Recebi
em empréstimo, de uma nova amiga, o livro The future of liberation theology: Essays in
honor of Gustavo Gutiérrez, editado por Marc H. Ellis e Otto Maduro em
1989. O livro é bastante instigante e trata dos vários aspectos da teologia de
Gustavo Gutiérrez, mais conhecido como o “pai” da Teologia da Libertação, pois
foi o primeiro a nomear a teologia que acontecia na América Latina por este
nome. Junto a Gustavo Gutiérrez temos nomes como Leonardo Boff, Frei Betto,
Hugo Assmann, Juan Luis Segundo e Jon Sobrino, dentre outros. Aqui me dedico a
compilar e comentar extratos do capítulo 25, “Jesus, theology, and good news”,
de Jon Sobrino.
Ao
fazer a leitura do capítulo “Jesus, theology, and good news”, de Jon Sobrino,
do livro The future of liberation theology, percebo que ele está
direcionado a teólogos, refletindo sobre a realidade essencial do cristianismo
como eu-aggelion (evangelho, boas notícias) e as consequências disso para a
teologia. Ele ainda analisa a relação entre teologia e boas notícias em dois de
seus aspectos: a apresentação precisa de Cristo como boas notícias e o modo
evangélico de teologia. Como não sou teólogo, não posso me sentir destinatário
dos pontos que Sobrino levanta aos cuidados que teólogos devem ter ao realizar
seu ofício. Porém, senti-me particularmente interessado quanto à especificação
das boas notícias e sua relação com o Reino de Deus, tema particularmente de
meu interesse.
Considero
que a proposta de vida que Jesus nos faz está sintetizada no termo “Reino de
Deus” e que sua proposição aos pobres, injustiçados e oprimidos do mundo vem a
ser boas notícias, evangelho. Na verdade, a proposta do Reino de Deus
representa boas notícias a essas pessoas justamente pela situação em que elas
se encontram e pelo que o Reino traz de nova organização social e comunitária,
restabelecendo sua posição de cidadania, inclusão e sustância. De fato, para
pessoas que não se encontram nas situações apontadas acima, como pobres, oprimidos
e injustiçados, talvez as propostas de estilo de vida de Jesus não pareçam
assim tão boas notícias pelo que implica em mudanças no cotidiano e na relação
comunitária. Para quem não tem nada, ou perdeu tudo, pensar em uma mudança que
leve à partilha dos bens e à solidariedade para com os demais pode representar
a única alternativa à morte. Para pessoas de posses, talvez isso se torne o
contrário, a própria morte em vida, pelo necessário despojamento e renúncia à
forma de vida alcançada pela posse de bens.
Sobrino
dá grande ênfase ao papel das boas notícias para o entendimento do que é o
cristianismo. De fato, ele chega a afirmar que elas são o conteúdo central da
teologia e são também o princípio hermenêutico para dizer se uma teologia é
cristã ou não. Ou seja, ao dizer que boas notícias são o princípio
hermenêutico, ele quer dizer que são a chave de leitura para dizer se uma
teologia é cristã ou não. Teologias que ele chama de cristãs devem se
referenciar às boas notícias, para serem consideradas realmente cristãs. Afirma
que podemos entender o termo eu-aggelion como expressão do que é bom e positivo
no cristianismo, mas com características específicas. Que o bem e o positivo
despontam no tempo, acontecem como algo real nas vidas humanas e são anunciados
claramente. Porém, antes que pensemos que se trata de uma posição ingênua de
sua parte, ele alerta que boas notícias nada têm a ver com atitudes otimistas
ou ingênuas. Muito menos com escapismo de realidades desagradáveis. Não
suaviza, adoça ou edita a tragédia da história ou os esforços custosos e
dolorosos para transformá-la.
Quando
recebemos boas notícias, tendemos a comunicá-las às pessoas queridas mais
próximas. Boas notícias não costumam ser guardadas, mas divulgadas. Ainda mais
quando representam a possibilidade de melhoria das condições de vida, diante de
estados de penúria e abandono massacrantes. Sobrino nos alerta, entretanto, que
boas notícias não podem ser bem comunicadas, mesmo em linguagem teológica, sem
convicção, sem esperança, ou sem alegria. De forma mais radical, se o
cristianismo cessar totalmente de ser boas notícias, ele simplesmente cessaria
de ser cristianismo. As boas notícias pertencem à identidade do cristianismo e,
portanto, é o que o faz relevante. Em seu texto, ele cita Schillebeeckx sobre
as igrejas que estão se esvaziando porque os cristãos perdemos a capacidade de
apresentar o evangelho para nossos contemporâneos com fidelidade criativa e
como boas notícias. Consequentemente, se há uma crise óbvia de relevância – “as
igrejas estão se esvaziando” – isto é derivado de uma crise de identidade: por
não se saber o que fazer com o eu-aggelion como tal.
Como
havia dito acima, as boas notícias podem não sê-lo para todas as pessoas,
principalmente num ambiente de disseminação expressiva do cristianismo, em que
ele se tornou mais uma prática ritual sem vida ou sentido à maioria dos seus
adeptos do que uma proposta de vida plena, extremamente significativa como
forma de nova organização social comunitária. A teologia cristã, diz Sobrino,
ao invés de comunicar o conteúdo central de sua verdade – o que são as boas
notícias – acabou sendo pensada mais e mais em termos de firmar a verdade (o
magistério, a tradição, as escrituras). Isso é melhor expresso por Sobrino
quando apresenta as diferenças de visão entre Paulo e Jesus sobre as boas
notícias. Na visão de Paulo, o eu-aggelion é destinado para todos, enquanto que
na visão de Jesus o eu-aggelion é boas notícias diretamente para os pobres
deste mundo e somente para eles. Quando a teologia se dedica aos pobres deste
mundo, ela fala sobre esperança histórica. Então, de forma visível, o que a
teologia comunica traz esperança, alegria e gratidão reais. Isso também requer
ação. Por outro lado, quando as boas notícias são direcionadas para todos os
seres humanos, essas boas notícias tendem a se concentrar na esperança
universal ou na esperança transcendental de salvação escatológica – algumas
vezes espuriamente traduzida em mera sobrevivência após a morte – e é difícil
combinar isso com esperança e alegria históricas ,que podem ser visivelmente
obtidas aqui na Terra.
Refletindo
sobre a relevância do cristianismo diante da distância de sua proposta frente à
situação de grande número de cristãos, para quem a proposta não representa ser
boas notícias mas, ao contrário, más notícias, exatamente pelas renúncias
materiais e do egoísmo, proponho uma nova forma de se pensar as boas notícias.
Se o cristianismo não tem relevância para os seus adeptos no mundo de hoje,
cresce a demanda pela ritualização e pela reafirmação da verdade. O
cristianismo precisa voltar a ser relevante para toda e qualquer pessoa, e isso
pode ser alcançado considerando que diferentes grupos de pessoas necessitam
diferentes boas notícias. Por exemplo, para pessoas que têm acesso a alimento e
posses, mas não desfrutam do verdadeiro sentido da vida, chegando às raias de
cometerem suicídio, boas notícias são desvendarem o sentido da vida para além
da posse e usufruto dos bens materiais, desfrutando da alegria proporcionada
pela vida. O que quero dizer é que é possível encontrar boas notícias para toda
e qualquer pessoa a partir do cristianismo, desde que nos coloquemos como
servidores das mais profundas necessidades humanas não abarcadas pela posse de
bens ou pela vida desregrada. Caso tenhamos sucesso nessa empreitada, o
cristianismo voltará a ter relevância para o mundo, mas desde que não percamos
a dimensão de serviço e de chamado à ação inerentes à proposta do Reino de
Deus. Para exemplificar, dou o testemunho do desempenho do papel de pai, que
deseja o melhor para o filho e não oferece a ele o que ele quer, mas sim o que
ele precisa. Muitas vezes tenho que negar ao meu filho alguma coisa que pode
resultar negativo para ele, e outras vezes ofereço algo diferente do que ele
pediu, porque o que ele pediu não é benéfico. Da mesma forma, ao procurarmos
disseminar as boas novas a esse nosso mundo atribulado e confuso, perdido em
meio a tantos chamados contraditórios, temos que ter em mente as palavras de
Sobrino: “As palavras usadas para afirmar formalmente que a essência da
realidade cristã é o bem e o supremo bem são: amor, justiça, salvação,
redenção, libertação”. Ao procurarmos promover boas notícias, elas devem ser
reguladas por esses valores, não pelos desejos superficiais e egoístas que
diferentes grupos de pessoas têm. É como diz Santo Agostinho: “Ama, e faze tudo
o que queres”. Ou seja, se o seu critério para fazer tudo o que quiser é o
amor, nada do que faça será em prejuízo a você ou à sua comunidade, e tudo o
que você se sentir movido a fazer será em benefício de todos; o seu próprio
querer será movido pelo amor, e não pelos “baixos apetites” (cf. Rm 6, 12).
“A
despeito de que o que é bom no que concerne às boas notícias é compreensível, e
portanto analisável pela razão, as boas notícias como tais não são obtidas
somente pela razão, mas são-nos dadas. Um de seus elementos é o fato de serem
um dom, uma graça”. Ou seja, muitas vezes recebemos graças, mas não as
percebemos e não as reconhecemos como tais. Isso porque temos uma expectativa
totalmente diversa do que são graças para nossa vida; esperamos uma coisa e nos
sobrevém outra. Achamos, pelo uso de nossa “razão”, que sabemos o que é melhor
para nós, ou do que precisamos, quando, na verdade, é algo completamente
diverso do que pensamos. Boas notícias não são coisas que vêm para nos agradar,
mas são coisas que transformam nosso viver para o melhor para nós e para a
comunidade de que fazemos parte, o que nem sempre aceitamos. Mas, quando temos
plena consciência dos efeitos que as transformações necessárias para
concretizar o Reino de Deus em nossa vida causam, vemos que não há alternativas
e o caminho mais lógico é render-se e aceitar o que é proposto. Citação que
Sobrino faz de J. Jeremias: “As boas notícias da chegada do Reino de Deus são
irresistíveis (overwhelming) e trazem grande alegria”.
O
sentido que Sobrino dá a Cristo como boas notícias: “Jesus anuncia e inicia o
eu-aggelion (o Reino de Deus) e ele mesmo é eu-aggelion, boas notícias, porque
através de sua encarnação, morte e ressurreição Deus realiza a salvação do
mundo. O Reino de Deus anunciado por Jesus é boas notícias assim como também
são boas notícias que Jesus o anuncie”. Isso me faz pensar na figura de Jesus
em seu ineditismo em proclamar as boas notícias no contexto sócio-histórico em
que vivia. Sua época tinha a violência como algo que tece o cotidiano, com alto
índice de mortalidade por todo o tipo de causas. Num contexto social como esse,
nada mais natural do que considerar a violência como uma alternativa. Além disso,
a religião já havia deixado de ser uma referência pela helenização, pela
paganização que o judaísmo de seu tempo sofrera. Mesmo assim, diante de todo um
contexto que se contrapunha a ele, Jesus surgiu defendendo uma proposta
contrária a todo o seu universo, desnaturalizando e contrastando com a
sociedade de sua época e de seu tempo. Isso faz de Jesus uma pessoa ímpar,
destoante de todos os seus coetâneos, inclusive de outros líderes carismáticos
que traziam propostas de revolução e transformação social. Vejamos mais pontos
colocados por Sobrino sobre Jesus.
“Uma
síntese como a de Atos 10, 38 pode dizer que Jesus ‘passou fazendo o bem’,
tornando a bondade de Deus em fato histórico neste mundo. Mas no Novo
Testamento também se diz em que modo ele passou fazendo o bem. De forma
sistemática, a epístola aos Hebreus mostra Jesus como um homem temente a Deus e
misericordioso para com os seres humanos fracos. Ao mesmo tempo, o mostra como
um ser humano real, próximo aos demais e em solidariedade para com eles. O fato
do mediador ser assim já são boas notícias”.
Jesus
é destacado por promover a libertação. Pode-se questionar sobre o que isso quer
dizer, principalmente entre o público que venha a ler este texto. Mas, para
além daqueles que venham a ter condições de ler este texto (acesso à internet,
interesse por esses temas, etc.), encontramos pessoas tomadas pelos vícios de
drogas (tanto lícitas quanto ilícitas), pelo vício do consumo, pela total
carência de condições materiais para a subsistência, pela carência de condições
sociais de superação da pobreza (falta ou inadequação no fornecimento público
de educação, saúde, transporte, segurança, moradia, cultura, etc.), e tantas
outras mazelas que sobrevêm sobre pessoas e comunidades, retirando-lhes a
condição de liberdade. Para essas pessoas é que a proposta de Jesus de
instauração do Reino de Deus pode ser entendida como boas notícias. “Jesus é
boas notícias por causa de sua mensagem libertadora, mas é também porque nele
alcançamos a aparência do verdadeiro humano”. (...) “As narrativas evangélicas
mostram Jesus entrando ativamente nas vidas dos marginalizados (leprosos,
publicanos, prostitutas, os pobres). Esta intimidade já é boas notícias para os
marginalizados”. (...) “A realidade na qual Jesus vive é uma realidade de
opressão. Sua reação primária frente a isso é a piedade. Ele sente o sofrimento
dos oprimidos realmente intolerável. Isso por si são boas notícias”.
“O
conteúdo da verdade de Jesus é boas notícias: ele proclama uma verdade em favor
dos pobres e contra seus opressores. Também é boas notícias por ele mostrar que
acredita na verdade, responde às suas demandas e está convencido de que a
verdade humaniza a todos”. (...) “A liberdade de Jesus é direcionada para o bem
dos outros e é liberta pela convicção da bondade de Deus. É uma liberdade
libertadora fazer essa bondade de Deus real na história para os outros. Jesus
tem a convicção de que Deus é bom e é o maior bem para os seres humanos. Jesus
acredita que, a despeito de tudo, a realidade é, em última instância, positiva
e boa; ele conhece até bem demais que a realidade é limitação, opressão e
maledicência, mas acredita que sua possibilidade última também é justiça,
companheirismo, graça e bênção”.
Jesus
se destaca por acreditar que, mesmo diante da pior situação de opressão a
acometer a humanidade, ainda há uma alternativa a ser tentada. É o homem da
esperança, da perseverança, do agrupar e do fazer acreditar, para se continuar
acreditando e tentando uma nova forma de vida, uma nova organização social. Ele
morreu frente a seus opositores, mas jamais deixou de acreditar em uma
alternativa que sobrepujasse esse mesmo sistema que o assassinou. Se há uma
pessoa a quem valha a pena seguir, essa pessoa só pode ser Jesus. Outras
pessoas que adotaram posturas semelhantes, até mesmo inspiradas em Jesus,
também devem nos comover na mesma medida, mas nenhuma pode se equiparar ao fato
de Jesus ter sido aquele que proclamou isso em palavras, mas também em atos
coerentes com suas palavras, renunciando a tudo para manter essa coerência,
desde sua vivência familiar até a entrega da própria vida.
“A
ressurreição funciona, e se crê nela, como o horizonte último das boas
notícias. Mas em segundo lugar isso não altera o fato de que, histórica e
existencialmente, Jesus de Nazaré ser tomado como boas notícias por si mesmo,
independentemente de sua ressurreição. E mais, na minha opinião (Jon Sobrino) a
vida de Jesus tem mais peso que sua ressurreição para o entendimento do que são
boas notícias na fé. Não há oposição entre Jesus de Nazaré como eu-aggelion e o
Cristo crucificado e erguido como eu-aggelion. Eles se reforçam mutuamente mas,
na experiência histórico-existencial, o primeiro é uma estrada necessária para
se chegar ao segundo”.
Gustavo
Lopes Borba
07/10/12