Mensagem e ações


Em outro lugar (“Jesus como mestre de humanidade” – blog Cristianismo das Catacumbas), escrevi que a força da pregação de Jesus tem fundamento pela força dos valores que ele promoveu. Gostaria de esclarecer melhor alguns aspectos dessa declaração no que concerne à natureza e ao papel desses valores na vida cristã. Ou por outra, o que realmente eu queria dizer ao destacar a força dos valores promovidos por Jesus? O que são valores humanos, afinal?

Valores humanos dizem respeito ao campo da discussão ética da vida em comunidade. Valores orientam a vida de indivíduos e comunidades na sua interação e na sua organização. Valores são indicativos das prioridades eleitas por grupos e pessoas. Aquilo que explicitamos como nossos valores indicam um pouco de nossas motivações e objetivos. Jesus não usou de meios termos na divulgação dos valores que o orientavam. Eles estão presentes na descrição que os evangelhos fazem de seus ensinamentos.

Aliás, devemos entender que valores não são belas palavras no papel, mas objetivos maiores que devem orientar nossos objetivos práticos, nossas ações cotidianas. Quando nos referimos a valores, não estamos apontando as palavras com que os nomeamos, os substantivos. Podemos expressar determinadas palavras como sendo nossos valores, mas não colocá-las em prática. Podemos até não expressar quais são nossos valores, pois eles se expressam nas ações que praticamos. Os valores nos orientam e guiam, conformando tudo o mais em nossa vida e em nossa expressão de acordo com eles. Nosso ser não manifesta valores em momentos extraordinários. Ao contrário, nossos valores devem conformar nossa vida ordinária. É o que fazemos no cotidiano que expressa o que valorizamos, nossos objetivos, nossa visão ética do mundo.

Fiz questão de trazer este esclarecimento para deixar claro o papel das palavras no cristianismo das catacumbas. É bom que se entenda que o que marca e destaca a figura de Jesus não são somente seus ensinamentos, suas palavras, sua mensagem, enfim. Nem se trata de dar importância às suas ações, ao que ele fez. É preciso ter claro que, ao tomar qualquer um desses polos em separado, mensagem ou ações, não se conseguirá compreender a grandeza da pessoa de Jesus e a força de sua proposta do Reino de Deus. Só alcança esse entendimento e só se comove por esse encontro com a pessoa de Jesus quem consegue superar o raciocínio linear e concebe a sua proposta do Reino como ensinamentos e atos, palavras e vida, mensagem e ação. Só assim, integrando o dito com a prática, é que a proposta de Jesus faz sentido e que o seguimento ganha corpo e atualidade.

Desconfiem daqueles que têm palavras bonitas na ponta da língua e vivem somente em púlpitos de “pregação”; daqueles que conhecem de cor citações bíblicas e que vivem trancados em salões a auditórios para os sedentos por belas mensagens. Desconfie também daqueles caridosos abnegados que não param em casa por terem as chaves da “igreja”, daqueles de quem se depende para fazer funcionar qualquer coisa no prédio paroquial. Vivem os extremos empobrecidos da pouca compreensão da proposta de Jesus. São como pássaros mutilados, em que lhes falta uma das asas. Pois que o Reino não é puro ativismo e nem compêndio de palavras, senão a dialética viva entre a mensagem, a proposta, o plano, os ensinamentos de Jesus na sua compreensão do ser humano e do seu destino comunitário e as ações, os atos, as realizações, os arranjos comunitários que colocam tal projeto do Reino de Deus em prática. Me atrevo a dizer que, se ainda não compreendemos isso, não fomos capazes de compreender Jesus e sua proposta do Reino, a despeito de qualquer estudo ou título acadêmico que tenhamos. Se as palavras e as ações não se tornam unas em nossa vida comunitária, não somos cristãos e não podemos nos considerar Igreja no sentido próprio dos primeiros cristãos. Se consideramos que basta ir à celebração da missa dominical e que nos ignoremos cordialmente durante o ritual, fingimos ser seguidores do revolucionário que, francamente, admiramos e respeitamos pelo que disse e consideramos isso até belo, mas que achamos inviável na prática e, “pensando bem, até que não é tanto para ser realizado, mas pode servir para nos fazer sentir bem”.

Esse é um dos motivos para que eu mire os rituais com meus canhões de ferinidade, pois eles nos enganam ao nos iludir com a noção de que basta segui-los para fazermos o que Jesus gostaria de nós, quando na verdade eles não são nem o começo. É preciso transcendê-los e ir muito além, crescer no entendimento de quem é Jesus, do que ele propõe e o que cabe a nós, como coletivo, realizar para tornar viável sua visão, seu projeto neste mundo, nesta vida, no nosso tempo, na nossa carne. Os ritos não existem para si e não são absolutos. Sua função é pedagógica, para nos fazer crescer na compreensão de Jesus e de seu Reino e, assim, descartarmos a necessidade dos próprios ritos. Existem pessoas que ainda precisam dos ritos, pois ainda estão aprendendo sobre Jesus e o Reino. Mas há aqueles que já suplantaram essa etapa e não encontram maneiras de continuar sua caminhada. É por isso que muitos cristãos amadurecem e deixam o seio da igreja instituição, pois esta não está preparada para lhes oferecer um lugar de continuidade na caminhada. Essa é a tarefa mais importante para a igreja instituição nos dias de hoje: tornar-se relevante para um grande número de seguidores de Jesus que já transcenderam os ritos, amadureceram e querem dar testemunho no mundo e colaborar para a continuidade do Reino de Deus na atualidade.

Enquanto os defensores da igreja instituição, majoritariamente clero e parte do laicato, não perderem o medo da maturidade, a igreja instituição continuará distante do Reino e os ritos continuarão a ser apresentados como única via de seguimento. A igreja comunidade continuará a crescer fora da igreja instituição e a imagem principal dos cristãos frente ao mundo continuará cindida entre os que pregam a mensagem e os que agem sem um projeto claro.

Enquanto isso, “toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto” (Rm 8, 22).

Gustavo Lopes Borba
17/07/12

Jesus como mestre de humanidade


Recentemente me reencontrei com um amigo que não via há 23 anos. Conversamos bastante sobre todo tipo de assunto. Porém, ele mostrou bastante interesse em conhecer mais os fundamentos que embasavam minha visão de cristianismo. Isso me surpreendeu muito, pois é o tipo de pessoa de quem eu jamais esperaria tal tipo de interesse. Isso mostra como não devemos subestimar as pessoas e categorizá-las baseado somente no comportamento que elas manifestam. Há inquietações inauditas em cada um de nós, independente daquilo que pensamos sobre as pessoas ou da imagem que prezamos em construir de nós mesmos. Também me mostrou que há espaço para o cristianismo crescer, mesmo entre aqueles que se colocam em movimento contrário ao cristianismo católico ou a qualquer outro tipo de cristianismo institucionalizado.

Ao refletir sobre o que meu amigo procurava ao se interessar pelas referências que eu tinha de cristianismo, pude chegar à conclusão que ele buscava algo fundamental, algo inerente ao viver humano, cada vez mais difícil de ser encontrado na atualidade. O que ele buscava, afinal? Para responder a essa questão, devemos ver o que Jesus nos oferece, mas com o cuidado de nos debruçarmos à figura de Jesus como pode ser entendida na sua origem, e não no que foi feito dele posteriormente pelas diferentes religiões cristãs.

Ao considerarmos a figura de Jesus, partindo dos pressupostos anteriormente expressos, vemos que devemos nos achegar a ele como um homem da Palestina do primeiro século, terra dominada pelo império romano e envolta em exploração e pobreza. Também temos que considerar o judaísmo como raiz de uma visão de mundo fundada no domínio de um Deus que exige a justiça nas relações sociais da comunidade e que não aceita exploração ou comercialização dos bens considerados comuns, como a terra, por exemplo. O que faz com que Jesus se destacasse em seu tempo para que se tornasse proeminente ao longo dos séculos foi a força de sua mensagem, centrada no resgate do mandamento divino de respeito à justiça nas relações cotidianas. Tal mensagem bateu de frente com a estrutura social existente na sua época, contestando o papel do império romano e sua dominação na Palestina e também o papel dos judeus de destaque que agiam como apoiadores do regime de dominação. Mas não só isso, e sim o âmago de sua mensagem, baseada na solidariedade, fraternidade, companheirismo, gratuidade, amor, justiça.

A força da pregação de Jesus está depositada na força dos valores que promoveu. Caso não houvesse força nos valores que ele propõe, não haveria motivos para os poderosos desejarem e executarem sua morte. Mas é a força inerente a tais valores que incomoda os poderosos e os faz moverem-se a fim de evitar as mudanças na situação que tais valores podem trazer. Assim, Jesus representa efetivamente uma ameaça ao status quo, que então se move para eliminar essa ameaça. Porém, a ameaça não é exterminada pela morte de Jesus, uma vez que ele deu forma linguística a tais valores, que se tornam então passíveis de comunicação, possibilitando que a comunidade que se reuniu em torno a Jesus possa continuar seu trabalho de divulgação desses valores. O que mais impressiona é que tais valores tenham tomado corpo na Palestina daquela época, quando tínhamos a rica contribuição filosófica da Grécia Antiga, assim como a cultura oriental indiana e chinesa. O fato é que nenhuma contribuição trazia o que o judaísmo concebia como mandato divino, que se centrava na ideia de justiça divina.

O que meu amigo buscava, se discorda veementemente das propostas do catolicismo ou de qualquer outra denominação cristã? Como podemos conceber que ele buscava algo maior se não pretende se ligar a nenhuma proposta religiosa? Ele buscava referências que dessem sentido à existência e tais referências são os valores humanos. As diversas religiões existentes, não somente as cristãs, existem como construções culturais que se pretendem meios, instrumentos, para a promoção desses valores humanos. Mas as inquietações de meu antigo amigo mostram que tais valores são inspiração profunda de todos os seres humanos, que buscam alcançá-la por meio de elementos culturais específicos. E também mostram que as religiões não mais têm servido como instrumento para responder a tal inspiração humana. Deixaram de ser um meio, para se constituírem em fim em si mesmas. O que meu amigo busca não são sacramentos ou rituais, dogmas ou tradições, mas sim a vivência cotidiana de valores imorredouros e universais. Hoje, tristemente temos que constatar que as religiões, entre elas o próprio catolicismo, não atuam mais como facilitadores culturais para que nossas inspirações mais profundas de crescimento espiritual e humanista possam obter respostas. Na verdade, levando em conta o catolicismo como exemplo paradigmático, as religiões atuam na defesa de si mesmas, negando as contradições internas e mostrando-se incapazes em responder aos desafios contemporâneos. Mulheres e homens dos tempos atuais, com acesso fácil a todas as informações, não encontram mais respostas nessas instituições. Isso não significa que não tenham questionamentos espirituais ou transcendentes. Tais elementos, como já dito, são inspirações humanas profundamente arraigadas. Se as religiões como estão hoje não respondem a tais inspirações, o que poderá responder?

A experiência do encontro com a pessoa de Jesus e o ouvir atentamente sua mensagem podem tocar as cordas profundas em nosso ser e fazer ressoar mais uma vez as inspirações que trazemos em nós de valores humanos que tragam sentido à existência. Pode parecer contraditório, mas o catolicismo produziu um recente documento que enfatiza essa velha verdade. O documento de Aparecida, fruto da Conferência Episcopal Latinoamericana, resgata o papel do encontro profundo com a pessoa de Jesus Cristo como fonte de onde brota toda a experiência de transcendência. Mas paramos por aqui, pois o Jesus proposto pelo catolicismo não é o mesmo Jesus descrito no início deste texto. É com este último Jesus que acreditamos ser necessário o encontro, com o Jesus que era mais humano e ligado às vicissitudes de sua humanidade do que ao Jesus do Santíssimo. Este Jesus que queremos resgatar é um pobre camponês artesão analfabeto da Galiléia nos tempos da dominação romana e que baseou-se no Deus conhecido pelos israelenses para iniciar um movimento de instauração do Reino de Deus com base em valores de justiça universal e solidariedade gratuita a toda e qualquer pessoa que se associasse aos mesmos valores, e até mesmo aos considerados inimigos, com base na oferta de curas gratuitas e partilha de alimentos em fraternidade.

Tais fundamentos para o Reino de Deus divergem bastante do que o catolicismo apresenta da pessoa de Jesus como Deus. A figura de Jesus tomou tamanho destaque e sua devoção é tão mais importante, que sua mensagem de promoção do Reino de Deus e de valores comunitários ficaram em segundo lugar, quase irrelevantes. Segundo suas afirmações, importa mais que nos transformemos internamente e adotemos atitudes morais, que o restante da sociedade se transformará pela disseminação da moralidade. Deus acolhe nossas súplicas particulares e os malefícios que eventualmente nos atingirem servem aos propósitos divinos de que aprendamos algo ou para nos “amansar”. Em respeito a tradições milenares, não se ordenam mulheres, assim como os leigos não temos espaço para expor nossos conhecimentos em teologia e na interpretação bíblica. Não há democracia e não há diálogo entre presbíteros e leigos. Os ritos não podem sofrer nenhuma alteração em sua proposição, mesmo em respeito a particularidades culturais de cada sociedade, a despeito do documento da Conferência Latinoamericana de Santo Domingo, que propôs a inculturação. Creio que cada um de nós pode lembrar de algo assemelhado que demonstre como Jesus foi ressignificado ao longo do tempo para atender a interesses de manutenção e preservação de uma dada visão de religião.

Urge que a pessoa autêntica de Jesus seja resgatada e promovida, principalmente para se compreender os fundamentos de sua mensagem e que se ressitue em lugar de destaque a proposta de instauração do Reino de Deus na vivência cotidiana entre as pessoas. O Reino de Deus não depende de nenhuma religião, mas precisa de pessoas que vivam os valores que promove. Em minha experiência com o amigo de longa data, as pessoas de hoje estão ansiosas por esses valores e a humanidade não aguenta mais como temos vivido atualmente, em meio a tanta violência, exploração, ganância, egoísmo, indiferença etc. A humanidade está pronta para propostas profundas de transformação. Não há outro mestre em humanidade do que o pobre camponês oprimido Jesus.

Gustavo Lopes Borba
13/06/12

A bíblia como orientação à nossa vida



“Lâmpada para meus passos é tua palavra e luz no meu caminho” Sl 119, 105
Bíblia tradução CNBB

A bíblia tem sido usada como referência para guiar milhões de pessoas em todo o mundo. Lá encontramos um conjunto de orientações sapienciais para todos os aspectos da vida humana. É claro que tais orientações têm data e contexto moral. Isso não impede que muitas pessoas busquem se orientar por seus preceitos nos dias de hoje.

Aliás, um dos grandes impedimentos para que saibamos nos beneficiar da bíblia da melhor maneira diz respeito a essa crença de que seus ensinamentos devem ser entendidos hoje como então, pela letra e não pelo sentido. Isso nos remete à questão da interpretação da bíblia, ou como dizem os estudiosos, à hermenêutica.

Segundo consta na Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermenêutica), “Hermenêutica é um ramo da filosofia e estuda a teoria da interpretação, que pode referir-se tanto à arte da interpretação, ou a teoria e treino de interpretação. A hermenêutica tradicional - que inclui hermenêutica Bíblica - se refere ao estudo da interpretação de textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito”.

Assim, é essencial que consideremos a interpretação que se faz dos textos da bíblia para considerar como ela pode nos orientar na vida. Por ser considerada um livro sagrado, inspirada pelo próprio Deus aos homens que a escreveram, a bíblia ganha uma natureza de imutabilidade e de irrefutabilidade que impede uma compreensão mais sensata de seu papel para os cristãos em geral e para as demais pessoas.

Muitas consideram que os textos da bíblia permitem o acesso mais direto à verdade última, ou à revelação da verdade sobre a vida e a existência dos seres humanos, de tudo o que foi criado e do universo. Essa visão coloca a bíblia como parâmetro universal e relativiza qualquer outra fonte de conhecimentos, inclusive a ciência. Isso, logo se vê, não permite o crescimento e o amadurecimento, pois não permite abertura para tal, já que se considera que o nível máximo de crescimento e amadurecimento já foram atingidos com a bíblia. A ciência traz novas descobertas diariamente, pois o que consideramos realidade é tão complexo e tão incomensuravelmente impossível de ser absorvido pela nossa limitada capacidade cognitiva, que jamais alcançaremos esse nível de compreensão a que chamam de verdade última. Mas existem aqueles que acreditam nisso e estão até dispostos a apostarem suas vidas na defesa disso. Ocorre não só no cristianismo, mas também nas demais religiões. Hoje em dia vemos muito em voga na mídia a exposição dessa defesa suicida associada ao islamismo, mas encontra-se em todas as denominações religiosas. Aliás, o que faz com que se destaque uma ou outra nos diferentes períodos históricos são os interesses políticos de cada momento.

Se a bíblia é a verdade última revelada por Deus e se todas as outras fontes de conhecimento são relativas e não têm a capacidade de trazer nada de novo frente a essa verdade, teremos muitas pessoas que acreditam nisso dispostas a darem suas vidas na defesa de tal crença, inclusive ameaçando a vida daqueles “infiéis” que não acreditam ou não admitem que assim seja. Paradoxalmente, aqueles que se fiam nisso deixam de expressar paralelismo com as palavras do livro que dizem defender, pois passam a odiar os inimigos e a tramar o mal para eles, simplesmente para defenderem seu ponto de vista sobre os textos ali reunidos. Ou seja, a ideia que se tem do texto é mais importante do que o que o próprio texto diz.

Por outro lado, também temos aqueles casos em que há choques de interpretação, nos quais grupos que realizam diferentes interpretações entram em choque pela defesa de seus pontos de vista. Aqui já se aceita que os textos devem ser interpretados. Não há, porém, concordância sobre o resultado dessa interpretação. Vemos que os textos são objeto de interpretação e que deles se retira como resultado algo que pode ser considerado como uma aproximação da mensagem que se produziu originalmente no momento de sua elaboração para o contexto atual em que o intérprete vive, de forma a tornar a mensagem relevante à contemporaneidade em que ele vive.

O exercício de abertura à novidade que os textos bíblicos podem representar aos períodos posteriores de tempo é dificultado devido à constituição do que se convencionou chamar de “tradição”. A tradição é a consideração do que se firmou entre os intérpretes de um período histórico como sendo “verdadeiro” e que foi passado adiante para as gerações posteriores, constituindo a base para novas interpretações. Ou seja, não se parte para novas interpretações a partir de conquistas quanto à capacidade de tradução dos textos em suas línguas originárias ou dos novos conhecimentos arqueológicos dos lugares de origem dos textos, mas se considera o que foi descoberto sobre os próprios textos e suas interpretações anteriores para se considerar como válidas interpretações contemporâneas. As interpretações que não estejam de acordo com a tradição, mesmo que embasadas em novos conhecimentos na tradução ou na arqueologia, são desconsideradas ou desabonadas, simplesmente por esse fato. A mim, não parece algo sério que se aposte nessa abordagem, pois impossibilita justamente o que os defensores inveterados da bíblia como palavra revelada parecem defender: que se alcance a “verdade última”. Aliás, é difícil alcançar qualquer verdade se não se está disposto a descobrir o que é falseável a partir de novos conhecimentos e descobertas sobre algo produzido a tanto tempo atrás.

Enfim, há aqueles que usam a referência do texto bíblico para tentar compreender a vontade de Deus para si em seu momento histórico e para sua vida factual. Tal exercício pode ser feito sob diferentes métodos e ter diferentes nomes. Consideremos o uso do termo “discernimento” para conceber tal ato. Uso aqui o termo de forma extensa, não querendo especificar nenhum método em particular e nenhuma referência a algum ramo de espiritualidade definido. Quero apenas ter à mão um termo que me ajude a prosseguir com a reflexão que ora desenvolvo.

Muitas pessoas procuram na bíblia referência para sua vida e para seu bem estar. Para isso usam de diversas estratégias – atentem que não chamei de método, pois não estou realizando um estudo exaustivo sobre isso – no manuseio do livro sagrado que consideram eficazes para o discernimento da vontade de Deus. Muitos simplesmente pegam a bíblia de forma inadvertida e a abrem na primeira página que sair, acreditando que o acaso na abertura e na leitura representariam maiores chances de encontrarem ali o que Deus deseja que leiam para aquele dia, ou momento. Tal prática é perigosa e enganosa, já que o livro da bíblia foi escrito com determinados objetivos e cada texto deve ser compreendido como um produto humano localizado histórica e socialmente, devendo ser assim entendido, pois seus textos são datados e necessitam de esclarecimentos quanto ao contexto e quanto ao texto. Sem esses cuidados, corremos grandes riscos de nos tornarmos fundamentalistas sanguinários, tal como descrito logo no início.

Uma breve palavrinha sobre os termos “fundamentalista” e “radical”. Defendo a ideia que temos que nos tornar cristãos radicais, mas afastarmo-nos do cristianismo fundamentalista. Com o termo “radical” quero me referir ao necessário retorno às raízes de nosso seguimento de Jesus Cristo, de buscar as raízes do cristianismo, ou seja, que nos movamos na direção do ponto fundante do cristianismo, buscando compreender como essa origem se deu, o que representou para a sua época, que propostas apresentou ao seu tempo e como tais propostas podem ter o mesmo papel hoje como tiveram no seu tempo. Ser radical no seguimento de Jesus é procurar ser cada vez mais como ele, só que nos dias de hoje e através de nossa vida. Por outro lado, o fundamentalismo implica em uma fixação em padrões constituídos na origem do movimento cristão e que busca realizar movimento diverso da radicalidade. Não querem considerar como atualizar a mensagem original para promover o mesmo efeito comparado à época de sua origem. Querem é transformar o momento atual para voltar a ser como era no momento da origem do movimento cristão. Não querem falar às pessoas do tempo atual. Querem fazer o tempo atual voltar ao passado e se tornar o que era na sua origem. Querem tornar a sociedade semelhante ao que era em seus fundamentos. Não dialoga com a diversidade, mas exige sua volta ao passado, segundo os ditames de sua origem.

Retornando à discussão das estratégias para discernir a vontade de Deus a partir da bíblia, considero que outro erro ligado à nossa herança supersticiosa é de acharmos que o acaso é mais representativo da vontade de Deus para cada um de nós do que a capacidade de realizar planejamento, promover preparação para o entendimento dos textos e previsões de ações. Abrir a bíblia em qualquer página não garante acesso à vontade de Deus. Não representa entrega aos desígnios do Pai em confiança plena. Parece até ser uma forma de colocar à prova a intervenção divina para assegurar que ela age em prol daqueles que expressam sua entrega aos seus desígnios: “Vamos ver se Deus está mesmo comigo, agora que me dedico a ele. Se ele estiver do meu lado mesmo, vai ter que haver uma ligação entre o que estou vivendo e o texto que sair aqui por acaso”. Isso não é forma de interpretar a bíblia para que nos oriente em nossa vida. É fazer roleta russa com a diversidade de textos que compõem a bíblia, além de nos afastar do Deus verdadeiro e nos colocar próximos a panteístas, animistas e demais teístas não amadurecidos, cuja base para a crença está relacionada a elementos com concretude e palpabilidade. Não creem realmente em Deus; necessitam de elementos aos quais precisam se apoiar para continuar com essa crença.

Outras pessoas procuram discernir a vontade de Deus considerando que os textos bíblicos irão se referir especificamente a suas vidas, ao momento que estão vivendo, trazendo uma resposta imediata ao que se passa, sem necessidade de nenhuma interpretação. Isso também é um grande erro, pois coloca a pessoa no centro do universo e todos os elementos bíblicos estariam a serviço dela. Desconsidera a especificidade da criação do texto original e os vieses dados pelas traduções diferentes. Mostra que tal pessoa se exime totalmente da responsabilidade sobre sua vida e suas ações, escondendo-se sob o manto da alegada “vontade” de Deus. A vontade de Deus para nós é que assumamos o máximo potencial de que somos capazes, assumindo nosso ser integralmente, inclusive a capacidade de responder (responsabilidade: respons - habilidade) por nossas escolhas. Deus não nos quer manipular ou tirar-nos o direito e a graça de crescermos por nossas escolhas, sejam elas acertadas ou enganosas. Deus quer nos proporcionar a maior das graças, que é o crescimento maduro, possível somente quando assumimos a responsabilidade pelas opções que adotamos ao longo da vida. Se não compreendermos isso, como esperamos compreender a vontade de Deus para nós ou a “verdade última”? Como esperamos compreender o que Deus quer de nós simplesmente pela leitura de um texto da bíblia?

O discernimento da vontade de Deus para nós depende da interpretação que se faz da bíblia como texto produzido e de cada um de seus textos com relação à compreensão dos contextos histórico e social, além do contexto intra texto. Caso não se leve em conta tais elementos, perdemos a capacidade de considerar a vida do texto e de atualizá-lo para o momento contemporâneo. Lidos como estão, são letra morta, pois como terra seca que antes possibilitou a vida. Ao considerarmos os elementos necessários para sua interpretação, tornam-se parte de nós mesmos e vivem conosco o nosso cotidiano, pois que nos alimentam e nos direcionam, constituindo nosso existir. A bíblia é um texto que pode tornar a viver para cada pessoa, dependendo do cuidado com que a manuseamos. Não podemos ser levianos ao nos aproximarmos dos textos da bíblia. Ao mesmo tempo, não podemos ser fundamentalistas com relação ao que ali está, pois o texto é um só, mas sua interpretação deve mudar para atender a novos elementos descobertos. O texto deve ser vivo, ser atualizado e responder ao sentido geral a que se propunha o autor naquele período de elaboração. Jesus nos ensinou a ter essa postura quando mostrou que o Deus do antigo testamento é o mesmo Deus do novo, mas que a forma com que se escreve sobre ele é que muda; ele não. Deus é um Deus de amor, misericordioso, muito diferente do Deus vingativo e o senhor dos exércitos apresentado no antigo testamento. Foi Deus que mudou? Ou foi a forma dos homens experimentarem e sentirem sua presença e sua intervenção? Quem é mais falível a erro? Deus ou os homens, mesmo sendo aqueles que escreveram os textos inspirados da bíblia? Acredito na segunda opção.

Por fim, Deus não está no que chamamos de acaso, aquele ocorrer imprevisto de fatos que nós mesmos interpretamos. O acaso pode ser outro nome para a ação de Deus em nossa vida, mas quando é realmente fortuito. Ao abrirmos uma bíblia sem atentarmos para o livro que vai sair e chamarmos isso de acaso estamos falseando o verdadeiro acaso e impedindo a ação de Deus em nossa vida, além de estarmos enveredando por um caminho perigoso que pode resultar em que nos embasemos numa imagem errônea de Deus e que nos faça cada vez mais egoístas. Deus tem planos para nós e quer que nos tornemos conscientes de sua vontade para que a realizemos. A forma de fazer isso é diversa, inclusive com o uso da bíblia. A nós cabe aprendermos a cada dia mais coisas sobre os textos que compõem a bíblia sagrada para que a possamos usar como referência de discernimento da vontade de Deus para nós.

Deus se preocupa com cada momento de nossas vidas. Essa é uma tarefa que só ele pode realizar. Mas não quer de nós que busquemos respostas a questões relacionadas ao nosso cotidiano. Quando buscamos discernir sua vontade para nossa vida, ele está mais preocupado em nos fornecer uma orientação geral para a vida e para que a usemos em nossos posicionamentos, sem distinção quanto a um momento específico que vivemos. Ele nos pede que vejamos a figura em seu todo, e não as pequenas peças que a compõem. Seu chamado é para grandes questões que se expressam no cotidiano, como a fome, a desigualdade social, o sofrimento humano, o egoísmo. Suas orientações dão a imagem maior, para que assumamos a responsabilidade de responder diante da concretude desses eventos em nosso cotidiano. Nós devemos assumir posicionamentos diante de tais coisas, e não pedir a Deus que nos diga o que fazer diante de cada fração de tempo que vivemos. Ele nos dá sua visão e o que é sua vontade para cada um frente a tais questões e espera que assumamos na vida, nesses pequenos flashes diários, o dever de tornar viva sua vontade. A responsabilidade é somente nossa, e não de Deus. Tantas pessoas se perguntam como é que Deus permite o mal e o sofrimento de tantos inocentes. Deveriam se perguntar como podem tornar concreta, diante dessas realidades, a vontade de Deus que só tem a eles como meio de se expressar e mitigar tais males.

Gustavo Lopes Borba
05/03/12

Agir a partir dos sinais dos tempos - Olhar para a Igreja

SEMINÁRIO DE ESTUDO
“Agir a partir dos sinais dos tempos”
Rumo ao VI Encontro Nacional
19/11/11

Objetivo:
VER e JULGAR a partir do documento preparatório:

• Olhar para a Igreja (Ms. Gustavo Borba)
Objetivo: analisar os últimos 30 anos de ação pastoral a partir do Concílio Vaticano II, considerando: Igreja Povo de Deus, a Teologia da Libertação, Medellín/Puebla, Santo Domingo/Aparecida, romanização do jeito de ser Igreja, espiscopalização, direito canônico e pastoral, tutela do laicato, questão da mulher, diminuição dos católicos. O discurso profético e inovador do CV II e a prática de reordenamento e institucionalização dos espaços eclesiais.

AGRADECIMENTOS
Agradeço ao Edson pela confiança em me convidar para este Seminário de Estudos. Também agradeço à comissão de formação do CLASP, na pessoa da Mírian, por me permitir fazer parte e contribuir de alguma forma com o laicato em São Paulo. Quero me desculpar antecipadamente pela superficialidade de algumas das afirmações que vou fazer, mas é preciso compensar o pouco tempo disponível para o grande número de informações.

PREÂMBULO
1. Primeiro, gostaria de perguntar a vocês o que a palavra euangelion, que aportuguesamos como Evangelho, significa.

2. E o verbo “evangelizar”? Guardem isso, porque vamos voltar a isso depois.

DE VOLTA AO CONCÍLIO VATICANO II
3. Bem, aqui estamos de novo falando do Concílio Vaticano II (CV II). Já se passaram 46 anos desde o término do CV II e ainda continuamos falando dele. Quais os motivos? O que ele representa para a vida da Igreja hoje, para que a gente continue falando dele?

4. O CV II mudou toda a forma da Igreja ser para si mesma e para o mundo. Foi um concílio de renovação e de atualização, fomentando a abertura ao diálogo. Para compreendermos o que mudou depois de tanto tempo, é preciso fazer contrastes com o jeito da Igreja antes e depois do CV II. Antes as missas eram celebradas em latim e quem não conhecia a língua, no mundo todo, não entendia e nem podia participar efetivamente da celebração. Hoje as missas são celebradas na língua natal de cada país e todos são co-celebrantes junto com o padre que preside a celebração. O padre ficava de costas para os fiéis e hoje já encontramos igrejas em que o altar fica no centro, possibilitando maior participação de todos. A Igreja se considerava à parte do mundo, que era visto como um local de pecados. Considerava-se que não haveria chance de salvação de ninguém de fora da Igreja Católica e hoje se considera que a Igreja é um dos caminhos de salvação. A Igreja estava identificada com a hierarquia e hoje se tem um discurso de que todos são membros da Igreja, apesar de que isso não encontra paralelismo com o que se vive no cotidiano. Antes leigas e leigos eram vistos como ovelhas a serem apascentadas, seguidoras sem questionamento do que era dito pela hierarquia. Hoje ainda persiste um posicionamento de alguns, tanto presbíteros quanto leigos, que gostariam que as coisas fossem assim, mas estamos caminhando e crescendo em formação e em discernimento para atuar ministerialmente em comunhão.

5. O CV II foi revolucionário nas mudanças que propôs para a Igreja. De fato, ainda estamos esperando a plena efetivação dessas mudanças, de tão profundas que foram.

CONFERÊNCIAS EPISCOPAIS LATINOAMERICANAS
6. O CV II foi tão importante para transformar a Igreja que suas influências se fazem sentir até hoje e estão presentes nos documentos das conferências episcopais latinoamericanas.

7. A primeira conferência episcopal latinoamericana foi realizada no Rio de Janeiro, em 1955, antes, portanto, do CV II. De um de seus pedidos ao papa nasceu o CELAM, o Conselho Episcopal Latino Americano.

8. A segunda conferência episcopal latinoamericana foi realizada em Medellín, na Colômbia, em 1968, e já foi realizada com o objetivo de contextualizar as conclusões do CV II para a realidade latinoamericana. A forma com que isso foi feito foi além do que o CV II poderia prever, pois a conferência de Medellín mudou radicalmente a forma da Igreja latinoamericana, voltando-a aos pobres e fazendo-se encarnada nas diversas realidades vividas pelos países da região, o que era um desejo não realizado por São Hélder Câmara*  durante sua participação no CV II e agora concretizado. Em muitos países latinoamericanos já encontrávamos o domínio de ditaduras militares instauradas após golpes. A forte interferência do governo estadunidense no continente a fim de ganhar e preservar força na guerra fria causou o fim de muitos processos democráticos e levou à opressão de todos os povos ao sul do rio Grande.

Hélder Câmara e outros são aqui tratados como santos porque a Igreja Comunidade não necessita da aprovação da Santa Sé para considerar algum seguidor de Cristo – ou qualquer outra pessoa que agiu bem – como santo, pois consideramos santo aquele que se destaca como exemplo de seguimento e de luta pelo bem dos filhos e filhas de Deus.

9. A terceira conferência episcopal latinoamericana ocorreu na cidade mexicana de Puebla, em 1979. Reafirmou as opções de Medellín e fortaleceu a opção pelos jovens, além de refletir a influência da exortação pastoral de Paulo VI, Evangelii Nuntiandi. Nesta conferência já se fez sentir o peso da intervenção de Roma, reflexo do temor da influência do materialismo histórico**  na Igreja latinoamericana e uma preocupação com a nascente Teologia da Libertação.

** O materialismo histórico é o método de interpretação da História adotado por Karl Marx e, em suma, adotava a noção de que os movimentos da História podem ser explicados pelas alterações no modo de produção material da humanidade.


 10. A quarta conferência episcopal latinoamericana foi realizada em Santo Domingo, na República Dominicana, em 1992, e foi caracterizada pela mudança de prioridades, não havendo mais o foco central na opção preferencial pelos pobres e pelos jovens, mas na inculturação e no protagonismo dos leigos. Em Santo Domingo também vemos o abandono da tradicional metodologia VER-JULGAR-AGIR, refletindo diretamente a intervenção de Roma no andamento da conferência. Tal conferência foi a que menos repercutiu na Igreja latinoamericana pela baixa adesão às suas propostas.

11. A quinta conferência foi realizada em Aparecida, no Brasil, em 2007 e enfatizou os aspectos do discipulado e missionariedade do seguimento de Jesus, apontando os cinco rostos sofredores: pessoas em situação de rua, migrantes, enfermos, dependentes de drogas e presos. Novamente não se dá ênfase à opção pelos pobres e percebe-se um esforço em apresentar outra metodologia de análise da realidade a partir de referenciais pastorais, excluindo-se o materialismo histórico.

PAPADO DE JOÃO PAULO II
12. O papa João XXIII exerceu seu papado de 1958 até 1963, morrendo em pleno CV II. Quando convocou o CV II em 1959, a palavra italiana usada para descrever o significado desse concílio foi “aggiornamento”, que significa “colocar-se em dia”, “atualizar-se”.

13. O papa Paulo VI († 1978) veio em seguida e deu continuidade ao CV II, um processo já em andamento. Talvez por isso mesmo ele não tenha conseguido progredir em aspectos considerados fundamentais para a continuidade do processo de abertura da Igreja. Por exemplo, sua encíclica Humanae Vitae, sobre a regulação da natalidade, veio reafirmar posturas da hierarquia da Igreja contra métodos anticoncepcionais considerados não naturais, como pílula ou camisinha, e defendendo métodos “naturais”, como “tabelinha”, além de afirmar que a união do casal deve necessariamente estar direcionada para a procriação.

14. O papa João Paulo I viveu somente um mês e não representou muito em termos da análise do CV II.

15. O papa João Paulo II († 2005) foi quem efetivamente pôde promover a implementação das resoluções do CV II. Toda a avaliação quanto ao CV II ter sido ou não ainda implementado cabe ao papado de João Paulo II*** .

*** Evidentemente, não estamos aqui nos referindo apenas à pessoa de João Paulo II ou à sua ação ou omissão diretas na implementação, mas na figura que representou e em suas opções de ação, assim como sua submissão a forças internas à Igreja Instituição.

16. João Paulo II viveu na Polônia dominada pela URSS e pelo comunismo. Em plena guerra fria, o padre que viria a se tornar papa viveu atrás da “cortina de ferro”. O chamado socialismo real – assim chamado por ser considerado como o exemplo prático de socialismo e não apenas uma teoria – se mostrou, na verdade, ser um regime antidemocrático, tirano e violento. Os dois países que polarizaram o mundo após a Segunda Grande Guerra – Estados Unidos e URSS – dividiram o mundo em áreas de influência. Da parte da URSS, ficaram todos os países do leste europeu, incluindo aí a Polônia de João Paulo II. Não bastasse isso, a URSS invadiu e endureceu o controle dos países sob sua influência após a chamada Primavera de Praga, movimento reformista democratizante ocorrido na Tchecoslováquia em 1968 que buscou abrandar a repressão do modelo soviético de comunismo. Isso desagradou Moscou, que mandou tropas para derrubar o governo reformista e manter o país sob controle. Para João Paulo II, o maior inimigo era o comunismo, sob o qual viveu. Não que ele aceitasse o capitalismo, mas pareceria contraditório apregoar contra o capitalismo, pois pareceria estar defendendo o comunismo. Após a queda do muro de Berlim o papa chegou a se colocar contra o capitalismo e contra uma globalização desigual, mas aí ele já estava próximo ao fim da vida, doente e cansado. Esse embate contra a exploração capitalista dos povos jamais chegou a ser feito.

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
17. Por sua aversão a qualquer coisa que lembrasse o sofrimento que sua terra natal e ele mesmo sofreram nas mãos do comunismo, João Paulo II jamais soube compreender o papel da Teologia da Libertação e seu uso do materialismo histórico como método de análise do contexto social da América Latina****  e atuou no combate a tal teologia e ao método materialista. Infelizmente ele não demonstrou a compreensão de que, assim como ele e os seus sofreram nas mãos dos comunistas, os povos latinoamericanos também sofriam nas mãos dos capitalistas. A Teologia da Libertação procurou dar uma resposta dos cristãos frente a tanto sofrimento e exploração. Como os cristãos poderiam se eximir de indignar-se frente ao sofrimento e à opressão de tantos sob regimes militares que sufocavam seus opositores com tanta violência? A Teologia da Libertação foi a resposta encontrada por cristãos inspirados pelo CV II em seus diversos documentos. Agora retomemos o significado do que é evangelizar. Muitos documentos, inclusive a Evangelii Nuntiandi e o documento de Puebla centram o sentido de “evangelizar” na proclamação da pessoa e da mensagem de Jesus. Mas como falar em ação de Deus no mundo diante de tanta morte, sofrimento e exploração? É hipocrisia dizer a todos que Jesus os ama e ignorar que tais pessoas sofrem com a fome, a violência, o desemprego, o abandono. A resposta só é possível quando consideramos que é um imperativo evangelizador lutar pela promoção desse povo sofrido e procurar mudar as estruturas que causam a morte de tantos. O objetivo geral das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil do período 2011-2015 é: “Evangelizar, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida (cf, Jo 10, 10), rumo ao Reino definitivo”. Assim, evangelizar é trazer a boa notícia de que Deus está do lado daqueles que sofrem e promove a superação das condições que causam sofrimento a cada um dos rostos sofredores de Aparecida e outros que ali não foram citados. Evangelizar é dar a boa notícia que os sofredores necessitam. É levar à superação da dependência química aos drogados, é garantir emprego e renda aos desempregados, é promover política habitacional aos desabrigados, é promover a igualdade de gêneros para as mulheres que sofrem, etc. E isso também é influência do CV II.

**** Como bem lembrou a Ana Flora durante o Seminário, a Teologia da Libertação não fazia uso direto do materialismo histórico. Talvez apenas Hugo Assmann tenha feito esse uso. Porém, como psicólogo social discursivo, considero que a pragmática do discurso conta com tanta força quanto os fatos e, pela postura de João Paulo II e da Cúria Romana, a Teologia da Libertação estava identificada com o materialismo histórico. Também as forças conservadoras de direita faziam essa identificação, haja vista que os generais que governaram o Brasil e a imprensa da época da ditadura militar chamavam são Hélder Câmara de “O bispo vermelho”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
18. Para terminar, gostaria de lembrar que os chamados padres conciliares, aqueles que participaram do CV II, estão morrendo. São Hélder Câmara († 1999), São Luciano Mendes de Almeida († 2006)***** , São Aloísio Lorscheider († 2007), São Antônio Batista Fragoso († 2006), Dom Jorge Marcos de Oliveira († 1989), São João Batista da Mota e Albuquerque († 1984). As novas gerações de bispos e presbíteros pouco têm feito para implementar o CV II ou mesmo estão desfazendo aos poucos suas transformações. Hoje já temos a autorização do papa para que missas sejam celebradas em latim novamente em alguns lugares. Seminaristas estão retornando com o costume de vestir batina. Aos poucos as mudanças vão chegando e revertendo os passos dados. E nós, como nos colocamos diante disso?

***** São Luciano, efetivamente, nem era bispo nos anos do CV II. Porém, gostaria de incluí-lo aqui pela sua atuação fervorosa durante as conferências episcopais latinoamericanas e pelo seu empenho em viver segundo as orientações advindas do CV II. Ele é, para nós, realmente um “santo”, um exemplo de fidelidade ao Evangelho e à tradição da Igreja Comunidade.


 19. O texto-base preparatório para o nosso VI Encontro Nacional apresenta as partes 1 e 2 – momentos VER e JULGAR – relativamente extensos, enquanto que a parte 3, AGIR, é menor. Essa postura é justificada por expressar a crença de que o agir deve ser construído coletivamente, em diálogo, e com a reflexão advinda de um bom exercício do VER e do JULGAR o momento atual. Muitas pessoas esperam que alguém diga a elas o que devem fazer. Mas o maior dom deste seminário de hoje é possibilitar às pessoas interessadas que conquistem instrumentos analíticos que lhes permitam perscrutar os “Sinais dos tempos”, ou os “sinais do Espírito” a fim de responderem aos desafios atuais que se apresentam, assim como fez o papa João XXIII, ou como fez a Igreja da América Latina. Também nós somos chamados a responder aos desafios que afligem leigas e leigos nos dias de hoje a fim de manter viva e atual a mensagem do Evangelho, que deve ser uma boa mensagem aos povos de nosso tempo e lugar. E isso só se faz quando ouvimos os chamados do Espírito.

20. Para terminar, gostaria de ler o evangelho de Lucas, cap. 12, versículos de 54 a 57, na Bíblia do Peregrino:

“Disse ao povo:
- Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, dizeis logo que haverá chuva, e assim acontece. Quando sopra o vento sul, dizeis que haverá mormaço, e assim acontece. Hipócritas! Sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu, e não sabeis interpretar a conjuntura presente? Por que não julgais por vossa conta o que é justo?”

Obrigado.

Mitigar sofrimento ou moralismo

Caros irmãos CVX

É com desapontamento que venho aqui expressar minha decepção com as atitudes da hierarquia de nossa instituição religiosa. E o motivo é que o evangelho é deixado de lado para se promover controle moral sobre o comportamento das pessoas, em detrimento de seu bem estar e da prevenção ao sofrimento a que diversas pessoas se veem hoje submetidas por manterem uma relação homoafetiva estável.

Falo do recente julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre o reconhecimento de uniões civis homoafetivas, processo no qual a CNBB usou de nossos recursos para pagar um advogado a defender posição contrária a tal reconhecimento.

Sinto-me profundamente envergonhado pela CNBB ter se dado a este papel de privilegiar mais questões morais do que de agir evangelicamente, procurando dirimir o sofrimento de várias pessoas. Porque esta questão não envolve a discussão sobre “casamento gay” ou qualquer outra falácia semelhante. Trata-se de garantir acesso a direitos a uma grande parte da população, que tem sido tratada de forma distinta pela nossa sociedade e pela lei por não se enquadrarem nos padrões ditos “normais”, “morais” ou socialmente aceitos, apesar de estar presente entre nós, inclusive na instituição religiosa que a CNBB representa, pois temos muitos padres, religiosos, freiras, religiosas, leigos e leigas que se relacionam num padrão homossexual. Portanto, declarar-se publicamente contra uma legislação que venha a promover a igualdade legal e a justiça não pode ser outra coisa que não hipocrisia.

É uma vergonha para os cristãos que a CNBB tenha pago um advogado para apresentar posição contrária à união civil homoafetiva. Na rádio, os argumentos que ele usou foram cinicamente ridículos e pretensamente constitucionais, alegando que o modelo de família apresentado na constituição diverge das propostas de aceitação das uniões homoafetivas.

É preciso deixar claro que a proposta de reconhecimento das uniões civis homoafetivas não trata do mérito moral da união em si e nem é esse o seu propósito. Trata-se de reconhecer a obviedade da necessidade de garantir proteção social legal às pessoas que viveram em união homoafetiva e que, em decorrência dessa união, construíram juntas um patrimônio, tornando ambas as pessoas envolvidas nessa união em merecedoras do recebimento de compensações em casos de separação ou morte de algum dos parceiros. Atualmente, nesses casos, ou a parte economicamente mais frágil fica desamparada pela separação, ou a família do membro falecido do casal fica com seus bens, conquistados conjuntamente com o membro ainda vivo.

A proposta de reconhecimento legal das uniões civis homoafetivas é o reconhecimento da vulnerabilidade social que essas pessoas vivem na eventualidade de uma morte ou separação, garantindo a elas a proteção social a que todos os demais heteroafetivos têm acesso. Não é privilégio, não é apologia à homossexualidade, mas apenas a efetivação da justiça social que deve ser um dos grandes valores desta nação. Além disso, a justiça é marca característica da ação de Deus e um dos grandes objetivos dos cristãos em seu seguimento a Jesus.

Agora, diante da possibilidade de se fazer justiça frente a pessoas que se tornam desamparadas pela sua condição afetiva, qual deveria ser a opção dos cristãos? Qual seria a opção de Jesus? Esquecemos o que é o seguimento. Pensamos primeiro na questão moral e deixamos relevado ao esquecimento o sofrimento das pessoas. Não era essa a opção de Jesus; não deveria ser essa a opção dos cristãos. E nós, leigos, povo de Deus, que vivemos as agruras, alegrias, tristezas e esperanças do mundo cotidiano, fora das sacristias e dos palácios episcopais, temos muitos amigos e familiares homossexuais, sabemos o que está em jogo e como essa situação os afeta. Também o clero sabe do que se trata, pois há entre eles muitos homossexuais. Só que não querem demonstrar nenhuma solidariedade para com eles, ou então teriam que rediscutir o celibato obrigatório e voltaria o questionamento sobre a destinação dos bens pertencentes à igreja instituição.

Não, antes disso, eles preferem a opção não evangélica de ignorar o sofrimento alheio, apegarem-se a normas morais e preservar a instituição. Voltemos aos tempos da inquisição, em que o mais importante é calar as consciências e os espíritos verdadeiramente evangélicos em prol da manutenção da santa madre igreja. É mesmo uma vergonha para os cristãos que procuram ser seguidores fiéis de Jesus.

Nos Princípios Gerais que regem nossa CVX vemos (no nº 4) que “Nosso objetivo é tornar-nos cristãos comprometidos dando testemunho, na Igreja e na sociedade, daqueles valores humanos e evangélicos que afetam a dignidade da pessoa, o bem-estar da família e a integridade da criação. Somos particularmente conscientes da necessidade premente de trabalhar pela justiça, por meio de uma opção preferencial pelos pobres e de um estilo de vida simples que expresse nossa liberdade e nossa solidariedade com eles” (grifos meus).

Como podemos conceitualizar família? Família pode ser entendida como um grupo de pessoas, ligadas por laços parentais ou afetivos que atuam juntas para a manutenção de seus vínculos e de sua estrutura econômica. Sob este conceito cabem diversos padrões familiares encontrados atualmente. Não discrimina as famílias em termos de padrões rígidos de constituição, mas em termos de seu funcionamento. Cabem, portanto, diversos tipos de famílias. É por isso que hoje devemos falar em “famílias”, no plural, e não de forma singular.

Entendendo família dessa maneira deixamos de nos guiar por visões padronizadas já ultrapassadas pela ação social. Talvez algumas pessoas venham a contestar tal afirmação dizendo que não devemos nos conformar à maneira com que esse mundo vive as situações, mas trazer orientações para que procedam de melhores maneiras. Isto está correto! Mas a instituição igreja não tem tido sucesso em sua empreitada de iluminar com valores evangélicos a ações do mundo. Ainda hoje encontramos pessoas de dentro da igreja defendendo o capitalismo como o melhor modelo de organização social e econômica. Ainda temos pessoas que consideram haver uma natural hierarquia entre as “raças”, em privilégio de brancos caucasianos. Ainda hoje vemos pessoas que defendem uma visão meritocrática sobre a situação de pobres, alegando que se eles o são é porque Deus o quis, ou porque não se esforçaram o suficiente para superar tal condição, sem levar em conta as condições sociais a que estamos submetidos e ao controle de acesso a instrumentos de promoção de igualdade social. E também dizemos que ainda hoje há pessoas que consideram que as famílias só devam ser entendidas como aquelas em que temos um casal heterossexual que cuida de seus filhos, naturais ou adotivos. Entre os chamados evangélicos ainda há os que não realizam controle de natalidade por nenhum meio, “recebendo os filhos que porventura nosso senhor achar por bem nos enviar”.

Tais padrões de crenças são medievais, não correspondem à vivência originária dos cristãos e, portanto, receberam muito de influências humanas. E tais influências estão submetidas aos contextos históricos que a comunidade cristã vivencia. Hoje nosso contexto histórico lida com a presença de um contrato social estabelecido e mantido pela lei e pela pretensão de igualdade de todos frente a este contrato. Assim, ou nos tornamos relevantes a essa porção da sociedade, ou continuaremos – como instituição e não como comunidade cristã – sendo irrelevantes à sociedade, não tendo nada a contribuir para as gerações atuais e às futuras, a não ser como um exemplo atemporal de irrelevância e de estrutura medieval, mostrando como a religião está atualmente afastada das possibilidades de influenciar ou de orientar a vida das pessoas, por não reconhecer os dilemas dessas vidas.

Em Aparecida falamos muito em resgatar o fato de sermos discípulos e missionários. Porém, se nossa missionaridade está centrada apenas em tornar as pessoas em novos seguidores da instituição, sem considerar o que podemos fazer de efetivo para tornar a vida delas melhor, estaremos realizando apenas proselitismo vazio, que alcança pessoas sem senso crítico, seguidoras cegas de regras ultrapassadas pelas formas de viver sociais, distantes dos centros de decisão e incapazes de trazer contribuições que modifiquem de fato a forma como as coisas são. Precisamos de cristãos mais engajados, mais críticos, mais influentes, mais no centro da sociedade, e não que se colocam alheios.

Quero me desculpar com todas as pessoas de nossa CVX, mas a indignação tomou conta de mim ao constatar que nossa instituição tem se afastado cada vez mais da comunidade cristã e se tornado cada vez menos evangélica. Penso que precisamos resgatar, junto com o discipulado e com a missão, o profetismo, que denuncia as coisas que são contrárias ao plano de Deus e que anuncia sua mensagem de amor, igualdade, justiça, simplicidade, fraternidade etc. A proteção de direitos a pessoas que hoje ficam desamparadas é luta pela justiça. Declarar que as pessoas e a luta para diminuir seu sofrimento é mais importante do que se elas se comportam segundo padrões rígidos socialmente aceitos é mais importante do que a preservação da palavra institucional de uma pretensa verdade. Assim como estamos longe de compreender o que é o amor (se Deus é amor e estamos longe de compreender quem é Deus, também estamos longe de compreender o que é o amor), também estamos longe de saber o que é a Verdade e qualquer pessoa ou instituição que se diz defensora da Verdade já falhou em seu propósito, por uma impossibilidade existencial básica, pois nenhum ser existente é capaz de dar conta da Verdade transcendente.

29 de maio de 2011

Comentário de Mt 11, 25-30

Quem pode chegar ao conhecimento de Deus? Quem pode dizer que tem este privilégio? E o que garante este conhecimento?

Muitas pessoas podem hoje achar que detêm o conhecimento de Deus pelos muitos estudos que realizam. Para elas, o necessário para atingir o conhecimento de Deus é passar vários anos em bancos de escolas, angariar títulos acadêmicos no campo da teologia e conhecer teoricamente os meandros da religiosidade. Diante dessas pessoas, aqueles que não estudaram são considerados ignorantes, incapazes de conhecer a Deus. São presunçosos que pensam alcançar as alturas de Deus com seus próprios esforços.

Por outro lado, como Jesus revela Deus a nós? Foi ele um grande estudioso da doutrina judaica? Foi ele um mestre em ensinamentos da Torá? Jesus realmente tinha conhecimentos capazes de admirar os doutores da lei e fariseus, como várias passagens nos fazem perceber (cf. Lc 2, 46-47; Mt 7, 28-29), porém ele surpreendia até aos maiores estudiosos porque apresentava um ensinamento que parecia novo, que trazia um novo entendimento da lei judaica. Na verdade, Jesus conseguia demonstrar o fundamento essencial da lei judaica, que escapava aos pretensos doutores da época: o fundamento do amor de Deus.

Enquanto os que se consideravam como os intérpretes privilegiados dos mandamentos de Deus falavam em termos de proibições e impurezas que nos afastam de Deus, Jesus apresentou a lei maior do amor de Deus por nós, em primeiro lugar, e de nós para com Deus e, decorrente deste, para com nossos semelhantes. Enquanto os pretensos puros e escolhidos de Deus consideravam-se privilegiados por conseguirem se manter “limpos” por meio do cumprimento de inumeráveis e penosos mandamentos, Jesus diz que Deus não exclui ninguém, quer acolher a todos, pois ama a todos. Basta que mostremos abertura, por menor que seja, para que ele se faça presente em nossas vidas, inundando-as com amor.

Portanto, aqueles que se sobrecarregam com teorias e práticas ritualísticas minuciosas pensando se aproximar mais de Deus por serem cada vez mais obcecados em seguir normas, enganam-se e distanciam-se de Deus, carregando um pesado fardo que consideravam ser capaz de proporcionar justamente o contrário do que conseguem. Por outro lado, Jesus nos deixa claro que o fardo que devemos carregar para encontrar a Deus é leve: é o fardo de reconhecermos que Deus nos ama sempre em primeiro lugar, sem nenhuma condição, sem que precisemos realizar penosos ritos ou seguir infinitas e minuciosas regras. Deus nos ama; ponto! Este é o nosso fardo. É isso que nos torna capazes de conhecer a Deus; nada mais, nada menos. Não nos prendamos a falsas promessas, não nos acorrentemos a cobranças desnecessárias, não nos tornemos presunçosos a achar que Deus se mostrará a nós devido a estudos criteriosos. Tudo isso nos afasta dos demais, nos afasta de Deus. É quando achamos que entraremos em contato com ele por causa de nossas próprias ações que nos afastamos mais dele, porque é ele quem toma sempre a iniciativa de se nos revelar, e da maneira mais simples possível. Não percamos a oportunidade de percebermos Deus se revelando a nós das maneiras mais inesperadas e singelas, como no tom da canção de um pássaro, no perfume de uma flor, na beleza da natureza e, a mais sublime de todas, no contato com nossos irmãos, aqueles mesmos entre os quais Jesus sempre pôde ser encontrado e ainda continua sendo.

Gustavo Lopes Borba
06/07/2008

Comentário de Mt 13, 24-43

Esta passagem mostra Jesus refletindo sobre a natureza do Reino, mas sob a perspectiva de seus efeitos sobre o restante da sociedade. O Reino é mostrado como algo quase sem importância – como a semente de mostarda, chamada da menor das sementes – ou como um elemento presente em menor número – como o caso do fermento na massa, que é colocado em menor quantidade –, mas cujos efeitos são muito grandes e sentidos por todos.

Na verdade, é importante compreender a introdução feita, quando Jesus diz, em sua parábola, que o joio e o trigo crescem juntos. Podemos interpretar isso de forma pessoal, levando em conta que joio e trigo – o bem e o mal, a tendência a fazermos algo bom e para fazermos algo ruim – são aspectos internos a nós e que teremos que lidar com eles por toda a nossa existência. Não nos cabe achar que temos a capacidade de eliminar alguma dessas tendências de dentro de nós. Elas continuarão a nos influenciar, mesmo que não queiramos. O que nos cabe fazer é compreender que nem sempre fazemos “o bem que queremos” (cf. Rm 7, 19) e continuar seguindo em frente, procurando alimentar a tendência do bem, sem fomentar a tendência do mal.

Mas a dimensão que Jesus quer dar é que existirão pessoas que podemos considerar serem trigo e pessoas que podemos considerar como sendo joio, cada uma dando vazão a alguma dessas tendências internas em si, caracterizando-se como totalidades boas ou más. Na verdade, nós tendemos a classificar as pessoas por algum aspecto que presenciamos e, a partir daí, as rotulamos, não acreditando mais que possam agir de formas diferentes daquela do rótulo que demos. Trabalho com adolescentes em conflito com a lei e, muito freqüentemente, as pessoas não acreditam que eles possam se modificar, se regenerar e passar a fazer parte da sociedade de forma construtiva. É a atuação dos preconceitos, que promovem iniciativas como a redução legal da maioridade penal, passando a encarcerar em nossas cadeias – verdadeiros calabouços da Idade Média – os nossos adolescentes mal informados, desorientados e famintos. O ponto que Jesus quer chamar a atenção aqui, entretanto, não é propriamente dos preconceitos. Ele já conta com isso de forma implícita. Ele quer mesmo é destacar o fato de que vamos ter que conviver com as pessoas que rotulamos por toda a vida. Elas farão parte de nossas vidas até que venha o juízo, que só ocorre após a morte. Portanto, a questão diz respeito ao que Jesus nos pede para fazermos diante dessa perspectiva de convivência com todo o tipo de pessoas, até aquelas que consideramos ruins.

O que fazer? Como agir com essas pessoas? Será que devemos simplesmente viver nosso cristianismo dentro das igrejas e esperar que essas pessoas, por alguma crise de consciência, passem a querer fazer parte de nosso “clubinho”? Para tirarmos as dúvidas sobre qual a melhor maneira de agir frente a essas pessoas, temos que nos espelhar naquele que é nosso mestre, aquele a quem dizemos querer seguir. Ou seja, devemos nos perguntar sobre como Jesus agiria nessa situação. Nos evangelhos já encontramos o procedimento de Jesus para com essas pessoas. Diante daqueles considerados excluídos, impuros, pecadores, errados, ruins, maus de seu tempo, Jesus é o primeiro a tomar a iniciativa. Ele não espera por ninguém; vai atrás por vontade própria. Diz que o são não precisa de médico, mas sim o doente (cf. Mt 9, 12; Mc 2, 17; Lc 5, 31). Convive com essas pessoas, come com elas, de forma tão ostensiva que passa a ser chamado de glutão e beberrão pelos “arautos da perfeição” (cf. Mt 11, 19; Lc 7, 34). Enfim, Jesus não os exclui, pelo contrário, faz deles sua meta e direção, transforma-os em seu destino. Coloca-os no centro de toda a sua ação (cf. Mc 3, 3; Lc 6, 8).

Somos chamados a realizar este tipo de inversão hoje, como seguidores de Cristo. Nos sentimos capazes de fazer isso? Consideramos que colocamos aqueles considerados como excluídos, como inválidos, como incapazes, como marginais, como escória, como nada no centro de nossas ações? A mensagem desta passagem está clara: teremos que conviver com essas pessoas ainda pelo resto de nossas existências. Que lugar destinaremos para elas? Estaremos presentes no meio delas levando o exemplo da bondade e amor de Deus para elas, ou esperaremos que elas decidam por própria conta se aproximarem e começarem a fazer parte de nossas igrejas? Será a verdadeira ajuda convidá-las a fazer parte de nossa religião, ou será que não poderemos ajudar mais colaborando para que elas passem a ter uma vida melhor, com menos fome, menos desigualdades, menos desemprego, menos ausência de educação para a autonomia, menos carência na saúde, menos injustiças...

Devemos realizar o que Jesus contou em suas parábolas: sermos fermentos da massa que é a sociedade, fazermos crescer a mudança nos comportamentos ao nosso redor por meio de sementes pequeninas que são os gestos de amor e acolhida que podemos realizar para com aquelas pessoas que estão ao nosso redor. Convenceremos não pelas nossas palavras, mas pelos exemplos de fidelidade à proposta de Jesus. Não nos preocuparemos em identificar as pessoas como joio ou trigo, não realizaremos atos discriminatórios, mas acolheremos a todas, procurando mostrar que o amor de Deus para a humanidade não faz discriminações e quer o bem de todos. Faremos acontecer o Reino de Deus nesta terra por meio de nossas ações, de nossas opções, que devem proporcionar o bem a todas as pessoas, mas principalmente àquelas que são deserdadas pelas sociedades. Não hesitaremos em tratar bem àqueles ao nosso redor, como sinal do amor de Deus, mas também saberemos ser prudentes como as serpentes (cf. Mt. 10, 16) para perceber que o bem maior pode ser realizado quando as estruturas da atualidade forem alteradas.

Este é o nosso chamamento. Esta é a maneira do Reino de manifestar no mundo. Iremos responder?

Gustavo Lopes Borba
20/07/2008