Em outro lugar (“Jesus como mestre de humanidade” –
blog Cristianismo das Catacumbas), escrevi que a força da pregação de Jesus tem
fundamento pela força dos valores que ele promoveu. Gostaria de esclarecer
melhor alguns aspectos dessa declaração no que concerne à natureza e ao papel
desses valores na vida cristã. Ou por outra, o que realmente eu queria dizer ao
destacar a força dos valores promovidos por Jesus? O que são valores humanos,
afinal?
Valores humanos dizem respeito ao campo da
discussão ética da vida em comunidade. Valores orientam a vida de indivíduos e
comunidades na sua interação e na sua organização. Valores são indicativos das
prioridades eleitas por grupos e pessoas. Aquilo que explicitamos como nossos valores
indicam um pouco de nossas motivações e objetivos. Jesus não usou de meios
termos na divulgação dos valores que o orientavam. Eles estão presentes na
descrição que os evangelhos fazem de seus ensinamentos.
Aliás, devemos entender que valores não são belas palavras
no papel, mas objetivos maiores que devem orientar nossos objetivos práticos,
nossas ações cotidianas. Quando nos referimos a valores, não estamos apontando
as palavras com que os nomeamos, os substantivos. Podemos expressar
determinadas palavras como sendo nossos valores, mas não colocá-las em prática.
Podemos até não expressar quais são nossos valores, pois eles se expressam nas
ações que praticamos. Os valores nos orientam e guiam, conformando tudo o mais
em nossa vida e em nossa expressão de acordo com eles. Nosso ser não manifesta
valores em momentos extraordinários. Ao contrário, nossos valores devem
conformar nossa vida ordinária. É o que fazemos no cotidiano que expressa o que
valorizamos, nossos objetivos, nossa visão ética do mundo.
Fiz questão de trazer este esclarecimento para
deixar claro o papel das palavras no cristianismo das catacumbas. É bom que se
entenda que o que marca e destaca a figura de Jesus não são somente seus
ensinamentos, suas palavras, sua mensagem, enfim. Nem se trata de dar
importância às suas ações, ao que ele fez. É preciso ter claro que, ao tomar
qualquer um desses polos em separado, mensagem ou ações, não se conseguirá
compreender a grandeza da pessoa de Jesus e a força de sua proposta do Reino de
Deus. Só alcança esse entendimento e só se comove por esse encontro com a
pessoa de Jesus quem consegue superar o raciocínio linear e concebe a sua
proposta do Reino como ensinamentos e
atos, palavras e vida, mensagem e ação. Só assim, integrando o dito com
a prática, é que a proposta de Jesus faz sentido e que o seguimento ganha corpo
e atualidade.
Desconfiem daqueles que têm palavras bonitas na ponta da
língua e vivem somente em púlpitos de “pregação”; daqueles que conhecem de cor
citações bíblicas e que vivem trancados em salões a auditórios para os sedentos
por belas mensagens. Desconfie também daqueles caridosos abnegados que não
param em casa por terem as chaves da “igreja”, daqueles de quem se depende para
fazer funcionar qualquer coisa no prédio paroquial. Vivem os extremos
empobrecidos da pouca compreensão da proposta de Jesus. São como pássaros
mutilados, em que lhes falta uma das asas. Pois que o Reino não é puro ativismo
e nem compêndio de palavras, senão a dialética viva entre a mensagem, a
proposta, o plano, os ensinamentos de Jesus na sua compreensão do ser humano e
do seu destino comunitário e as ações, os atos, as realizações, os arranjos
comunitários que colocam tal projeto do Reino de Deus em prática. Me atrevo a
dizer que, se ainda não compreendemos isso, não fomos capazes de compreender
Jesus e sua proposta do Reino, a despeito de qualquer estudo ou título
acadêmico que tenhamos. Se as palavras e as ações não se tornam unas em nossa
vida comunitária, não somos cristãos e não podemos nos considerar Igreja no sentido
próprio dos primeiros cristãos. Se consideramos que basta ir à celebração da
missa dominical e que nos ignoremos cordialmente durante o ritual, fingimos ser
seguidores do revolucionário que, francamente, admiramos e respeitamos pelo que
disse e consideramos isso até belo, mas que achamos inviável na prática e,
“pensando bem, até que não é tanto para ser realizado, mas pode servir para nos
fazer sentir bem”.
Esse é um dos motivos para que eu mire os rituais com meus
canhões de ferinidade, pois eles nos enganam ao nos iludir com a noção de que
basta segui-los para fazermos o que Jesus gostaria de nós, quando na verdade
eles não são nem o começo. É preciso transcendê-los e ir muito além, crescer no
entendimento de quem é Jesus, do que ele propõe e o que cabe a nós, como
coletivo, realizar para tornar viável sua visão, seu projeto neste mundo, nesta vida, no nosso
tempo, na nossa carne. Os ritos não
existem para si e não são absolutos. Sua função é pedagógica, para nos fazer
crescer na compreensão de Jesus e de seu Reino e, assim, descartarmos a
necessidade dos próprios ritos. Existem pessoas que ainda precisam dos ritos,
pois ainda estão aprendendo sobre Jesus e o Reino. Mas há aqueles que já
suplantaram essa etapa e não encontram maneiras de continuar sua caminhada. É
por isso que muitos cristãos amadurecem e deixam o seio da igreja instituição,
pois esta não está preparada para lhes oferecer um lugar de continuidade na
caminhada. Essa é a tarefa mais importante para a igreja instituição nos dias
de hoje: tornar-se relevante para um grande número de seguidores de Jesus que
já transcenderam os ritos, amadureceram e querem dar testemunho no mundo e
colaborar para a continuidade do Reino de Deus na atualidade.
Enquanto os defensores da igreja instituição, majoritariamente
clero e parte do laicato, não perderem o medo da maturidade, a igreja
instituição continuará distante do Reino e os ritos continuarão a ser
apresentados como única via de seguimento. A igreja comunidade continuará a
crescer fora da igreja instituição e a imagem principal dos cristãos frente ao
mundo continuará cindida entre os que pregam a mensagem e os que agem sem um
projeto claro.
Enquanto isso, “toda a criação, até o presente, está
gemendo como que em dores de parto” (Rm 8, 22).
Gustavo Lopes Borba
17/07/12