A todos que se interessam pelo meu blog, gostaria de recomendar enfaticamente a leitura deste magnífico texto de Hoornaert, historiador do cristianismo, postado em seu próprio blog, cujo endereço segue abaixo. Seu texto reflete muito as proposições que faço neste espaço e está em sintonia com a proposta de um novo cristianismo que proponho.
Eduardo Hoornaert
Quarenta anos atrás,
seria impossível abordar o tema acima indicado da forma em que está sendo
formulado no título desta conferência. Até a década de 1960, ninguém duvidava
da relevância do cristianismo para o mundo. A pergunta nem podia ser formulada.
Todos os cristãos estavam convencidos que o cristianismo era relevante para o
mundo. O fato de se abordar hoje o tema, da forma em que vai expresso acima,
mostra que estamos vivendo tempos novos. Entre 1960 e os dias de hoje, algo
muito importante aconteceu, sem fazer muito alarde. Pois no momento em que
questionamos a relevância do cristianismo no mundo de hoje, mostramos que
percebemos o cristianismo de forma diferente das gerações anteriores. Ora, quem
pensa de forma diferente está vivendo um processo revolucionário. Os paradigmas
fundamentais que guiam a compreensão das coisas estão mudando. Temos de ver o
que isso significa para nós, com a possível precisão. Para tanto, proponho a
comparação com uma revolução que nos precedeu de três ou quatro séculos.
Efetivamente, a ‘revolução da modernidade’, que culminou na Revolução Francesa
do final do século XVIII, tem importantes pontos em comum com a revolução que
está em estado de incubação e (em certos casos) fermentação nos nossos dias. O
que ocorre entre nós está na continuidade com o que ocorreu nos séculos XVII e
XVIII. A eclosão de violência (guerra, perseguição, mortes), ocorrida na França
a partir de 1789 (e que chamamos ‘revolução francesa’) nada mais era que a
culminância de uma revolução que já fermentava nas cabeças e nos corações
durante mais ou menos dois séculos, em diversos países da Europa. O grito a
favor da liberdade, fraternidade e igualdade, que enchia as ruas de Paris em
1789, já existia na forma de sussurros, aspirações, sonhos, visões e reflexões
muito tempo antes, de muitas formas.
Apresento só um caso
que me parece significativo (o caso Spinoza), pois toca de perto o tema que nos
reúne aqui hoje: a relevância do cristianismo. Isso é meu primeiro ponto.
Depois, num segundo ponto, tento qualificar a revolução que estamos
vivenciando. Termino como um terceiro ponto, no qual procuro responder à
pergunta: ‘O que fazer hoje?’. 1. Spinoza e o despertar do espírito crítico
depois do sonho medieval 2. A onda que se iniciou nos anos 1970 3. Para um
cristianismo dialogal. 1. É possível indicar com precisão uma das marcas iniciais
da modernidade revolucionária. Num quarto simples da cidade de Haia, na
Holanda, em 1670, Spinoza, um judeu holandês escreve um livro já imbuído do
’spirit’ da revolução moderna. Spinoza contesta pela primeira vez a autoria dos
primeiros cinco livros da bíblia (Pentateuco) por Moisés, supostamente
inspirados por Deus. Para Spinoza, o Pentateuco é uma coletânea de narrativas
populares antigas e prescrições sacerdotais reunidas por Esdras e outros
intelectuais após o retorno das elites judaicas do exílio babilônico no século
V aC, portanto sete séculos após a morte de Moisés. As palavras de Spinoza
caíram como uma bomba, não só sobre a cultura do Ocidente (cristãos e judeus),
mas igualmente sobre o mundo islamita. Desde então, os tremores causados por Spinoza
se alargaram e não mais deixaram as autoridades religiosas cristãs, judaicas e
islamitas em paz. Pois Spinoza foi ganhando adeptos sempre mais numerosos, no
decorrer dos últimos três séculos. Os exegetas passaram a estudar as línguas
bíblicas (hebraico, o aramaico e o grego), ensaiaram uma leitura da bíblia em
consonância com os ditames da ciência moderna e enfrentaram corajosamente
obstáculos eclesiásticos. Graças à progressiva introdução da idéia de
tolerância no decorrer do século XVIII, tanto na França como na Alemanha,
ninguém mais foi queimado vivo por emitir opiniões contrárias às autoridades,
como ainda aconteceu com Giordano Bruno em 1600. As idéias humanitárias
triunfaram com a Revolução Francesa de 1789. O instituto eclesiástico sempre
reagiu de forma muito nervosa diante de qualquer tentativa de se mexer com os
antigos dogmas, mas ao mesmo tempo nunca permitiram que se discuta a maneira em
que a extraordinária riqueza de metáforas, símbolos, parábolas e visões da
bíblia ficou sendo ‘engarrafada’ em fórmulas cuidadosamente estudadas na base
de um elaborado cálculo anti-herético. Ninguém podia nem de longe mexer com o
símbolo da fé cristã, promulgado pela assembléia episcopal de Nicéia (325). Foi
aí que as impressionantes imagens religiosas do evangelho de João (a Palavra de
Deus desce do céu à terra, divulga a mensagem de um Deus Pai e volta ao céu,
depois de ter deixado na terra o Espírito Santo) foram traduzidas em dogmas.
Muitos continuaram mexendo com o que era ‘intocável’ e daí nasceu um labirinto
tão intricado de explicações, controvérsias e hipóteses, que é praticamente
impossível seguir tudo. Só quero lembrar que os papas católicos sempre quiseram
colocar um dique contra a invasão do espírito científico em área que lhes
parecia privativa, mas em vão.
O embate faz vítimas,
entre as quais se destaca o sacerdote francês Alfred Loisy (1857-1940) cujo
livro ‘O Evangelho e a Igreja’ (L’Évangile et l’Église), publicado em 1902,
defende uma tese desde muito defendida, inclusive por intelectuais do império
romano (Porfírio e Celso): os evangelhos não correspondem fielmente à história
de Jesus. Mas não só no mundo católico os estudos ‘modernos’ causaram
problemas, o mundo protestante também foi afetado. Adolfo von Harnack, grande
estudioso protestante alemão, encontrou também forte oposição por parte da
igreja luterana. Mas tudo isso não parou o movimento. No século XIX nascem a
egiptologia, a assiriologia, a epigrafia semita etc. No século XX entram a
filologia e a arqueologia bíblica, provocando sucessivos sustos nos que
acreditam nas ‘eternas verdades’ bíblicas. Ao mesmo tempo, avança-se no
mapeamento de um universo religioso imaginário comum a todos os povos que
mantiveram contato com o povo hebreu, não só a Mesopotâmia mas também o Egito.
Percebe-se sempre mais que as grandes imagens bíblicas são comuns ao imaginário
religioso do Oriente médio: o céu (Deus Criador), a terra (paraíso terrestre),
o ar (ascensão), o sopro animador (Espírito Santo). Mesmo os utensílios
agrícolas de cada dia como a enxada, o arado, a pá, o torno (Deus torneiro), a
fornalha (inferno) servem como símbolos religiosos. O inferno fica embaixo da
terra, onde vivem os demônios, monstros e outras ameaças. Entre nós e o céu
atuam os anjos, protetores da vida. Fala-se em ‘filhos de Deus’ (título dado
aos faraós do Egito) e em virgens que geram deuses. Estudiosos como Sir James
George Frazer arrolam diversas narrativas de dilúvios na Babilônia, na Grécia,
na Índia, na Austrália, em Nova Guiné e na Melanésia, na Polinésia e na Micronésia
e até na América do Sul, na América central e no México, na América do Norte,
na África, um pouco por todo o planeta, abrindo campo para um estudo dos mitos
religiosos em escala planetária . Vai se diluindo sempre mais a ideia de que ‘a
bíblia tinha razão’, assim como a referência absoluta à formulação do Concílio
de Nicéia (325). Já no século XIX, estudiosos alemães lançam dúvidas sobre o
valor histórico do evangelho de João. Em torno de 1900 já é consenso que os
evangelhos de Mateus e Lucas assimilam muita coisa do imaginário popular, em
contraste com os evangelhos Q (dos anos 50) e Tomé, que não divinizam Jesus.
Esse último, constituindo a descoberta mais famosa de Nag Hamadi (1945), faz
sua entrada no rol dos evangelhos cujo estudo se impõe a quem quiser pesquisar
as origens cristãs.
Na virada do século
vinte e um, a lingüística (Ricoeur, Bakhtin, Wittgenstein, Frege, Habermas,
Gadamer) penetra nos estudos bíblicos e demonstra a necessidade de se estudar a
mediação literária para se chegar ao Jesus da história. Assim a perspectiva de
Bultmann (1926) (que dizia que não se pode dizer praticamente nada sobre Jesus
a partir dos evangelhos) é revertida e os especialistas estão de acordo que
podemos conhecer Jesus, mas não da forma em que está sendo apresentado pela
tradição das igrejas. O problema é Nicéia, não os evangelhos. Concluindo: como
Spinoza resume, em poucas palavras, o espírito revolucionário que o anima? No
seu ‘Tratado teológico-político’ (1672), ele responde com toda clareza: ‘o mais
grave erro da teologia consiste em ocultar a diferença entre conhecer e
obedecer, fazendo-nos tomar o princípio da obediência como modelo do
conhecimento’. A superação da subordinação do conhecimento (do espírito
crítico, da ciência, do estudo, da pesquisa, do pensamento livre) à obediência
(à igreja, ao estado, aos superiores), eis o que significa, em última análise,
a revolução moderna.
2. Essa superação da
obediência pelo conhecimento é o elo que liga a revolução moderna com a
revolução atual (que ainda não tem nome). Todos sentimos, mais pelo coração que
pela cabeça, que algo de fundamental está mudando, mas é difícil expressar com
palavras o que acontece. Por isso dou aqui apenas uns itens em que a mudança se
manifesta. Haverá decerto outros pontos (e seria bom se os(as) participantes
apontassem alguns). - Até 1970, as igrejas ainda conseguem colocar um dique
contra a invasão do pensamento livre no seu recinto, mas isso não é mais
possível. O dique rompeu, as águas correm soltas. No caso da igreja católica, é
marcante a diferença entre a primeira viagem de um papa ao Brasil (em 1980) e a
viagem do papa em maio 2007. O papa João Paulo II ainda viajava sob aplausos
universais. Agora, o papa viaja no meio da fermentação de novas idéias no campo
religioso. A mídia faz tudo que pode para ‘esquentar’ o povo a participar da
viagem do papa Bento XVI, mas não está mais conseguindo animar as pessoas, como
antes. Os comerciantes de santinhos, bonés e bandeirinhas, em Aparecida, já
estão reclamando. Vamos ver como se manifestará a diferença entre as viagens de
João Paulo II e Bento XVI. Pode ser que a mídia oculte, vamos ver. De qualquer
modo, é típica a atitude nervosa em torno da ‘beatificação’ de João Paulo II
por seu sucessor. A coisa parece que não pega mais. São Frei Galvão já está
sendo ridicularizado (as pílulas de Frei Galvão). São apenas sinais esparsos,
mas eles indicam o futuro. - Quanto à sociedade em geral, o sinais de crise
aparecem por todo canto, em todo o planeta (por onde se espalha a influência da
cultura ocidental, pois se trata basicamente de uma crise da cultura
ocidental): crise mundial da educação; crise da segurança; crise do casamento
(ficar); crise do estado (as multinacionais mandam); crise da autoridade (não
há ‘figuras’); emancipação da mulher; dignificação dos homossexuais; libertação
do sexo; crise da democracia (discussões em torno de Chavez), universalização
da corrupção. Vocês devem ter outros exemplos em mente. Com definir o âmago da
presente revolução? Quais são os elementos fundamentais? O teólogo José Comblin
responde, num artigo recente da Revista Eclesiástica Brasileira, Vozes,
Petrópolis, janeiro 2007: ‘há uma terrível contradição entre a aspiração à
liberdade que nasce na revolução cultural dos anos 1970 e o sistema de economia
mundial que exerce uma ditadura nos corpos e nas mentes’. Nesta frase tudo está
dito. Há dois ingredientes que fazem a revolução atual: (1) de um lado uma
‘aspiração à liberdade’ nunca dantes verificada com tanta amplidão; (2) de
outro lado uma ‘ditadura nos corpos e nas mentes’ exercido pelo sistema de
economia mundial (companhias multinacionais, a mídia, o mercado, o
capitalismo). Essa contradição faz com que estejamos metidos num caldeirão em
plena fermentação. Ninguém sabe o que vai resultar dessa fermentação, se haverá
uma explosão violenta ou se a humanidade encontrará uma solução pacífica. O que
sabemos é que o cristão tem de agir dentro desse processo. Aí está a relevância
do cristianismo no mundo de hoje.
3. O que fazer? Penso
que Chesterton, citado no portal deste texto, disse a coisa certa: O
cristianismo tem de ser re-inventado para corresponder aos anseios da revolução
em curso. Trata-se de um desafio imenso e nem todos captam sua importância.
Muitos ainda vivem espiritualmente no passado e não chegam a perceber o
problema, nem enxergam que tudo está desmoronando em seu redor. As autoridades
eclesiásticas, de sua parte, não facilitam a percepção do problema, pois evitam
falar do assunto, perdem contacto com a realidade vivida e vão se fechando em
sua concha. O papa, por exemplo, se agarra a voláteis aclamações populares e
mediáticas, mas não explica o que está acontecendo. Enquanto isso, ninguém
presta atenção ao que está dizendo quando recita formalmente o ‘símbolo da fé’
ou participa de alguma liturgia. As palavras gastas que se ouvem nas igrejas
viram relíquias mortas, mas, mesmo assim, muitos crentes preferem morrer com
elas a colaborar na elaboração de um cristianismo renovado. Bispos como o
anglicano Spong ainda são excessões. No seu livro ‚Um Novo Cristianismo para um
Novo Mundo’ (Verus, Campinas, 2006), cuja leitura recomendo vivamente, ele
desenvolve as etapas penosas da conversão do cristianismo tradicional a um
cristianismo sintonizado com a atual revolução nas mentes e nos corações.
O que me parece
fundamental em tudo isso é que passemos a divulgar o evangelho sem os recursos
tradicionais do poder, do dinheiro ou do prestígio. Como os evangelistas
Marcos, Mateus e Lucas. Por puro dinamismo místico, pura vontade de caminhar
com Jesus. Jesus não é atingido pela crise das igrejas, pelo contrário, ele
apela para a evangelização dialogal. O cristianismo dialogal recusa os métodos
autoritativos, quaisquer que sejam. O Deus de Jesus dialoga, não usa a palavra
para emitir ordens. Os evangelhos são textos dialogais, eles provocam o público
ouvinte ou leitor a participar ativamente de um diálogo com o autor, dando sua
opinião, reagindo, refletindo ou discutindo. Textos autoritativos, pelo
contrário, pressupõem um público passivo e obediente, atento às orientações.
Durante séculos, os evangelhos foram lidos como textos autoritativos, fora das
intenções de seus autores. A atual revolução pede que, doravante, eles sejam
lidos como textos dialogais. Aí as pessoas sensíveis ao apelo da liberdade vão
ouvir o que o evangelho tem a dizer. A divisão sociológica entre um universo de
mando e obediência e um universo de discussão e participação encontra sua
representação simbólica na maneira em que se usa a palavra. A palavra de Deus
não pode ser usada por quem pensa num universo de mando e obediência. É verdade
que, durante longos séculos, as igrejas interpretaram os evangelhos de forma
autoritativa: a partir do palco, do centro da cena, do palanque, de microfone
na mão. Hoje é diferente. O evangelho pertence à platéia, onde se pratica o
diálogo. Assim como existem duas posturas básicas diante da sociedade, a
autoritária e a democrática, existem igualmente dois tipos de evangelização: a
dialogal e a autoritativa. A nossa participação na revolução que acontece no
mundo consiste exatamente no confronto entre esses dois tipos de evangelização.
Se trabalharmos pelo diálogo, vamos ser ouvidos e vamos conseguir nos
comunicar. Os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são de caráter marcadamente
dialogal, tanto na sua redação como no seu relacionamento com os(as)
leitores(as). Mas desde o começo houve líderes cristãos que rejeitaram o
diálogo e impuseram regras de conduta sem tolerar a discussão. Isso já vem dos
inícios do cristianismo.
Não duvido da
relevância do cristianismo para o mundo de hoje, mas duvido, isso sim, da
relevância dos modos historicamente usados para propagar o cristianismo
(pastoral do medo, penitência, inferno, pecado, repressão sexual, obediência).
A revolução que presenciamos mostra que a leitura autoritativa do evangelho não
funciona mais na sociedade em que vivemos. A relevância do cristianismo no
mundo de hoje depende da maneira em que os cristãos vivem e divulgam o
evangelho. Os próximos anos hão de mostrar se eles são capazes de abandonar os
sermões, conselhos, orientações, mandamentos, ameaças (do inferno) e
proibições, e partir resolutamente para o diálogo com a sociedade e a cultura.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Continue a reflexão através do diálogo eletrônico: