Como reagiríamos caso nos fosse proposta uma total mudança em nossas vidas? Se nos pedissem que vivêssemos de maneira totalmente diferente e estranha ao que tivéssemos vivido até o momento? Se tivéssemos que agir de forma tão diferente que sentíssemos ser outras pessoas, ou que estaríamos encenando uma peça? Provavelmente isso não se realizaria de forma tão fácil. Enfrentaríamos conflitos internos e externos, quando as pessoas que nos conhecem passariam a nos estranhar e cobrar coerência com o que conheciam de nós antes da mudança. Teríamos problemas para nos adaptar à nova forma de ser e sentiríamos a tentação de voltarmos a agir como agíamos antes, pelo menos em alguns pequenos aspectos, que chamaríamos de “detalhes”.
Pois o chamado para vivermos de forma totalmente diversa existe: é o chamado de Cristo. A proposta de vida diferente está enraizada no que ele chamou de Reino de Deus. Ainda não somos capazes de viver sua proposta – mesmo depois de mais de 2000 anos. De fato, Jesus compreendia essas dificuldades de nossa natureza e, na verdade, até conta com elas. Ele anuncia uma proposta de mudança radical na nossa forma de ser por meio de parábolas, pequenas metáforas que permitem aos interlocutores se identificarem com o conteúdo das mensagens pela alusão a aspectos com os quais têm familiaridade. Neste trecho em particular, ele se refere à palavra sobre o Reino como a uma semente. Esta semente é lançada e encontra diferentes terrenos, que são nossos corações e mentes, que podem estar preparados para acolher esta semente ou não. Podemos nos colocar de forma pessoal na passagem e refletirmos sobre que tipo de terreno temos sido, ou que terrenos somos ao longo de nossas vidas, de um ano, de um dia. As situações que enfrentamos diariamente são tão diversas, e permitem tantas oportunidades para fazermos o Reino acontecer, que podemos fazer uma análise dos terrenos que nos identificam pelo prazo de um dia.
Mas o aspecto da passagem que mais chama a atenção a mim neste momento é a identificação da mensagem sobre o Reino com a figura da semente. Afinal, se o chamado é para que façamos acontecer por meio de nossas ações uma proposta inteiramente diversa do que vivemos hoje, a maneira com que essa mensagem se faz vida em nós e por meio de nós não é imediata. Assim como a semente precisa de tempo e dedicação para crescer, amadurecer e, finalmente, dar frutos, assim também a transformação da mensagem em vida através de nós vai acontecendo com o aprofundamento do sentido da vida e obra de Jesus, pela maior compreensão da implicação do que ele disse e nos pediu para fazer na nossa vida. Ou seja, o chamamento é para que mudemos radicalmente de vida, mas essa mudança se dá com o nosso amadurecimento no seguimento.
Muitas vezes pensamos ser fiéis a Jesus por simplesmente “acreditarmos” nele. Mas até o maligno acredita em Jesus e o considera filho de Deus (cf. Lc 4, 41). Outras vezes, pensamos que somos fiéis ao realizarmos todos os rituais pedidos pela nossa denominação religiosa, muitas vezes deixando de atender aos necessitados que encontramos no percurso até nossa igreja, contradizendo as palavras daquele a quem dizemos “adorar” (cf. Lc 10, 30-34). Algumas vezes conseguiremos agir como se fizéssemos a figura de Jesus estar presente no nosso meio – “onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome” (cf. Mt 18, 20) –, levando à libertação integral de pessoas e grupos. Mas isso acontece em raros momentos mais “iluminados”. Muito poucas pessoas conseguem realizar o seguimento integral, fazendo de suas vidas o evangelho que muitos lerão.
Mais do que qualquer outra coisa, essa proposta de seguimento deve se tornar para nós um mobilizador, algo que nos desinstale e nos relance o desafio de, permanentemente, buscar o cada vez melhor e mais profundo seguimento de Jesus. Caminhar os caminhos que ele caminhou, seguir a trilha que ele escolheu, fazer as opções que ele faria caso ocupasse nossa posição. Eis o verdadeiro seguimento, colocando em segundo plano as questões sobre o que acreditamos ou não, sobre os aspectos ritualísticos que devemos seguir ou não, sobre as controvérsias com relação aos comportamentos alheios, sobre moral, sobre os termos que devemos utilizar em nossas falas cotidianas ou o que não podemos citar. O seguimento de Jesus Cristo, filho de Deus, acontece em opções de vida, em todos os aspectos. Nas questões mais comezinhas da vida cotidiana e vividas nas interações interpessoais e nos assuntos de relevância nacional e mundial; naquilo que queremos em termos estéticos e nas valorizações culturais de grande alcance; nas minhas opções de consumo e destinação de resíduos e nos aspectos da macro-economia e ecologia. Tudo isso está implicado em nossas escolhas, ao buscarmos realizar o verdadeiro seguimento de Jesus. Nada nos é alheio, nenhuma opção pessoal é puramente individual.
Somos chamados à radicalidade do evangelho, que nos foi proposta por Jesus Cristo para que tornemos viável e palpável o Reino do Pai já aqui nesta terra. Isto não se dá de uma vez para sempre, entretanto. Precisamos tornar nosso coração e nossa mente em terreno propício e dar tempo para que as verdades contidas nas palavras de Jesus e para que seus exemplos de vida coerente, capazes de assumir todos os riscos de suas opções, inclusive a morte, possam frutificar, se enraizar, crescer e dar muitos frutos através de nós. Eis a melhor maneira de definirmos a fidelidade aos projetos de Deus: fazermo-nos propícios para que Jesus se manifeste através de nós, num processo progressivo de transformação que nos faça mais semelhantes a ele.
Gustavo Lopes Borba
14/07/08
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