Boas Notícias como Reino de Deus e como testemunho de Jesus


Recebi em empréstimo, de uma nova amiga, o livro The future of liberation theology: Essays in honor of Gustavo Gutiérrez, editado por Marc H. Ellis e Otto Maduro em 1989. O livro é bastante instigante e trata dos vários aspectos da teologia de Gustavo Gutiérrez, mais conhecido como o “pai” da Teologia da Libertação, pois foi o primeiro a nomear a teologia que acontecia na América Latina por este nome. Junto a Gustavo Gutiérrez temos nomes como Leonardo Boff, Frei Betto, Hugo Assmann, Juan Luis Segundo e Jon Sobrino, dentre outros. Aqui me dedico a compilar e comentar extratos do capítulo 25, “Jesus, theology, and good news”, de Jon Sobrino.

Ao fazer a leitura do capítulo “Jesus, theology, and good news”, de Jon Sobrino, do livro The future of liberation theology, percebo que ele está direcionado a teólogos, refletindo sobre a realidade essencial do cristianismo como eu-aggelion (evangelho, boas notícias) e as consequências disso para a teologia. Ele ainda analisa a relação entre teologia e boas notícias em dois de seus aspectos: a apresentação precisa de Cristo como boas notícias e o modo evangélico de teologia. Como não sou teólogo, não posso me sentir destinatário dos pontos que Sobrino levanta aos cuidados que teólogos devem ter ao realizar seu ofício. Porém, senti-me particularmente interessado quanto à especificação das boas notícias e sua relação com o Reino de Deus, tema particularmente de meu interesse.

Considero que a proposta de vida que Jesus nos faz está sintetizada no termo “Reino de Deus” e que sua proposição aos pobres, injustiçados e oprimidos do mundo vem a ser boas notícias, evangelho. Na verdade, a proposta do Reino de Deus representa boas notícias a essas pessoas justamente pela situação em que elas se encontram e pelo que o Reino traz de nova organização social e comunitária, restabelecendo sua posição de cidadania, inclusão e sustância. De fato, para pessoas que não se encontram nas situações apontadas acima, como pobres, oprimidos e injustiçados, talvez as propostas de estilo de vida de Jesus não pareçam assim tão boas notícias pelo que implica em mudanças no cotidiano e na relação comunitária. Para quem não tem nada, ou perdeu tudo, pensar em uma mudança que leve à partilha dos bens e à solidariedade para com os demais pode representar a única alternativa à morte. Para pessoas de posses, talvez isso se torne o contrário, a própria morte em vida, pelo necessário despojamento e renúncia à forma de vida alcançada pela posse de bens.

Sobrino dá grande ênfase ao papel das boas notícias para o entendimento do que é o cristianismo. De fato, ele chega a afirmar que elas são o conteúdo central da teologia e são também o princípio hermenêutico para dizer se uma teologia é cristã ou não. Ou seja, ao dizer que boas notícias são o princípio hermenêutico, ele quer dizer que são a chave de leitura para dizer se uma teologia é cristã ou não. Teologias que ele chama de cristãs devem se referenciar às boas notícias, para serem consideradas realmente cristãs. Afirma que podemos entender o termo eu-aggelion como expressão do que é bom e positivo no cristianismo, mas com características específicas. Que o bem e o positivo despontam no tempo, acontecem como algo real nas vidas humanas e são anunciados claramente. Porém, antes que pensemos que se trata de uma posição ingênua de sua parte, ele alerta que boas notícias nada têm a ver com atitudes otimistas ou ingênuas. Muito menos com escapismo de realidades desagradáveis. Não suaviza, adoça ou edita a tragédia da história ou os esforços custosos e dolorosos para transformá-la.

Quando recebemos boas notícias, tendemos a comunicá-las às pessoas queridas mais próximas. Boas notícias não costumam ser guardadas, mas divulgadas. Ainda mais quando representam a possibilidade de melhoria das condições de vida, diante de estados de penúria e abandono massacrantes. Sobrino nos alerta, entretanto, que boas notícias não podem ser bem comunicadas, mesmo em linguagem teológica, sem convicção, sem esperança, ou sem alegria. De forma mais radical, se o cristianismo cessar totalmente de ser boas notícias, ele simplesmente cessaria de ser cristianismo. As boas notícias pertencem à identidade do cristianismo e, portanto, é o que o faz relevante. Em seu texto, ele cita Schillebeeckx sobre as igrejas que estão se esvaziando porque os cristãos perdemos a capacidade de apresentar o evangelho para nossos contemporâneos com fidelidade criativa e como boas notícias. Consequentemente, se há uma crise óbvia de relevância – “as igrejas estão se esvaziando” – isto é derivado de uma crise de identidade: por não se saber o que fazer com o eu-aggelion como tal.

Como havia dito acima, as boas notícias podem não sê-lo para todas as pessoas, principalmente num ambiente de disseminação expressiva do cristianismo, em que ele se tornou mais uma prática ritual sem vida ou sentido à maioria dos seus adeptos do que uma proposta de vida plena, extremamente significativa como forma de nova organização social comunitária. A teologia cristã, diz Sobrino, ao invés de comunicar o conteúdo central de sua verdade – o que são as boas notícias – acabou sendo pensada mais e mais em termos de firmar a verdade (o magistério, a tradição, as escrituras). Isso é melhor expresso por Sobrino quando apresenta as diferenças de visão entre Paulo e Jesus sobre as boas notícias. Na visão de Paulo, o eu-aggelion é destinado para todos, enquanto que na visão de Jesus o eu-aggelion é boas notícias diretamente para os pobres deste mundo e somente para eles. Quando a teologia se dedica aos pobres deste mundo, ela fala sobre esperança histórica. Então, de forma visível, o que a teologia comunica traz esperança, alegria e gratidão reais. Isso também requer ação. Por outro lado, quando as boas notícias são direcionadas para todos os seres humanos, essas boas notícias tendem a se concentrar na esperança universal ou na esperança transcendental de salvação escatológica – algumas vezes espuriamente traduzida em mera sobrevivência após a morte – e é difícil combinar isso com esperança e alegria históricas ,que podem ser visivelmente obtidas aqui na Terra.

Refletindo sobre a relevância do cristianismo diante da distância de sua proposta frente à situação de grande número de cristãos, para quem a proposta não representa ser boas notícias mas, ao contrário, más notícias, exatamente pelas renúncias materiais e do egoísmo, proponho uma nova forma de se pensar as boas notícias. Se o cristianismo não tem relevância para os seus adeptos no mundo de hoje, cresce a demanda pela ritualização e pela reafirmação da verdade. O cristianismo precisa voltar a ser relevante para toda e qualquer pessoa, e isso pode ser alcançado considerando que diferentes grupos de pessoas necessitam diferentes boas notícias. Por exemplo, para pessoas que têm acesso a alimento e posses, mas não desfrutam do verdadeiro sentido da vida, chegando às raias de cometerem suicídio, boas notícias são desvendarem o sentido da vida para além da posse e usufruto dos bens materiais, desfrutando da alegria proporcionada pela vida. O que quero dizer é que é possível encontrar boas notícias para toda e qualquer pessoa a partir do cristianismo, desde que nos coloquemos como servidores das mais profundas necessidades humanas não abarcadas pela posse de bens ou pela vida desregrada. Caso tenhamos sucesso nessa empreitada, o cristianismo voltará a ter relevância para o mundo, mas desde que não percamos a dimensão de serviço e de chamado à ação inerentes à proposta do Reino de Deus. Para exemplificar, dou o testemunho do desempenho do papel de pai, que deseja o melhor para o filho e não oferece a ele o que ele quer, mas sim o que ele precisa. Muitas vezes tenho que negar ao meu filho alguma coisa que pode resultar negativo para ele, e outras vezes ofereço algo diferente do que ele pediu, porque o que ele pediu não é benéfico. Da mesma forma, ao procurarmos disseminar as boas novas a esse nosso mundo atribulado e confuso, perdido em meio a tantos chamados contraditórios, temos que ter em mente as palavras de Sobrino: “As palavras usadas para afirmar formalmente que a essência da realidade cristã é o bem e o supremo bem são: amor, justiça, salvação, redenção, libertação”. Ao procurarmos promover boas notícias, elas devem ser reguladas por esses valores, não pelos desejos superficiais e egoístas que diferentes grupos de pessoas têm. É como diz Santo Agostinho: “Ama, e faze tudo o que queres”. Ou seja, se o seu critério para fazer tudo o que quiser é o amor, nada do que faça será em prejuízo a você ou à sua comunidade, e tudo o que você se sentir movido a fazer será em benefício de todos; o seu próprio querer será movido pelo amor, e não pelos “baixos apetites” (cf. Rm 6, 12).

“A despeito de que o que é bom no que concerne às boas notícias é compreensível, e portanto analisável pela razão, as boas notícias como tais não são obtidas somente pela razão, mas são-nos dadas. Um de seus elementos é o fato de serem um dom, uma graça”. Ou seja, muitas vezes recebemos graças, mas não as percebemos e não as reconhecemos como tais. Isso porque temos uma expectativa totalmente diversa do que são graças para nossa vida; esperamos uma coisa e nos sobrevém outra. Achamos, pelo uso de nossa “razão”, que sabemos o que é melhor para nós, ou do que precisamos, quando, na verdade, é algo completamente diverso do que pensamos. Boas notícias não são coisas que vêm para nos agradar, mas são coisas que transformam nosso viver para o melhor para nós e para a comunidade de que fazemos parte, o que nem sempre aceitamos. Mas, quando temos plena consciência dos efeitos que as transformações necessárias para concretizar o Reino de Deus em nossa vida causam, vemos que não há alternativas e o caminho mais lógico é render-se e aceitar o que é proposto. Citação que Sobrino faz de J. Jeremias: “As boas notícias da chegada do Reino de Deus são irresistíveis (overwhelming) e trazem grande alegria”.

O sentido que Sobrino dá a Cristo como boas notícias: “Jesus anuncia e inicia o eu-aggelion (o Reino de Deus) e ele mesmo é eu-aggelion, boas notícias, porque através de sua encarnação, morte e ressurreição Deus realiza a salvação do mundo. O Reino de Deus anunciado por Jesus é boas notícias assim como também são boas notícias que Jesus o anuncie”. Isso me faz pensar na figura de Jesus em seu ineditismo em proclamar as boas notícias no contexto sócio-histórico em que vivia. Sua época tinha a violência como algo que tece o cotidiano, com alto índice de mortalidade por todo o tipo de causas. Num contexto social como esse, nada mais natural do que considerar a violência como uma alternativa. Além disso, a religião já havia deixado de ser uma referência pela helenização, pela paganização que o judaísmo de seu tempo sofrera. Mesmo assim, diante de todo um contexto que se contrapunha a ele, Jesus surgiu defendendo uma proposta contrária a todo o seu universo, desnaturalizando e contrastando com a sociedade de sua época e de seu tempo. Isso faz de Jesus uma pessoa ímpar, destoante de todos os seus coetâneos, inclusive de outros líderes carismáticos que traziam propostas de revolução e transformação social. Vejamos mais pontos colocados por Sobrino sobre Jesus.

“Uma síntese como a de Atos 10, 38 pode dizer que Jesus ‘passou fazendo o bem’, tornando a bondade de Deus em fato histórico neste mundo. Mas no Novo Testamento também se diz em que modo ele passou fazendo o bem. De forma sistemática, a epístola aos Hebreus mostra Jesus como um homem temente a Deus e misericordioso para com os seres humanos fracos. Ao mesmo tempo, o mostra como um ser humano real, próximo aos demais e em solidariedade para com eles. O fato do mediador ser assim já são boas notícias”.

Jesus é destacado por promover a libertação. Pode-se questionar sobre o que isso quer dizer, principalmente entre o público que venha a ler este texto. Mas, para além daqueles que venham a ter condições de ler este texto (acesso à internet, interesse por esses temas, etc.), encontramos pessoas tomadas pelos vícios de drogas (tanto lícitas quanto ilícitas), pelo vício do consumo, pela total carência de condições materiais para a subsistência, pela carência de condições sociais de superação da pobreza (falta ou inadequação no fornecimento público de educação, saúde, transporte, segurança, moradia, cultura, etc.), e tantas outras mazelas que sobrevêm sobre pessoas e comunidades, retirando-lhes a condição de liberdade. Para essas pessoas é que a proposta de Jesus de instauração do Reino de Deus pode ser entendida como boas notícias. “Jesus é boas notícias por causa de sua mensagem libertadora, mas é também porque nele alcançamos a aparência do verdadeiro humano”. (...) “As narrativas evangélicas mostram Jesus entrando ativamente nas vidas dos marginalizados (leprosos, publicanos, prostitutas, os pobres). Esta intimidade já é boas notícias para os marginalizados”. (...) “A realidade na qual Jesus vive é uma realidade de opressão. Sua reação primária frente a isso é a piedade. Ele sente o sofrimento dos oprimidos realmente intolerável. Isso por si são boas notícias”.

“O conteúdo da verdade de Jesus é boas notícias: ele proclama uma verdade em favor dos pobres e contra seus opressores. Também é boas notícias por ele mostrar que acredita na verdade, responde às suas demandas e está convencido de que a verdade humaniza a todos”. (...) “A liberdade de Jesus é direcionada para o bem dos outros e é liberta pela convicção da bondade de Deus. É uma liberdade libertadora fazer essa bondade de Deus real na história para os outros. Jesus tem a convicção de que Deus é bom e é o maior bem para os seres humanos. Jesus acredita que, a despeito de tudo, a realidade é, em última instância, positiva e boa; ele conhece até bem demais que a realidade é limitação, opressão e maledicência, mas acredita que sua possibilidade última também é justiça, companheirismo, graça e bênção”.

Jesus se destaca por acreditar que, mesmo diante da pior situação de opressão a acometer a humanidade, ainda há uma alternativa a ser tentada. É o homem da esperança, da perseverança, do agrupar e do fazer acreditar, para se continuar acreditando e tentando uma nova forma de vida, uma nova organização social. Ele morreu frente a seus opositores, mas jamais deixou de acreditar em uma alternativa que sobrepujasse esse mesmo sistema que o assassinou. Se há uma pessoa a quem valha a pena seguir, essa pessoa só pode ser Jesus. Outras pessoas que adotaram posturas semelhantes, até mesmo inspiradas em Jesus, também devem nos comover na mesma medida, mas nenhuma pode se equiparar ao fato de Jesus ter sido aquele que proclamou isso em palavras, mas também em atos coerentes com suas palavras, renunciando a tudo para manter essa coerência, desde sua vivência familiar até a entrega da própria vida.

“A ressurreição funciona, e se crê nela, como o horizonte último das boas notícias. Mas em segundo lugar isso não altera o fato de que, histórica e existencialmente, Jesus de Nazaré ser tomado como boas notícias por si mesmo, independentemente de sua ressurreição. E mais, na minha opinião (Jon Sobrino) a vida de Jesus tem mais peso que sua ressurreição para o entendimento do que são boas notícias na fé. Não há oposição entre Jesus de Nazaré como eu-aggelion e o Cristo crucificado e erguido como eu-aggelion. Eles se reforçam mutuamente mas, na experiência histórico-existencial, o primeiro é uma estrada necessária para se chegar ao segundo”.

Gustavo Lopes Borba
07/10/12

O cristianismo ainda é relevante para o mundo de hoje?


A todos que se interessam pelo meu blog, gostaria de recomendar enfaticamente a leitura deste magnífico texto de Hoornaert, historiador do cristianismo, postado em seu próprio blog, cujo endereço segue abaixo. Seu texto reflete muito as proposições que faço neste espaço e está em sintonia com a proposta de um novo cristianismo que proponho. 

Eduardo Hoornaert

Quarenta anos atrás, seria impossível abordar o tema acima indicado da forma em que está sendo formulado no título desta conferência. Até a década de 1960, ninguém duvidava da relevância do cristianismo para o mundo. A pergunta nem podia ser formulada. Todos os cristãos estavam convencidos que o cristianismo era relevante para o mundo. O fato de se abordar hoje o tema, da forma em que vai expresso acima, mostra que estamos vivendo tempos novos. Entre 1960 e os dias de hoje, algo muito importante aconteceu, sem fazer muito alarde. Pois no momento em que questionamos a relevância do cristianismo no mundo de hoje, mostramos que percebemos o cristianismo de forma diferente das gerações anteriores. Ora, quem pensa de forma diferente está vivendo um processo revolucionário. Os paradigmas fundamentais que guiam a compreensão das coisas estão mudando. Temos de ver o que isso significa para nós, com a possível precisão. Para tanto, proponho a comparação com uma revolução que nos precedeu de três ou quatro séculos. Efetivamente, a ‘revolução da modernidade’, que culminou na Revolução Francesa do final do século XVIII, tem importantes pontos em comum com a revolução que está em estado de incubação e (em certos casos) fermentação nos nossos dias. O que ocorre entre nós está na continuidade com o que ocorreu nos séculos XVII e XVIII. A eclosão de violência (guerra, perseguição, mortes), ocorrida na França a partir de 1789 (e que chamamos ‘revolução francesa’) nada mais era que a culminância de uma revolução que já fermentava nas cabeças e nos corações durante mais ou menos dois séculos, em diversos países da Europa. O grito a favor da liberdade, fraternidade e igualdade, que enchia as ruas de Paris em 1789, já existia na forma de sussurros, aspirações, sonhos, visões e reflexões muito tempo antes, de muitas formas.

Apresento só um caso que me parece significativo (o caso Spinoza), pois toca de perto o tema que nos reúne aqui hoje: a relevância do cristianismo. Isso é meu primeiro ponto. Depois, num segundo ponto, tento qualificar a revolução que estamos vivenciando. Termino como um terceiro ponto, no qual procuro responder à pergunta: ‘O que fazer hoje?’. 1. Spinoza e o despertar do espírito crítico depois do sonho medieval 2. A onda que se iniciou nos anos 1970 3. Para um cristianismo dialogal. 1. É possível indicar com precisão uma das marcas iniciais da modernidade revolucionária. Num quarto simples da cidade de Haia, na Holanda, em 1670, Spinoza, um judeu holandês escreve um livro já imbuído do ’spirit’ da revolução moderna. Spinoza contesta pela primeira vez a autoria dos primeiros cinco livros da bíblia (Pentateuco) por Moisés, supostamente inspirados por Deus. Para Spinoza, o Pentateuco é uma coletânea de narrativas populares antigas e prescrições sacerdotais reunidas por Esdras e outros intelectuais após o retorno das elites judaicas do exílio babilônico no século V aC, portanto sete séculos após a morte de Moisés. As palavras de Spinoza caíram como uma bomba, não só sobre a cultura do Ocidente (cristãos e judeus), mas igualmente sobre o mundo islamita. Desde então, os tremores causados por Spinoza se alargaram e não mais deixaram as autoridades religiosas cristãs, judaicas e islamitas em paz. Pois Spinoza foi ganhando adeptos sempre mais numerosos, no decorrer dos últimos três séculos. Os exegetas passaram a estudar as línguas bíblicas (hebraico, o aramaico e o grego), ensaiaram uma leitura da bíblia em consonância com os ditames da ciência moderna e enfrentaram corajosamente obstáculos eclesiásticos. Graças à progressiva introdução da idéia de tolerância no decorrer do século XVIII, tanto na França como na Alemanha, ninguém mais foi queimado vivo por emitir opiniões contrárias às autoridades, como ainda aconteceu com Giordano Bruno em 1600. As idéias humanitárias triunfaram com a Revolução Francesa de 1789. O instituto eclesiástico sempre reagiu de forma muito nervosa diante de qualquer tentativa de se mexer com os antigos dogmas, mas ao mesmo tempo nunca permitiram que se discuta a maneira em que a extraordinária riqueza de metáforas, símbolos, parábolas e visões da bíblia ficou sendo ‘engarrafada’ em fórmulas cuidadosamente estudadas na base de um elaborado cálculo anti-herético. Ninguém podia nem de longe mexer com o símbolo da fé cristã, promulgado pela assembléia episcopal de Nicéia (325). Foi aí que as impressionantes imagens religiosas do evangelho de João (a Palavra de Deus desce do céu à terra, divulga a mensagem de um Deus Pai e volta ao céu, depois de ter deixado na terra o Espírito Santo) foram traduzidas em dogmas. Muitos continuaram mexendo com o que era ‘intocável’ e daí nasceu um labirinto tão intricado de explicações, controvérsias e hipóteses, que é praticamente impossível seguir tudo. Só quero lembrar que os papas católicos sempre quiseram colocar um dique contra a invasão do espírito científico em área que lhes parecia privativa, mas em vão.

O embate faz vítimas, entre as quais se destaca o sacerdote francês Alfred Loisy (1857-1940) cujo livro ‘O Evangelho e a Igreja’ (L’Évangile et l’Église), publicado em 1902, defende uma tese desde muito defendida, inclusive por intelectuais do império romano (Porfírio e Celso): os evangelhos não correspondem fielmente à história de Jesus. Mas não só no mundo católico os estudos ‘modernos’ causaram problemas, o mundo protestante também foi afetado. Adolfo von Harnack, grande estudioso protestante alemão, encontrou também forte oposição por parte da igreja luterana. Mas tudo isso não parou o movimento. No século XIX nascem a egiptologia, a assiriologia, a epigrafia semita etc. No século XX entram a filologia e a arqueologia bíblica, provocando sucessivos sustos nos que acreditam nas ‘eternas verdades’ bíblicas. Ao mesmo tempo, avança-se no mapeamento de um universo religioso imaginário comum a todos os povos que mantiveram contato com o povo hebreu, não só a Mesopotâmia mas também o Egito. Percebe-se sempre mais que as grandes imagens bíblicas são comuns ao imaginário religioso do Oriente médio: o céu (Deus Criador), a terra (paraíso terrestre), o ar (ascensão), o sopro animador (Espírito Santo). Mesmo os utensílios agrícolas de cada dia como a enxada, o arado, a pá, o torno (Deus torneiro), a fornalha (inferno) servem como símbolos religiosos. O inferno fica embaixo da terra, onde vivem os demônios, monstros e outras ameaças. Entre nós e o céu atuam os anjos, protetores da vida. Fala-se em ‘filhos de Deus’ (título dado aos faraós do Egito) e em virgens que geram deuses. Estudiosos como Sir James George Frazer arrolam diversas narrativas de dilúvios na Babilônia, na Grécia, na Índia, na Austrália, em Nova Guiné e na Melanésia, na Polinésia e na Micronésia e até na América do Sul, na América central e no México, na América do Norte, na África, um pouco por todo o planeta, abrindo campo para um estudo dos mitos religiosos em escala planetária . Vai se diluindo sempre mais a ideia de que ‘a bíblia tinha razão’, assim como a referência absoluta à formulação do Concílio de Nicéia (325). Já no século XIX, estudiosos alemães lançam dúvidas sobre o valor histórico do evangelho de João. Em torno de 1900 já é consenso que os evangelhos de Mateus e Lucas assimilam muita coisa do imaginário popular, em contraste com os evangelhos Q (dos anos 50) e Tomé, que não divinizam Jesus. Esse último, constituindo a descoberta mais famosa de Nag Hamadi (1945), faz sua entrada no rol dos evangelhos cujo estudo se impõe a quem quiser pesquisar as origens cristãs.

Na virada do século vinte e um, a lingüística (Ricoeur, Bakhtin, Wittgenstein, Frege, Habermas, Gadamer) penetra nos estudos bíblicos e demonstra a necessidade de se estudar a mediação literária para se chegar ao Jesus da história. Assim a perspectiva de Bultmann (1926) (que dizia que não se pode dizer praticamente nada sobre Jesus a partir dos evangelhos) é revertida e os especialistas estão de acordo que podemos conhecer Jesus, mas não da forma em que está sendo apresentado pela tradição das igrejas. O problema é Nicéia, não os evangelhos. Concluindo: como Spinoza resume, em poucas palavras, o espírito revolucionário que o anima? No seu ‘Tratado teológico-político’ (1672), ele responde com toda clareza: ‘o mais grave erro da teologia consiste em ocultar a diferença entre conhecer e obedecer, fazendo-nos tomar o princípio da obediência como modelo do conhecimento’. A superação da subordinação do conhecimento (do espírito crítico, da ciência, do estudo, da pesquisa, do pensamento livre) à obediência (à igreja, ao estado, aos superiores), eis o que significa, em última análise, a revolução moderna.

2. Essa superação da obediência pelo conhecimento é o elo que liga a revolução moderna com a revolução atual (que ainda não tem nome). Todos sentimos, mais pelo coração que pela cabeça, que algo de fundamental está mudando, mas é difícil expressar com palavras o que acontece. Por isso dou aqui apenas uns itens em que a mudança se manifesta. Haverá decerto outros pontos (e seria bom se os(as) participantes apontassem alguns). - Até 1970, as igrejas ainda conseguem colocar um dique contra a invasão do pensamento livre no seu recinto, mas isso não é mais possível. O dique rompeu, as águas correm soltas. No caso da igreja católica, é marcante a diferença entre a primeira viagem de um papa ao Brasil (em 1980) e a viagem do papa em maio 2007. O papa João Paulo II ainda viajava sob aplausos universais. Agora, o papa viaja no meio da fermentação de novas idéias no campo religioso. A mídia faz tudo que pode para ‘esquentar’ o povo a participar da viagem do papa Bento XVI, mas não está mais conseguindo animar as pessoas, como antes. Os comerciantes de santinhos, bonés e bandeirinhas, em Aparecida, já estão reclamando. Vamos ver como se manifestará a diferença entre as viagens de João Paulo II e Bento XVI. Pode ser que a mídia oculte, vamos ver. De qualquer modo, é típica a atitude nervosa em torno da ‘beatificação’ de João Paulo II por seu sucessor. A coisa parece que não pega mais. São Frei Galvão já está sendo ridicularizado (as pílulas de Frei Galvão). São apenas sinais esparsos, mas eles indicam o futuro. - Quanto à sociedade em geral, o sinais de crise aparecem por todo canto, em todo o planeta (por onde se espalha a influência da cultura ocidental, pois se trata basicamente de uma crise da cultura ocidental): crise mundial da educação; crise da segurança; crise do casamento (ficar); crise do estado (as multinacionais mandam); crise da autoridade (não há ‘figuras’); emancipação da mulher; dignificação dos homossexuais; libertação do sexo; crise da democracia (discussões em torno de Chavez), universalização da corrupção. Vocês devem ter outros exemplos em mente. Com definir o âmago da presente revolução? Quais são os elementos fundamentais? O teólogo José Comblin responde, num artigo recente da Revista Eclesiástica Brasileira, Vozes, Petrópolis, janeiro 2007: ‘há uma terrível contradição entre a aspiração à liberdade que nasce na revolução cultural dos anos 1970 e o sistema de economia mundial que exerce uma ditadura nos corpos e nas mentes’. Nesta frase tudo está dito. Há dois ingredientes que fazem a revolução atual: (1) de um lado uma ‘aspiração à liberdade’ nunca dantes verificada com tanta amplidão; (2) de outro lado uma ‘ditadura nos corpos e nas mentes’ exercido pelo sistema de economia mundial (companhias multinacionais, a mídia, o mercado, o capitalismo). Essa contradição faz com que estejamos metidos num caldeirão em plena fermentação. Ninguém sabe o que vai resultar dessa fermentação, se haverá uma explosão violenta ou se a humanidade encontrará uma solução pacífica. O que sabemos é que o cristão tem de agir dentro desse processo. Aí está a relevância do cristianismo no mundo de hoje.

3. O que fazer? Penso que Chesterton, citado no portal deste texto, disse a coisa certa: O cristianismo tem de ser re-inventado para corresponder aos anseios da revolução em curso. Trata-se de um desafio imenso e nem todos captam sua importância. Muitos ainda vivem espiritualmente no passado e não chegam a perceber o problema, nem enxergam que tudo está desmoronando em seu redor. As autoridades eclesiásticas, de sua parte, não facilitam a percepção do problema, pois evitam falar do assunto, perdem contacto com a realidade vivida e vão se fechando em sua concha. O papa, por exemplo, se agarra a voláteis aclamações populares e mediáticas, mas não explica o que está acontecendo. Enquanto isso, ninguém presta atenção ao que está dizendo quando recita formalmente o ‘símbolo da fé’ ou participa de alguma liturgia. As palavras gastas que se ouvem nas igrejas viram relíquias mortas, mas, mesmo assim, muitos crentes preferem morrer com elas a colaborar na elaboração de um cristianismo renovado. Bispos como o anglicano Spong ainda são excessões. No seu livro ‚Um Novo Cristianismo para um Novo Mundo’ (Verus, Campinas, 2006), cuja leitura recomendo vivamente, ele desenvolve as etapas penosas da conversão do cristianismo tradicional a um cristianismo sintonizado com a atual revolução nas mentes e nos corações.

O que me parece fundamental em tudo isso é que passemos a divulgar o evangelho sem os recursos tradicionais do poder, do dinheiro ou do prestígio. Como os evangelistas Marcos, Mateus e Lucas. Por puro dinamismo místico, pura vontade de caminhar com Jesus. Jesus não é atingido pela crise das igrejas, pelo contrário, ele apela para a evangelização dialogal. O cristianismo dialogal recusa os métodos autoritativos, quaisquer que sejam. O Deus de Jesus dialoga, não usa a palavra para emitir ordens. Os evangelhos são textos dialogais, eles provocam o público ouvinte ou leitor a participar ativamente de um diálogo com o autor, dando sua opinião, reagindo, refletindo ou discutindo. Textos autoritativos, pelo contrário, pressupõem um público passivo e obediente, atento às orientações. Durante séculos, os evangelhos foram lidos como textos autoritativos, fora das intenções de seus autores. A atual revolução pede que, doravante, eles sejam lidos como textos dialogais. Aí as pessoas sensíveis ao apelo da liberdade vão ouvir o que o evangelho tem a dizer. A divisão sociológica entre um universo de mando e obediência e um universo de discussão e participação encontra sua representação simbólica na maneira em que se usa a palavra. A palavra de Deus não pode ser usada por quem pensa num universo de mando e obediência. É verdade que, durante longos séculos, as igrejas interpretaram os evangelhos de forma autoritativa: a partir do palco, do centro da cena, do palanque, de microfone na mão. Hoje é diferente. O evangelho pertence à platéia, onde se pratica o diálogo. Assim como existem duas posturas básicas diante da sociedade, a autoritária e a democrática, existem igualmente dois tipos de evangelização: a dialogal e a autoritativa. A nossa participação na revolução que acontece no mundo consiste exatamente no confronto entre esses dois tipos de evangelização. Se trabalharmos pelo diálogo, vamos ser ouvidos e vamos conseguir nos comunicar. Os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são de caráter marcadamente dialogal, tanto na sua redação como no seu relacionamento com os(as) leitores(as). Mas desde o começo houve líderes cristãos que rejeitaram o diálogo e impuseram regras de conduta sem tolerar a discussão. Isso já vem dos inícios do cristianismo.

Não duvido da relevância do cristianismo para o mundo de hoje, mas duvido, isso sim, da relevância dos modos historicamente usados para propagar o cristianismo (pastoral do medo, penitência, inferno, pecado, repressão sexual, obediência). A revolução que presenciamos mostra que a leitura autoritativa do evangelho não funciona mais na sociedade em que vivemos. A relevância do cristianismo no mundo de hoje depende da maneira em que os cristãos vivem e divulgam o evangelho. Os próximos anos hão de mostrar se eles são capazes de abandonar os sermões, conselhos, orientações, mandamentos, ameaças (do inferno) e proibições, e partir resolutamente para o diálogo com a sociedade e a cultura.