Comentário de Mt 11, 25-30

Quem pode chegar ao conhecimento de Deus? Quem pode dizer que tem este privilégio? E o que garante este conhecimento?

Muitas pessoas podem hoje achar que detêm o conhecimento de Deus pelos muitos estudos que realizam. Para elas, o necessário para atingir o conhecimento de Deus é passar vários anos em bancos de escolas, angariar títulos acadêmicos no campo da teologia e conhecer teoricamente os meandros da religiosidade. Diante dessas pessoas, aqueles que não estudaram são considerados ignorantes, incapazes de conhecer a Deus. São presunçosos que pensam alcançar as alturas de Deus com seus próprios esforços.

Por outro lado, como Jesus revela Deus a nós? Foi ele um grande estudioso da doutrina judaica? Foi ele um mestre em ensinamentos da Torá? Jesus realmente tinha conhecimentos capazes de admirar os doutores da lei e fariseus, como várias passagens nos fazem perceber (cf. Lc 2, 46-47; Mt 7, 28-29), porém ele surpreendia até aos maiores estudiosos porque apresentava um ensinamento que parecia novo, que trazia um novo entendimento da lei judaica. Na verdade, Jesus conseguia demonstrar o fundamento essencial da lei judaica, que escapava aos pretensos doutores da época: o fundamento do amor de Deus.

Enquanto os que se consideravam como os intérpretes privilegiados dos mandamentos de Deus falavam em termos de proibições e impurezas que nos afastam de Deus, Jesus apresentou a lei maior do amor de Deus por nós, em primeiro lugar, e de nós para com Deus e, decorrente deste, para com nossos semelhantes. Enquanto os pretensos puros e escolhidos de Deus consideravam-se privilegiados por conseguirem se manter “limpos” por meio do cumprimento de inumeráveis e penosos mandamentos, Jesus diz que Deus não exclui ninguém, quer acolher a todos, pois ama a todos. Basta que mostremos abertura, por menor que seja, para que ele se faça presente em nossas vidas, inundando-as com amor.

Portanto, aqueles que se sobrecarregam com teorias e práticas ritualísticas minuciosas pensando se aproximar mais de Deus por serem cada vez mais obcecados em seguir normas, enganam-se e distanciam-se de Deus, carregando um pesado fardo que consideravam ser capaz de proporcionar justamente o contrário do que conseguem. Por outro lado, Jesus nos deixa claro que o fardo que devemos carregar para encontrar a Deus é leve: é o fardo de reconhecermos que Deus nos ama sempre em primeiro lugar, sem nenhuma condição, sem que precisemos realizar penosos ritos ou seguir infinitas e minuciosas regras. Deus nos ama; ponto! Este é o nosso fardo. É isso que nos torna capazes de conhecer a Deus; nada mais, nada menos. Não nos prendamos a falsas promessas, não nos acorrentemos a cobranças desnecessárias, não nos tornemos presunçosos a achar que Deus se mostrará a nós devido a estudos criteriosos. Tudo isso nos afasta dos demais, nos afasta de Deus. É quando achamos que entraremos em contato com ele por causa de nossas próprias ações que nos afastamos mais dele, porque é ele quem toma sempre a iniciativa de se nos revelar, e da maneira mais simples possível. Não percamos a oportunidade de percebermos Deus se revelando a nós das maneiras mais inesperadas e singelas, como no tom da canção de um pássaro, no perfume de uma flor, na beleza da natureza e, a mais sublime de todas, no contato com nossos irmãos, aqueles mesmos entre os quais Jesus sempre pôde ser encontrado e ainda continua sendo.

Gustavo Lopes Borba
06/07/2008

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