Quem pode chegar ao conhecimento de Deus? Quem pode dizer que tem este privilégio? E o que garante este conhecimento?
Muitas pessoas podem hoje achar que detêm o conhecimento de Deus pelos muitos estudos que realizam. Para elas, o necessário para atingir o conhecimento de Deus é passar vários anos em bancos de escolas, angariar títulos acadêmicos no campo da teologia e conhecer teoricamente os meandros da religiosidade. Diante dessas pessoas, aqueles que não estudaram são considerados ignorantes, incapazes de conhecer a Deus. São presunçosos que pensam alcançar as alturas de Deus com seus próprios esforços.
Por outro lado, como Jesus revela Deus a nós? Foi ele um grande estudioso da doutrina judaica? Foi ele um mestre em ensinamentos da Torá? Jesus realmente tinha conhecimentos capazes de admirar os doutores da lei e fariseus, como várias passagens nos fazem perceber (cf. Lc 2, 46-47; Mt 7, 28-29), porém ele surpreendia até aos maiores estudiosos porque apresentava um ensinamento que parecia novo, que trazia um novo entendimento da lei judaica. Na verdade, Jesus conseguia demonstrar o fundamento essencial da lei judaica, que escapava aos pretensos doutores da época: o fundamento do amor de Deus.
Enquanto os que se consideravam como os intérpretes privilegiados dos mandamentos de Deus falavam em termos de proibições e impurezas que nos afastam de Deus, Jesus apresentou a lei maior do amor de Deus por nós, em primeiro lugar, e de nós para com Deus e, decorrente deste, para com nossos semelhantes. Enquanto os pretensos puros e escolhidos de Deus consideravam-se privilegiados por conseguirem se manter “limpos” por meio do cumprimento de inumeráveis e penosos mandamentos, Jesus diz que Deus não exclui ninguém, quer acolher a todos, pois ama a todos. Basta que mostremos abertura, por menor que seja, para que ele se faça presente em nossas vidas, inundando-as com amor.
Portanto, aqueles que se sobrecarregam com teorias e práticas ritualísticas minuciosas pensando se aproximar mais de Deus por serem cada vez mais obcecados em seguir normas, enganam-se e distanciam-se de Deus, carregando um pesado fardo que consideravam ser capaz de proporcionar justamente o contrário do que conseguem. Por outro lado, Jesus nos deixa claro que o fardo que devemos carregar para encontrar a Deus é leve: é o fardo de reconhecermos que Deus nos ama sempre em primeiro lugar, sem nenhuma condição, sem que precisemos realizar penosos ritos ou seguir infinitas e minuciosas regras. Deus nos ama; ponto! Este é o nosso fardo. É isso que nos torna capazes de conhecer a Deus; nada mais, nada menos. Não nos prendamos a falsas promessas, não nos acorrentemos a cobranças desnecessárias, não nos tornemos presunçosos a achar que Deus se mostrará a nós devido a estudos criteriosos. Tudo isso nos afasta dos demais, nos afasta de Deus. É quando achamos que entraremos em contato com ele por causa de nossas próprias ações que nos afastamos mais dele, porque é ele quem toma sempre a iniciativa de se nos revelar, e da maneira mais simples possível. Não percamos a oportunidade de percebermos Deus se revelando a nós das maneiras mais inesperadas e singelas, como no tom da canção de um pássaro, no perfume de uma flor, na beleza da natureza e, a mais sublime de todas, no contato com nossos irmãos, aqueles mesmos entre os quais Jesus sempre pôde ser encontrado e ainda continua sendo.
Gustavo Lopes Borba
06/07/2008
Comentário de Mt 13, 24-43
Esta passagem mostra Jesus refletindo sobre a natureza do Reino, mas sob a perspectiva de seus efeitos sobre o restante da sociedade. O Reino é mostrado como algo quase sem importância – como a semente de mostarda, chamada da menor das sementes – ou como um elemento presente em menor número – como o caso do fermento na massa, que é colocado em menor quantidade –, mas cujos efeitos são muito grandes e sentidos por todos.
Na verdade, é importante compreender a introdução feita, quando Jesus diz, em sua parábola, que o joio e o trigo crescem juntos. Podemos interpretar isso de forma pessoal, levando em conta que joio e trigo – o bem e o mal, a tendência a fazermos algo bom e para fazermos algo ruim – são aspectos internos a nós e que teremos que lidar com eles por toda a nossa existência. Não nos cabe achar que temos a capacidade de eliminar alguma dessas tendências de dentro de nós. Elas continuarão a nos influenciar, mesmo que não queiramos. O que nos cabe fazer é compreender que nem sempre fazemos “o bem que queremos” (cf. Rm 7, 19) e continuar seguindo em frente, procurando alimentar a tendência do bem, sem fomentar a tendência do mal.
Mas a dimensão que Jesus quer dar é que existirão pessoas que podemos considerar serem trigo e pessoas que podemos considerar como sendo joio, cada uma dando vazão a alguma dessas tendências internas em si, caracterizando-se como totalidades boas ou más. Na verdade, nós tendemos a classificar as pessoas por algum aspecto que presenciamos e, a partir daí, as rotulamos, não acreditando mais que possam agir de formas diferentes daquela do rótulo que demos. Trabalho com adolescentes em conflito com a lei e, muito freqüentemente, as pessoas não acreditam que eles possam se modificar, se regenerar e passar a fazer parte da sociedade de forma construtiva. É a atuação dos preconceitos, que promovem iniciativas como a redução legal da maioridade penal, passando a encarcerar em nossas cadeias – verdadeiros calabouços da Idade Média – os nossos adolescentes mal informados, desorientados e famintos. O ponto que Jesus quer chamar a atenção aqui, entretanto, não é propriamente dos preconceitos. Ele já conta com isso de forma implícita. Ele quer mesmo é destacar o fato de que vamos ter que conviver com as pessoas que rotulamos por toda a vida. Elas farão parte de nossas vidas até que venha o juízo, que só ocorre após a morte. Portanto, a questão diz respeito ao que Jesus nos pede para fazermos diante dessa perspectiva de convivência com todo o tipo de pessoas, até aquelas que consideramos ruins.
O que fazer? Como agir com essas pessoas? Será que devemos simplesmente viver nosso cristianismo dentro das igrejas e esperar que essas pessoas, por alguma crise de consciência, passem a querer fazer parte de nosso “clubinho”? Para tirarmos as dúvidas sobre qual a melhor maneira de agir frente a essas pessoas, temos que nos espelhar naquele que é nosso mestre, aquele a quem dizemos querer seguir. Ou seja, devemos nos perguntar sobre como Jesus agiria nessa situação. Nos evangelhos já encontramos o procedimento de Jesus para com essas pessoas. Diante daqueles considerados excluídos, impuros, pecadores, errados, ruins, maus de seu tempo, Jesus é o primeiro a tomar a iniciativa. Ele não espera por ninguém; vai atrás por vontade própria. Diz que o são não precisa de médico, mas sim o doente (cf. Mt 9, 12; Mc 2, 17; Lc 5, 31). Convive com essas pessoas, come com elas, de forma tão ostensiva que passa a ser chamado de glutão e beberrão pelos “arautos da perfeição” (cf. Mt 11, 19; Lc 7, 34). Enfim, Jesus não os exclui, pelo contrário, faz deles sua meta e direção, transforma-os em seu destino. Coloca-os no centro de toda a sua ação (cf. Mc 3, 3; Lc 6, 8).
Somos chamados a realizar este tipo de inversão hoje, como seguidores de Cristo. Nos sentimos capazes de fazer isso? Consideramos que colocamos aqueles considerados como excluídos, como inválidos, como incapazes, como marginais, como escória, como nada no centro de nossas ações? A mensagem desta passagem está clara: teremos que conviver com essas pessoas ainda pelo resto de nossas existências. Que lugar destinaremos para elas? Estaremos presentes no meio delas levando o exemplo da bondade e amor de Deus para elas, ou esperaremos que elas decidam por própria conta se aproximarem e começarem a fazer parte de nossas igrejas? Será a verdadeira ajuda convidá-las a fazer parte de nossa religião, ou será que não poderemos ajudar mais colaborando para que elas passem a ter uma vida melhor, com menos fome, menos desigualdades, menos desemprego, menos ausência de educação para a autonomia, menos carência na saúde, menos injustiças...
Devemos realizar o que Jesus contou em suas parábolas: sermos fermentos da massa que é a sociedade, fazermos crescer a mudança nos comportamentos ao nosso redor por meio de sementes pequeninas que são os gestos de amor e acolhida que podemos realizar para com aquelas pessoas que estão ao nosso redor. Convenceremos não pelas nossas palavras, mas pelos exemplos de fidelidade à proposta de Jesus. Não nos preocuparemos em identificar as pessoas como joio ou trigo, não realizaremos atos discriminatórios, mas acolheremos a todas, procurando mostrar que o amor de Deus para a humanidade não faz discriminações e quer o bem de todos. Faremos acontecer o Reino de Deus nesta terra por meio de nossas ações, de nossas opções, que devem proporcionar o bem a todas as pessoas, mas principalmente àquelas que são deserdadas pelas sociedades. Não hesitaremos em tratar bem àqueles ao nosso redor, como sinal do amor de Deus, mas também saberemos ser prudentes como as serpentes (cf. Mt. 10, 16) para perceber que o bem maior pode ser realizado quando as estruturas da atualidade forem alteradas.
Este é o nosso chamamento. Esta é a maneira do Reino de manifestar no mundo. Iremos responder?
Gustavo Lopes Borba
20/07/2008
Na verdade, é importante compreender a introdução feita, quando Jesus diz, em sua parábola, que o joio e o trigo crescem juntos. Podemos interpretar isso de forma pessoal, levando em conta que joio e trigo – o bem e o mal, a tendência a fazermos algo bom e para fazermos algo ruim – são aspectos internos a nós e que teremos que lidar com eles por toda a nossa existência. Não nos cabe achar que temos a capacidade de eliminar alguma dessas tendências de dentro de nós. Elas continuarão a nos influenciar, mesmo que não queiramos. O que nos cabe fazer é compreender que nem sempre fazemos “o bem que queremos” (cf. Rm 7, 19) e continuar seguindo em frente, procurando alimentar a tendência do bem, sem fomentar a tendência do mal.
Mas a dimensão que Jesus quer dar é que existirão pessoas que podemos considerar serem trigo e pessoas que podemos considerar como sendo joio, cada uma dando vazão a alguma dessas tendências internas em si, caracterizando-se como totalidades boas ou más. Na verdade, nós tendemos a classificar as pessoas por algum aspecto que presenciamos e, a partir daí, as rotulamos, não acreditando mais que possam agir de formas diferentes daquela do rótulo que demos. Trabalho com adolescentes em conflito com a lei e, muito freqüentemente, as pessoas não acreditam que eles possam se modificar, se regenerar e passar a fazer parte da sociedade de forma construtiva. É a atuação dos preconceitos, que promovem iniciativas como a redução legal da maioridade penal, passando a encarcerar em nossas cadeias – verdadeiros calabouços da Idade Média – os nossos adolescentes mal informados, desorientados e famintos. O ponto que Jesus quer chamar a atenção aqui, entretanto, não é propriamente dos preconceitos. Ele já conta com isso de forma implícita. Ele quer mesmo é destacar o fato de que vamos ter que conviver com as pessoas que rotulamos por toda a vida. Elas farão parte de nossas vidas até que venha o juízo, que só ocorre após a morte. Portanto, a questão diz respeito ao que Jesus nos pede para fazermos diante dessa perspectiva de convivência com todo o tipo de pessoas, até aquelas que consideramos ruins.
O que fazer? Como agir com essas pessoas? Será que devemos simplesmente viver nosso cristianismo dentro das igrejas e esperar que essas pessoas, por alguma crise de consciência, passem a querer fazer parte de nosso “clubinho”? Para tirarmos as dúvidas sobre qual a melhor maneira de agir frente a essas pessoas, temos que nos espelhar naquele que é nosso mestre, aquele a quem dizemos querer seguir. Ou seja, devemos nos perguntar sobre como Jesus agiria nessa situação. Nos evangelhos já encontramos o procedimento de Jesus para com essas pessoas. Diante daqueles considerados excluídos, impuros, pecadores, errados, ruins, maus de seu tempo, Jesus é o primeiro a tomar a iniciativa. Ele não espera por ninguém; vai atrás por vontade própria. Diz que o são não precisa de médico, mas sim o doente (cf. Mt 9, 12; Mc 2, 17; Lc 5, 31). Convive com essas pessoas, come com elas, de forma tão ostensiva que passa a ser chamado de glutão e beberrão pelos “arautos da perfeição” (cf. Mt 11, 19; Lc 7, 34). Enfim, Jesus não os exclui, pelo contrário, faz deles sua meta e direção, transforma-os em seu destino. Coloca-os no centro de toda a sua ação (cf. Mc 3, 3; Lc 6, 8).
Somos chamados a realizar este tipo de inversão hoje, como seguidores de Cristo. Nos sentimos capazes de fazer isso? Consideramos que colocamos aqueles considerados como excluídos, como inválidos, como incapazes, como marginais, como escória, como nada no centro de nossas ações? A mensagem desta passagem está clara: teremos que conviver com essas pessoas ainda pelo resto de nossas existências. Que lugar destinaremos para elas? Estaremos presentes no meio delas levando o exemplo da bondade e amor de Deus para elas, ou esperaremos que elas decidam por própria conta se aproximarem e começarem a fazer parte de nossas igrejas? Será a verdadeira ajuda convidá-las a fazer parte de nossa religião, ou será que não poderemos ajudar mais colaborando para que elas passem a ter uma vida melhor, com menos fome, menos desigualdades, menos desemprego, menos ausência de educação para a autonomia, menos carência na saúde, menos injustiças...
Devemos realizar o que Jesus contou em suas parábolas: sermos fermentos da massa que é a sociedade, fazermos crescer a mudança nos comportamentos ao nosso redor por meio de sementes pequeninas que são os gestos de amor e acolhida que podemos realizar para com aquelas pessoas que estão ao nosso redor. Convenceremos não pelas nossas palavras, mas pelos exemplos de fidelidade à proposta de Jesus. Não nos preocuparemos em identificar as pessoas como joio ou trigo, não realizaremos atos discriminatórios, mas acolheremos a todas, procurando mostrar que o amor de Deus para a humanidade não faz discriminações e quer o bem de todos. Faremos acontecer o Reino de Deus nesta terra por meio de nossas ações, de nossas opções, que devem proporcionar o bem a todas as pessoas, mas principalmente àquelas que são deserdadas pelas sociedades. Não hesitaremos em tratar bem àqueles ao nosso redor, como sinal do amor de Deus, mas também saberemos ser prudentes como as serpentes (cf. Mt. 10, 16) para perceber que o bem maior pode ser realizado quando as estruturas da atualidade forem alteradas.
Este é o nosso chamamento. Esta é a maneira do Reino de manifestar no mundo. Iremos responder?
Gustavo Lopes Borba
20/07/2008
Comentário de Mt 13, 1-23
Como reagiríamos caso nos fosse proposta uma total mudança em nossas vidas? Se nos pedissem que vivêssemos de maneira totalmente diferente e estranha ao que tivéssemos vivido até o momento? Se tivéssemos que agir de forma tão diferente que sentíssemos ser outras pessoas, ou que estaríamos encenando uma peça? Provavelmente isso não se realizaria de forma tão fácil. Enfrentaríamos conflitos internos e externos, quando as pessoas que nos conhecem passariam a nos estranhar e cobrar coerência com o que conheciam de nós antes da mudança. Teríamos problemas para nos adaptar à nova forma de ser e sentiríamos a tentação de voltarmos a agir como agíamos antes, pelo menos em alguns pequenos aspectos, que chamaríamos de “detalhes”.
Pois o chamado para vivermos de forma totalmente diversa existe: é o chamado de Cristo. A proposta de vida diferente está enraizada no que ele chamou de Reino de Deus. Ainda não somos capazes de viver sua proposta – mesmo depois de mais de 2000 anos. De fato, Jesus compreendia essas dificuldades de nossa natureza e, na verdade, até conta com elas. Ele anuncia uma proposta de mudança radical na nossa forma de ser por meio de parábolas, pequenas metáforas que permitem aos interlocutores se identificarem com o conteúdo das mensagens pela alusão a aspectos com os quais têm familiaridade. Neste trecho em particular, ele se refere à palavra sobre o Reino como a uma semente. Esta semente é lançada e encontra diferentes terrenos, que são nossos corações e mentes, que podem estar preparados para acolher esta semente ou não. Podemos nos colocar de forma pessoal na passagem e refletirmos sobre que tipo de terreno temos sido, ou que terrenos somos ao longo de nossas vidas, de um ano, de um dia. As situações que enfrentamos diariamente são tão diversas, e permitem tantas oportunidades para fazermos o Reino acontecer, que podemos fazer uma análise dos terrenos que nos identificam pelo prazo de um dia.
Mas o aspecto da passagem que mais chama a atenção a mim neste momento é a identificação da mensagem sobre o Reino com a figura da semente. Afinal, se o chamado é para que façamos acontecer por meio de nossas ações uma proposta inteiramente diversa do que vivemos hoje, a maneira com que essa mensagem se faz vida em nós e por meio de nós não é imediata. Assim como a semente precisa de tempo e dedicação para crescer, amadurecer e, finalmente, dar frutos, assim também a transformação da mensagem em vida através de nós vai acontecendo com o aprofundamento do sentido da vida e obra de Jesus, pela maior compreensão da implicação do que ele disse e nos pediu para fazer na nossa vida. Ou seja, o chamamento é para que mudemos radicalmente de vida, mas essa mudança se dá com o nosso amadurecimento no seguimento.
Muitas vezes pensamos ser fiéis a Jesus por simplesmente “acreditarmos” nele. Mas até o maligno acredita em Jesus e o considera filho de Deus (cf. Lc 4, 41). Outras vezes, pensamos que somos fiéis ao realizarmos todos os rituais pedidos pela nossa denominação religiosa, muitas vezes deixando de atender aos necessitados que encontramos no percurso até nossa igreja, contradizendo as palavras daquele a quem dizemos “adorar” (cf. Lc 10, 30-34). Algumas vezes conseguiremos agir como se fizéssemos a figura de Jesus estar presente no nosso meio – “onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome” (cf. Mt 18, 20) –, levando à libertação integral de pessoas e grupos. Mas isso acontece em raros momentos mais “iluminados”. Muito poucas pessoas conseguem realizar o seguimento integral, fazendo de suas vidas o evangelho que muitos lerão.
Mais do que qualquer outra coisa, essa proposta de seguimento deve se tornar para nós um mobilizador, algo que nos desinstale e nos relance o desafio de, permanentemente, buscar o cada vez melhor e mais profundo seguimento de Jesus. Caminhar os caminhos que ele caminhou, seguir a trilha que ele escolheu, fazer as opções que ele faria caso ocupasse nossa posição. Eis o verdadeiro seguimento, colocando em segundo plano as questões sobre o que acreditamos ou não, sobre os aspectos ritualísticos que devemos seguir ou não, sobre as controvérsias com relação aos comportamentos alheios, sobre moral, sobre os termos que devemos utilizar em nossas falas cotidianas ou o que não podemos citar. O seguimento de Jesus Cristo, filho de Deus, acontece em opções de vida, em todos os aspectos. Nas questões mais comezinhas da vida cotidiana e vividas nas interações interpessoais e nos assuntos de relevância nacional e mundial; naquilo que queremos em termos estéticos e nas valorizações culturais de grande alcance; nas minhas opções de consumo e destinação de resíduos e nos aspectos da macro-economia e ecologia. Tudo isso está implicado em nossas escolhas, ao buscarmos realizar o verdadeiro seguimento de Jesus. Nada nos é alheio, nenhuma opção pessoal é puramente individual.
Somos chamados à radicalidade do evangelho, que nos foi proposta por Jesus Cristo para que tornemos viável e palpável o Reino do Pai já aqui nesta terra. Isto não se dá de uma vez para sempre, entretanto. Precisamos tornar nosso coração e nossa mente em terreno propício e dar tempo para que as verdades contidas nas palavras de Jesus e para que seus exemplos de vida coerente, capazes de assumir todos os riscos de suas opções, inclusive a morte, possam frutificar, se enraizar, crescer e dar muitos frutos através de nós. Eis a melhor maneira de definirmos a fidelidade aos projetos de Deus: fazermo-nos propícios para que Jesus se manifeste através de nós, num processo progressivo de transformação que nos faça mais semelhantes a ele.
Gustavo Lopes Borba
14/07/08
Pois o chamado para vivermos de forma totalmente diversa existe: é o chamado de Cristo. A proposta de vida diferente está enraizada no que ele chamou de Reino de Deus. Ainda não somos capazes de viver sua proposta – mesmo depois de mais de 2000 anos. De fato, Jesus compreendia essas dificuldades de nossa natureza e, na verdade, até conta com elas. Ele anuncia uma proposta de mudança radical na nossa forma de ser por meio de parábolas, pequenas metáforas que permitem aos interlocutores se identificarem com o conteúdo das mensagens pela alusão a aspectos com os quais têm familiaridade. Neste trecho em particular, ele se refere à palavra sobre o Reino como a uma semente. Esta semente é lançada e encontra diferentes terrenos, que são nossos corações e mentes, que podem estar preparados para acolher esta semente ou não. Podemos nos colocar de forma pessoal na passagem e refletirmos sobre que tipo de terreno temos sido, ou que terrenos somos ao longo de nossas vidas, de um ano, de um dia. As situações que enfrentamos diariamente são tão diversas, e permitem tantas oportunidades para fazermos o Reino acontecer, que podemos fazer uma análise dos terrenos que nos identificam pelo prazo de um dia.
Mas o aspecto da passagem que mais chama a atenção a mim neste momento é a identificação da mensagem sobre o Reino com a figura da semente. Afinal, se o chamado é para que façamos acontecer por meio de nossas ações uma proposta inteiramente diversa do que vivemos hoje, a maneira com que essa mensagem se faz vida em nós e por meio de nós não é imediata. Assim como a semente precisa de tempo e dedicação para crescer, amadurecer e, finalmente, dar frutos, assim também a transformação da mensagem em vida através de nós vai acontecendo com o aprofundamento do sentido da vida e obra de Jesus, pela maior compreensão da implicação do que ele disse e nos pediu para fazer na nossa vida. Ou seja, o chamamento é para que mudemos radicalmente de vida, mas essa mudança se dá com o nosso amadurecimento no seguimento.
Muitas vezes pensamos ser fiéis a Jesus por simplesmente “acreditarmos” nele. Mas até o maligno acredita em Jesus e o considera filho de Deus (cf. Lc 4, 41). Outras vezes, pensamos que somos fiéis ao realizarmos todos os rituais pedidos pela nossa denominação religiosa, muitas vezes deixando de atender aos necessitados que encontramos no percurso até nossa igreja, contradizendo as palavras daquele a quem dizemos “adorar” (cf. Lc 10, 30-34). Algumas vezes conseguiremos agir como se fizéssemos a figura de Jesus estar presente no nosso meio – “onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome” (cf. Mt 18, 20) –, levando à libertação integral de pessoas e grupos. Mas isso acontece em raros momentos mais “iluminados”. Muito poucas pessoas conseguem realizar o seguimento integral, fazendo de suas vidas o evangelho que muitos lerão.
Mais do que qualquer outra coisa, essa proposta de seguimento deve se tornar para nós um mobilizador, algo que nos desinstale e nos relance o desafio de, permanentemente, buscar o cada vez melhor e mais profundo seguimento de Jesus. Caminhar os caminhos que ele caminhou, seguir a trilha que ele escolheu, fazer as opções que ele faria caso ocupasse nossa posição. Eis o verdadeiro seguimento, colocando em segundo plano as questões sobre o que acreditamos ou não, sobre os aspectos ritualísticos que devemos seguir ou não, sobre as controvérsias com relação aos comportamentos alheios, sobre moral, sobre os termos que devemos utilizar em nossas falas cotidianas ou o que não podemos citar. O seguimento de Jesus Cristo, filho de Deus, acontece em opções de vida, em todos os aspectos. Nas questões mais comezinhas da vida cotidiana e vividas nas interações interpessoais e nos assuntos de relevância nacional e mundial; naquilo que queremos em termos estéticos e nas valorizações culturais de grande alcance; nas minhas opções de consumo e destinação de resíduos e nos aspectos da macro-economia e ecologia. Tudo isso está implicado em nossas escolhas, ao buscarmos realizar o verdadeiro seguimento de Jesus. Nada nos é alheio, nenhuma opção pessoal é puramente individual.
Somos chamados à radicalidade do evangelho, que nos foi proposta por Jesus Cristo para que tornemos viável e palpável o Reino do Pai já aqui nesta terra. Isto não se dá de uma vez para sempre, entretanto. Precisamos tornar nosso coração e nossa mente em terreno propício e dar tempo para que as verdades contidas nas palavras de Jesus e para que seus exemplos de vida coerente, capazes de assumir todos os riscos de suas opções, inclusive a morte, possam frutificar, se enraizar, crescer e dar muitos frutos através de nós. Eis a melhor maneira de definirmos a fidelidade aos projetos de Deus: fazermo-nos propícios para que Jesus se manifeste através de nós, num processo progressivo de transformação que nos faça mais semelhantes a ele.
Gustavo Lopes Borba
14/07/08
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