compreensão mais sensata de seu papel para os cristãos em geral e para as demais pessoas.

Muitas consideram que os textos da bíblia permitem o acesso mais direto à verdade última, ou à revelação da verdade sobre a vida e a existência dos seres humanos, de tudo o que foi criado e do universo. Essa visão coloca a bíblia como parâmetro universal e relativiza qualquer outra fonte de conhecimentos, inclusive a ciência. Isso, logo se vê, não permite o crescimento e o amadurecimento, pois não permite abertura para tal, já que se considera que o nível máximo de crescimento e amadurecimento já foram atingidos com a bíblia. A ciência traz novas descobertas diariamente, pois o que consideramos realidade é tão complexo e tão incomensuravelmente impossível de ser absorvido pela nossa limitada capacidade cognitiva, que jamais alcançaremos esse nível de compreensão a que chamam de verdade última. Mas existem aqueles que acreditam nisso e estão até dispostos a apostarem suas vidas na defesa disso. Ocorre não só no cristianismo, mas também nas demais religiões. Hoje em dia vemos muito em voga na mídia a exposição dessa defesa suicida associada ao islamismo, mas encontra-se em todas as denominações religiosas. Aliás, o que faz com que se destaque uma ou outra nos diferentes períodos históricos são os interesses políticos de cada momento.

Se a bíblia é a verdade última revelada por Deus e se todas as outras fontes de conhecimento são relativas e não têm a capacidade de trazer nada de novo frente a essa verdade, teremos muitas pessoas que acreditam nisso dispostas a darem suas vidas na defesa de tal crença, inclusive ameaçando a vida daqueles “infiéis” que não acreditam ou não admitem que assim seja. Paradoxalmente, aqueles que se fiam nisso deixam de expressar paralelismo com as palavras do livro que dizem defender, pois passam a odiar os inimigos e a tramar o mal para eles, simplesmente para defenderem seu ponto de vista sobre os textos ali reunidos. Ou seja, a ideia que se tem do texto é mais importante do que o que o próprio texto diz.

Por outro lado, também temos aqueles casos em que há choques de interpretação, nos quais grupos que realizam diferentes interpretações entram em choque pela defesa de seus pontos de vista. Aqui já se aceita que os textos devem ser interpretados. Não há, porém, concordância sobre o resultado dessa interpretação. Vemos que os textos são objeto de interpretação e que deles se retira como resultado algo que pode ser considerado como uma aproximação da mensagem que se produziu originalmente no momento de sua elaboração para o contexto atual em que o intérprete vive, de forma a tornar a mensagem relevante à contemporaneidade em que ele vive.

O exercício de abertura à novidade que os textos bíblicos podem representar aos períodos posteriores de tempo é dificultado devido à constituição do que se convencionou chamar de “tradição”. A tradição é a consideração do que se firmou entre os intérpretes de um período histórico como sendo “verdadeiro” e que foi passado adiante para as gerações posteriores, constituindo a base para novas interpretações. Ou seja, não se parte para novas interpretações a partir de conquistas quanto à capacidade de tradução dos textos em suas línguas originárias ou dos novos conhecimentos arqueológicos dos lugares de origem dos textos, mas se considera o que foi descoberto sobre os próprios textos e suas interpretações anteriores para se considerar como válidas interpretações contemporâneas. As interpretações que não estejam de acordo com a tradição, mesmo que embasadas em novos conhecimentos na tradução ou na arqueologia, são desconsideradas ou desabonadas, simplesmente por esse fato. A mim, não parece algo sério que se aposte nessa abordagem, pois impossibilita justamente o que os defensores inveterados da bíblia como palavra revelada parecem defender: que se alcance a “verdade última”. Aliás, é difícil alcançar qualquer verdade se não se está disposto a descobrir o que é falseável a partir de novos conhecimentos e descobertas sobre algo produzido a tanto tempo atrás.

Enfim, há aqueles que usam a referência do texto bíblico para tentar compreender a vontade de Deus para si em seu momento histórico e para sua vida factual. Tal exercício pode ser feito sob diferentes métodos e ter diferentes nomes. Consideremos o uso do termo “discernimento” para conceber tal ato. Uso aqui o termo de forma extensa, não querendo especificar nenhum método em particular e nenhuma referência a algum ramo de espiritualidade definido. Quero apenas ter à mão um termo que me ajude a prosseguir com a reflexão que ora desenvolvo.

Muitas pessoas procuram na bíblia referência para sua vida e para seu bem estar. Para isso usam de diversas estratégias – atentem que não chamei de método, pois não estou realizando um estudo exaustivo sobre isso – no manuseio do livro sagrado que consideram eficazes para o discernimento da vontade de Deus. Muitos simplesmente pegam a bíblia de forma inadvertida e a abrem na primeira página que sair, acreditando que o acaso na abertura e na leitura representariam maiores chances de encontrarem ali o que Deus deseja que leiam para aquele dia, ou momento. Tal prática é perigosa e enganosa, já que o livro da bíblia foi escrito com determinados objetivos e cada texto deve ser compreendido como um produto humano localizado histórica e socialmente, devendo ser assim entendido, pois seus textos são datados e necessitam de esclarecimentos quanto ao contexto e quanto ao texto. Sem esses cuidados, corremos grandes riscos de nos tornarmos fundamentalistas sanguinários, tal como descrito logo no início.

Uma breve palavrinha sobre os termos “fundamentalista” e “radical”. Defendo a ideia que temos que nos tornar cristãos radicais, mas afastarmo-nos do cristianismo fundamentalista. Com o termo “radical” quero me referir ao necessário retorno às raízes de nosso seguimento de Jesus Cristo, de buscar as raízes do cristianismo, ou seja, que nos movamos na direção do ponto fundante do cristianismo, buscando compreender como essa origem se deu, o que representou para a sua época, que propostas apresentou ao seu tempo e como tais propostas podem ter o mesmo papel hoje como tiveram no seu tempo. Ser radical no seguimento de Jesus é procurar ser cada vez mais como ele, só que nos dias de hoje e através de nossa vida. Por outro lado, o fundamentalismo implica em uma fixação em padrões constituídos na origem do movimento cristão e que busca realizar movimento diverso da radicalidade. Não querem considerar como atualizar a mensagem original para promover o mesmo efeito comparado à época de sua origem. Querem é transformar o momento atual para voltar a ser como era no momento da origem do movimento cristão. Não querem falar às pessoas do tempo atual. Querem fazer o tempo atual voltar ao passado e se tornar o que era na sua origem. Querem tornar a sociedade semelhante ao que era em seus fundamentos. Não dialoga com a diversidade, mas exige sua volta ao passado, segundo os ditames de sua origem.

Retornando à discussão das estratégias para discernir a vontade de Deus a partir da bíblia, considero que outro erro ligado à nossa herança supersticiosa é de acharmos que o acaso é mais representativo da vontade de Deus para cada um de nós do que a capacidade de realizar planejamento, promover preparação para o entendimento dos textos e previsões de ações. Abrir a bíblia em qualquer página não garante acesso à vontade de Deus. Não representa entrega aos desígnios do Pai em confiança plena. Parece até ser uma forma de colocar à prova a intervenção divina para assegurar que ela age em prol daqueles que expressam sua entrega aos seus desígnios: “Vamos ver se Deus está mesmo comigo, agora que me dedico a ele. Se ele estiver do meu lado mesmo, vai ter que haver uma ligação entre o que estou vivendo e o texto que sair aqui por acaso”. Isso não é forma de interpretar a bíblia para que nos oriente em nossa vida. É fazer roleta russa com a diversidade de textos que compõem a bíblia, além de nos afastar do Deus verdadeiro e nos colocar próximos a panteístas, animistas e demais teístas não amadurecidos, cuja base para a crença está relacionada a elementos com concretude e palpabilidade. Não creem realmente em Deus; necessitam de elementos aos quais precisam se apoiar para continuar com essa crença.

Outras pessoas procuram discernir a vontade de Deus considerando que os textos bíblicos irão se referir especificamente a suas vidas, ao momento que estão vivendo, trazendo uma resposta imediata ao que se passa, sem necessidade de nenhuma interpretação. Isso também é um grande erro, pois coloca a pessoa no centro do universo e todos os elementos bíblicos estariam a serviço dela. Desconsidera a especificidade da criação do texto original e os vieses dados pelas traduções diferentes. Mostra que tal pessoa se exime totalmente da responsabilidade sobre sua vida e suas ações, escondendo-se sob o manto da alegada “vontade” de Deus. A vontade de Deus para nós é que assumamos o máximo potencial de que somos capazes, assumindo nosso ser integralmente, inclusive a capacidade de responder (responsabilidade: respons - habilidade) por nossas escolhas. Deus não nos quer manipular ou tirar-nos o direito e a graça de crescermos por nossas escolhas, sejam elas acertadas ou enganosas. Deus quer nos proporcionar a maior das graças, que é o crescimento maduro, possível somente quando assumimos a responsabilidade pelas opções que adotamos ao longo da vida. Se não compreendermos isso, como esperamos compreender a vontade de Deus para nós ou a “verdade última”? Como esperamos compreender o que Deus quer de nós simplesmente pela leitura de um texto da bíblia?

O discernimento da vontade de Deus para nós depende da interpretação que se faz da bíblia como texto produzido e de cada um de seus textos com relação à compreensão dos contextos histórico e social, além do contexto intra texto. Caso não se leve em conta tais elementos, perdemos a capacidade de considerar a vida do texto e de atualizá-lo para o momento contemporâneo. Lidos como estão, são letra morta, pois como terra seca que antes possibilitou a vida. Ao considerarmos os elementos necessários para sua interpretação, tornam-se parte de nós mesmos e vivem conosco o nosso cotidiano, pois que nos alimentam e nos direcionam, constituindo nosso existir. A bíblia é um texto que pode tornar a viver para cada pessoa, dependendo do cuidado com que a manuseamos. Não podemos ser levianos ao nos aproximarmos dos textos da bíblia. Ao mesmo tempo, não podemos ser fundamentalistas com relação ao que ali está, pois o texto é um só, mas sua interpretação deve mudar para atender a novos elementos descobertos. O texto deve ser vivo, ser atualizado e responder ao sentido geral a que se propunha o autor naquele período de elaboração. Jesus nos ensinou a ter essa postura quando mostrou que o Deus do antigo testamento é o mesmo Deus do novo, mas que a forma com que se escreve sobre ele é que muda; ele não. Deus é um Deus de amor, misericordioso, muito diferente do Deus vingativo e o senhor dos exércitos apresentado no antigo testamento. Foi Deus que mudou? Ou foi a forma dos homens experimentarem e sentirem sua presença e sua intervenção? Quem é mais falível a erro? Deus ou os homens, mesmo sendo aqueles que escreveram os textos inspirados da bíblia? Acredito na segunda opção.

Por fim, Deus não está no que chamamos de acaso, aquele ocorrer imprevisto de fatos que nós mesmos interpretamos. O acaso pode ser outro nome para a ação de Deus em nossa vida, mas quando é realmente fortuito. Ao abrirmos uma bíblia sem atentarmos para o livro que vai sair e chamarmos isso de acaso estamos falseando o verdadeiro acaso e impedindo a ação de Deus em nossa vida, além de estarmos enveredando por um caminho perigoso que pode resultar em que nos embasemos numa imagem errônea de Deus e que nos faça cada vez mais egoístas. Deus tem planos para nós e quer que nos tornemos conscientes de sua vontade para que a realizemos. A forma de fazer isso é diversa, inclusive com o uso da bíblia. A nós cabe aprendermos a cada dia mais coisas sobre os textos que compõem a bíblia sagrada para que a possamos usar como referência de discernimento da vontade de Deus para nós.

Deus se preocupa com cada momento de nossas vidas. Essa é uma tarefa que só ele pode realizar. Mas não quer de nós que busquemos respostas a questões relacionadas ao nosso cotidiano. Quando buscamos discernir sua vontade para nossa vida, ele está mais preocupado em nos fornecer uma orientação geral para a vida e para que a usemos em nossos posicionamentos, sem distinção quanto a um momento específico que vivemos. Ele nos pede que vejamos a figura em seu todo, e não as pequenas peças que a compõem. Seu chamado é para grandes questões que se expressam no cotidiano, como a fome, a desigualdade social, o sofrimento humano, o egoísmo. Suas orientações dão a imagem maior, para que assumamos a responsabilidade de responder diante da concretude desses eventos em nosso cotidiano. Nós devemos assumir posicionamentos diante de tais coisas, e não pedir a Deus que nos diga o que fazer diante de cada fração de tempo que vivemos. Ele nos dá sua visão e o que é sua vontade para cada um frente a tais questões e espera que assumamos na vida, nesses pequenos flashes diários, o dever de tornar viva sua vontade. A responsabilidade é somente nossa, e não de Deus. Tantas pessoas se perguntam como é que Deus permite o mal e o sofrimento de tantos inocentes. Deveriam se perguntar como podem tornar concreta, diante dessas realidades, a vontade de Deus que só tem a eles como meio de se expressar e mitigar tais males.

Gustavo Lopes Borba
05/03/12

Por quê o nome “cristianismo das catacumbas”?

Na busca pela renovação do cristianismo, pode parecer estranho pra muitos que o nome adotado seja “cristianismo das catacumbas”. Afinal, o momento histórico em que o cristianismo conviveu com as catacumbas foi há muitos e muitos anos atrás, num momento totalmente adverso para os cristãos. As catacumbas funcionavam como local de reunião, culto e sepultamento dos cristãos, que sofriam perseguição por causa da proposta de vida que seguiam e da conseqüente negativa em adorar o imperador romano como um deus.

Diante desse quadro, cabe perguntar: afinal, por que “cristianismo das catacumbas”? Reflitamos sobre como os cristãos viviam e em que época se refugiaram nas catacumbas. Era o surgimento do cristianismo. Haviam se passado poucos anos desde a morte de Cristo. Sua proposta de vida ainda contava com poucos seguidores, ainda que seu número crescesse a cada dia. Na verdade, o seguimento a Jesus Cristo era considerado como uma de inumeráveis seitas de inspiração judaica que existiam na palestina do 1º século. Não tinha, portanto, nada de mais que a diferenciasse de outros movimentos religiosos com que coexistia. Mas ele passou a ser perseguido pelo próprio império. Por quê?

Numa resposta simples, porque começou a fazer a diferença. Não foram poucos os cristãos mortos por se negarem a adorar o imperador romano como um deus. Para esses mártires, a fidelidade ao seguimento do mestre era mais importante do que a própria vida. Podia-se encontrar pessoas com tal coerência a seus princípios com cada vez mais freqüência no império. Mais do que qualquer palavra já dita por eles, o que conseguia arrastar multidões ao Caminho – assim eram conhecidos os cristãos nos primeiros séculos – era seus gestos concretos, seus exemplos de vida, sua coerência entre o que pregavam e o que viviam. A simples existência de pessoas com tal têmpera já serviria para alarmar qualquer governante. Mas o que dava o caráter que diferenciava os primeiros cristãos era sua capacidade de fazer o bem àqueles mesmos que os perseguiam. A despeito de todas as infâmias e tentativas de incriminação, das perseguições e zombarias, os cristãos continuavam acolhendo, socorrendo, apoiando, ajudando os cidadãos romanos pagãos, os mesmos que não hesitaram em lhes apontar o dedo e proferir impropérios.

Por causa das perseguições e das incompreensões, os cristãos dos primeiros séculos eram proibidos de se reunirem para cultuar Deus, nem podiam fazer reuniões em seu nome e nem enterrar os seus mortos segundo seus rituais. A partir daí, começaram a freqüentar cavernas naturais para realizarem seus encontros às escondidas, diminuindo os riscos de perseguição intolerante. Assim, ninguém podia dizer o que diferenciava um cristão de um pagão pelos ritos ou palavras que costumava empregar. Mas, para os mais sensíveis ou conhecedores da proposta de Jesus Cristo, facilmente se distinguiria um cristão pela sua alegria e esperança, pelo seu estilo de vida simples e solidário, pela sua presença na vida de toda e qualquer pessoa, principalmente daquelas em sofrimento ou em necessidade.

Daí que tiramos o nome “cristianismo das catacumbas”. Do momento em que os cristãos viviam seu seguimento com fidelidade heróica; do momento em que o que distinguia o cristão era mais sua atitude para com os outros do que um símbolo pendurado no pescoço ou um rito seguido à risca; do momento em que ser cristão implicava em ser fiel até a última conseqüência.

Gustavo Lopes Borba
08/10/07