Páscoa sob chave de interpretação do Reino de Deus

Páscoa novamente
            Novamente celebramos a páscoa. Tradicionalmente, entre os cristãos é dia em que se relembra a ressurreição de Jesus Cristo, que ressurgiu do túmulo após sua morte e abriu caminho a seus seguidores para a vida nova que há de vir após o fim dos tempos, quando todos serão julgados e terão seu destino determinado entre a vida eterna junto a Deus ou a perdição eterna.

            “Páscoa” deriva da palavra hebraica “pesach”, cujo significado é “passagem” e que se refere à saída do povo hebreu da escravidão a que eram submetidos no Egito. Ou seja, diz respeito à passagem de uma vida de escravidão e opressão à vida em liberdade e autodeterminação. A páscoa cristã também se refere a um movimento de passagem, de mudança de vida, em que a tradição é crer na passagem da vida terrena, limitada e cheia de dores, para a vida celeste, infinita e indolor. É a crença na vida eterna pós morte, junto a Deus e a seus escolhidos.

            O fundamento sobre o qual se firma a tradição é a ressurreição de Jesus, após 3 dias de sua morte, de forma a se tornar o primeiro a adentrar essa nova vida por meio dessa passagem da vida terrena à vida celeste. Ele seria o primeiro e, para se chegar lá, o caminho se faz no seguimento de sua vida. Se formos dignos de viver como Jesus Cristo, seremos elevados à dignidade de morrer e ressuscitar como ele, passando desta vida para a vida celeste junto a Deus.

Relatos da páscoa
            Todo o conhecimento que temos sobre a ressurreição de Jesus nos vem dos relatos dos evangelhos. E aqui começam os problemas. Pois todos sabemos que os evangelhos não se pretendiam textos jornalísticos e nem históricos. São mensagens com destinatários certos e com objetivos delimitados à época e contexto histórico. Seus escritores usaram os recursos e métodos da época, mas também de sua origem, a fim de construir seus textos de forma a que seus destinatários pudessem assimilar as mensagens que queriam transmitir.

            Por origem, os produtores dos textos evangélicos são semitas orientais. Como orientais, sua forma de compreender e produzir textos difere bastante de nossa forma atual. Quando lemos um texto, a primeira pergunta que procuramos responder é “como foi que tudo aconteceu?”, enquanto que os orientais daquela época e lugar procuravam responder: “o que isso quer dizer para mim hoje?”. São duas formas essencialmente diferentes de procurar entender o significado de um texto. Isso repercute na forma com que eles liam os evangelhos à época e causa confusões na forma com que os lemos hoje.

            Portanto, para se compreender hoje o sentido que se pretendia transmitir por meio dos textos evangélicos, é preciso ter em mente a ressalva apontada acima e retomar os textos de uma nova perspectiva. Quando relemos em João 20, 1-9 a descrição do encontro dos discípulos com o sepulcro vazio, devemos nos perguntar “o que isso quer dizer?”, tomando em conta o contexto da vida e da missão de Jesus e o significado que o evento de sua ressurreição tem para seus seguidores naquele e nos contextos futuros da nascente comunidade cristã no entorno do Mediterrâneo. Não podemos nos esquecer que a produção dos textos dos evangelhos foi feita anos após os eventos que eles pretendem relatar (presume-se a elaboração do evangelho de João nos anos 90 do primeiro século da era cristã) e são fruto da junção de diversas tradições orais.

Paralelos da ressurreição
            Para algumas pessoas, é impensável realizar qualquer questionamento em torno à ressurreição, já que, como diz Paulo, “se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou” (1 Cor 15, 13). Porém, cabe lembrar aqui que não é a ressurreição o que distingue Jesus Cristo dos demais e o faz especial. De fato, a ressurreição não é privilégio ou exclusividade de Jesus. Em sua época, havia o culto a Mitra praticado entre os romanos, principalmente entre os soldados, que o levaram à Grã-Bretanha, à Alemanha e a postos avançados do império. No início da era cristã, seu culto já havia se espalhado para a Índia, Babilônia e até Portugal. Mitra era uma divindade indo-iraniana cuja referência mais antiga remonta ao 2º milênio a.C.. O culto surgiu na Índia, tendo se difundido pela Pérsia e mais tarde pelo médio oriente, tendo rivalizado com o cristianismo em número e taxa de crescimento de fiéis.

            Mitra é o deus da luz, combatente do mal, protetor dos justos e mediador entre a humanidade e o ser supremo. Assim como Cristo, Mitra encarnou para viver entre os homens e morreu para que todos fossem salvos. O festival romano da Saturnália, dedicado ao deus Saturno, era celebrado entre 17 e 23 de dezembro e havia o costume de se trocar presentes nos dois últimos dias. Em 25 de dezembro se celebrava o nascimento do sol invencível, ou seja, era o solstício de inverno, momento em que o sol está mais distante do equador e a partir de tal momento passa a se aproximar gradativamente, trazendo tempos mais quentes. À medida que as tradições romanas iam sendo suplantadas pelas tradições orientais importadas, os maiores festejos realizavam-se em honra do deus Mitra, cujo nascimento se comemorava a 25 de Dezembro. Coincidentemente, o mesmo dia em que celebramos o nascimento de Jesus. Há outros pontos em comum entre Jesus e Mitra: este também nasceu de uma virgem; pastores, que assistiram ao evento, foram os primeiros que o adoraram; o líder do culto mitráico era chamado de papa e ele governava de um “mithraeum” na Colina Vaticano, em Roma; uma característica iconográfica proeminente no mitraismo era uma grande chave, necessária para destrancar os portões celestiais pelos quais se acreditava passarem as almas dos defuntos; os mitraistas consumiam uma comida sagrada (myazda) que era composta de pão e vinho; assim como os cristãos, eles celebraram a morte reconciliadora de um salvador que ressuscitou em um domingo.

            Apesar de se colocar em pé de igualdade com o cristianismo nos primeiros séculos de nossa era em termos de número de fiéis e índice de crescimento, é o cristianismo, conforme interpretado por Paulo e pelos Padres da Igreja, que alcança o status de religião oficial do império romano. O mitraismo sumiu oficialmente em 377 d.C., data em que o imperador cristão Teodósio proibiu todas as religiões diferentes do cristianismo. Pequenos grupos de adeptos continuaram secretamente a prática do culto até o século V, quando os bispos desencadearam pesada perseguição contra os cultos solares. Surpreendentemente, a própria Igreja cristã incorporou boa parte das práticas mitraistas, como a liturgia do batismo, da crisma, da eucaristia, da páscoa, e a utilização de incenso, de velas, dos sinos, etc. Até as vestimentas usadas pelo clero católico eram extremamente parecidas com as dos sacerdotes de Mitra. Enfim, um sistema religioso que pretende se tornar preponderante não pode abrir mão de ritos e símbolos que funcionavam anteriormente para adeptos de outras tradições, sem correr o risco de perder em números e não conseguir se firmar. Ao ressignificar rituais e celebrações de religiões passadas ou proibidas, o cristianismo se torna mais familiar aos antigos seguidores dessas religiões e se torna alternativa viável, cuja aceitação não causa tanto estranhamento devido às similitudes com as religiões anteriores.

Escolhido de Deus
            Se a ressurreição não é um diferencial de Jesus, o que há de importante em sua páscoa para diferenciá-la? Apesar das similaridades com a tradição mitráica, a vida de Jesus atraiu seguidores judeus, cujas esperanças se apoiavam na tradição do surgimento do messias (que quer dizer “ungido” em hebraico e se diz “cristo” em grego – unção é colocar óleo na cabeça como rito que marca o recebimento de influência espiritual, usado entre os antigos reis de Israel como distinção que marcava sua escolha como reis por Deus) como forma de libertação do mando imperialista romano. A terra em que existia Israel foi tomada pelos romanos em 63 a.C., mas já fora submetida a outros domínios anteriormente. Sob os romanos, obtiveram tolerância para a prática religiosa. Mas aos judeus, repletos de restrições que garantissem pureza para o contato com Deus, mesmo com a tolerância religiosa, era inaceitável a dominação romana e a espera pelo surgimento do messias salvador do povo hebreu tomou tons de iminência. Dessa forma, não pareceu estranho ao povo ouvir do surgimento de mais um candidato a messias do povo, dentre tantos outros que assim se haviam identificado. O messias era o rei que surgiria para unir os israelenses na luta contra os impuros dominadores e que libertaria Israel para a instauração do reino definitivo da nação escolhida pelo próprio Deus.

Para a instauração do Reino
            Conhecemos Jesus como “Cristo”, ou seja, a seu nome ficou apenso o título grego de “ungido”, de rei escolhido por Deus. Que podemos dizer sobre o sentido que a páscoa tem hoje para nós? Como podemos interpretar as passagens evangélicas sobre a páscoa de Jesus? Antes de tudo, devemos nos lembrar que Jesus jamais se colocou como o fim mesmo do seguimento, mas priorizava propagar o Reino de Deus como alternativa à constituição do mundo como era naquele momento. Assim, Jesus não se definia como o fim último da crença ou, como prefiro, da fidelidade a si, mas sim a constituição do Reino de Deus, como ponto alto de sua atuação e do que solicitava daqueles que desejassem se tornar seus seguidores. Jesus queria instaurar o Reino de Deus ainda nesta vida, e não somente na vida após a morte. Mas seu Reino não se limitava ao reino das esperanças israelitas, que se restringiam ao mundo político-religioso-cultural, de libertação da dominação romana para a autodeterminação judaica.

            O Reino se faria presente não por uma intervenção divina (escatologia apocalíptica, do tipo de João Batista), mas por meio da conversão interior dos que se dedicassem ao seguimento de Jesus praticando suas proposições de vida (escatologia ascética, de Jesus). O objetivo de Jesus, portanto, era a instauração do Reino de Deus por meio da conversão de “corações e mentes” à proposta que apresentava para que as pessoas mudassem sua forma de ser e incorporassem a solidariedade, a fraternidade, a partilha e a presença “curadora” em suas relações interpessoais. Essa é a chave de interpretação dos relatos dos evangelhos, incluindo aí a descrição da páscoa de Jesus.

Por meio de seus seguidores
            Se páscoa é passagem, para onde, então? Precisamos realizar a passagem interna, mudar nosso interior para nos tornarmos pessoas melhores e mais humanas, pois o humano se tornou escasso na atualidade. Mas não só isso, pois isso não é suficiente para a construção do Reino de Deus. Uma vez ouvi de uma irmã em Cristo que ser cristão é tratar bem as pessoas, ser educada e cordeira, sorrir onde não há sorrisos, e que a discussão política não é necessária. Ouvi de outro irmão em Cristo que o capitalismo é o melhor sistema de produção que a humanidade já produziu. Diante dessas declarações, sinto que ainda há necessidade de se fazer a páscoa entre os cristãos, que ainda há necessidade de esclarecimentos e de se fortalecer a mensagem original de Jesus, que não queria somente uma transformação interna, como os budistas propõem, mas que faz um chamamento para que todas as pessoas transformem suas mudanças interiores em ações exteriores, que lutem para construir o Reino, que lutem para transformar esse nosso mundo de acordo com os desígnios de Deus. É muito pouco achar que ser cristão, diante das tristezas e desumanidades presentes no mundo – como as 50 mil crianças que morrem de fome e doenças diariamente, como os assassinatos, raptos e violações de mulheres, como a exploração do trabalho infantil e do trabalho escravo – que basta sorrir diante de tudo isso para garantir que se está sendo fiel ao chamamento de Jesus.

            Assim como se pode crer que o sistema elaborado para a acumulação do lucro, não importa sobre quem ou com quantas desigualdades tecidas, quantas vidas empobrecidas e destruídas, que esse sistema seja considerado como sendo o melhor sistema de produção já concebido, assim também somos chamados a dar uma enfática resposta enquanto seguidores de Jesus. Não! Não é essa a resposta do cristão, não é esse o seguimento que Jesus pede. Ele pede a passagem de tudo isso para o Reino, para um mundo de fraternidade, de igualdade, de partilha dos bens da vida, de apoio mútuo, de valorização das pessoas pelo que elas são, e não pelo que consomem ou produzem. Um outro mundo é não só possível, como também necessário. Estamos diante de uma calamidade mundial, maior que a ameaça da guerra fria, que é o aquecimento global, capaz de ampliar todas as mazelas sociais que atualmente afligem a humanidade. Qual será a resposta dos cristãos: irão se empenhar na construção do Reino acolhendo os que sofrem, propondo alternativas às medidas tímidas dos governos, ou irão lamentar e se trancar nos templos clamando aos céus pela salvação?

Encontrando o ressuscitado
            Jesus ressuscitou e vive em cada comunidade de seus seguidores que procura colocar em prática suas propostas para a instauração de uma vida nova entre as pessoas, de acordo com o que ficou conhecido como Reino de Deus. Ali, onde as pessoas procuram viver laços fraternos, na solidariedade e na partilha dos bens necessários à vida, ali mesmo Jesus ressuscitado vive entre nós. Ali a páscoa aconteceu e testemunha a necessidade de que aconteça em todas as outras relações humanas que ainda não alcançaram este nível de transformação e de humanização, que somente Deus mesmo poderia propor.

            Provamos ao mundo que Jesus venceu a morte quando o honramos fazendo de nossa vida o testemunho do Reino de Deus.

Gustavo Lopes Borba

04/04/15