Recentemente me reencontrei com
um amigo que não via há 23 anos. Conversamos bastante sobre todo tipo de
assunto. Porém, ele mostrou bastante interesse em conhecer mais os fundamentos
que embasavam minha visão de cristianismo. Isso me surpreendeu muito, pois é o
tipo de pessoa de quem eu jamais esperaria tal tipo de interesse. Isso mostra
como não devemos subestimar as pessoas e categorizá-las baseado somente no
comportamento que elas manifestam. Há inquietações inauditas em cada um de nós,
independente daquilo que pensamos sobre as pessoas ou da imagem que prezamos em
construir de nós mesmos. Também me mostrou que há espaço para o cristianismo
crescer, mesmo entre aqueles que se colocam em movimento contrário ao
cristianismo católico ou a qualquer outro tipo de cristianismo
institucionalizado.
Ao refletir sobre o que meu amigo
procurava ao se interessar pelas referências que eu tinha de cristianismo, pude
chegar à conclusão que ele buscava algo fundamental, algo inerente ao viver
humano, cada vez mais difícil de ser encontrado na atualidade. O que ele
buscava, afinal? Para responder a essa questão, devemos ver o que Jesus nos
oferece, mas com o cuidado de nos debruçarmos à figura de Jesus como pode ser
entendida na sua origem, e não no que foi feito dele posteriormente pelas
diferentes religiões cristãs.
Ao considerarmos a figura de
Jesus, partindo dos pressupostos anteriormente expressos, vemos que devemos nos
achegar a ele como um homem da Palestina do primeiro século, terra dominada
pelo império romano e envolta em exploração e pobreza. Também temos que
considerar o judaísmo como raiz de uma visão de mundo fundada no domínio de um
Deus que exige a justiça nas relações sociais da comunidade e que não aceita
exploração ou comercialização dos bens considerados comuns, como a terra, por
exemplo. O que faz com que Jesus se destacasse em seu tempo para que se
tornasse proeminente ao longo dos séculos foi a força de sua mensagem, centrada
no resgate do mandamento divino de respeito à justiça nas relações cotidianas.
Tal mensagem bateu de frente com a estrutura social existente na sua época,
contestando o papel do império romano e sua dominação na Palestina e também o
papel dos judeus de destaque que agiam como apoiadores do regime de dominação. Mas
não só isso, e sim o âmago de sua mensagem, baseada na solidariedade,
fraternidade, companheirismo, gratuidade, amor, justiça.
A força da pregação de Jesus está
depositada na força dos valores que promoveu. Caso não houvesse força nos valores
que ele propõe, não haveria motivos para os poderosos desejarem e executarem
sua morte. Mas é a força inerente a tais valores que incomoda os poderosos e os
faz moverem-se a fim de evitar as mudanças na situação que tais valores podem
trazer. Assim, Jesus representa efetivamente uma ameaça ao status quo, que então se move para eliminar essa ameaça. Porém, a
ameaça não é exterminada pela morte de Jesus, uma vez que ele deu forma
linguística a tais valores, que se tornam então passíveis de comunicação,
possibilitando que a comunidade que se reuniu em torno a Jesus possa continuar
seu trabalho de divulgação desses valores. O que mais impressiona é que tais
valores tenham tomado corpo na Palestina daquela época, quando tínhamos a rica
contribuição filosófica da Grécia Antiga, assim como a cultura oriental indiana
e chinesa. O fato é que nenhuma contribuição trazia o que o judaísmo concebia
como mandato divino, que se centrava na ideia de justiça divina.
O que meu amigo buscava, se
discorda veementemente das propostas do catolicismo ou de qualquer outra
denominação cristã? Como podemos conceber que ele buscava algo maior se não
pretende se ligar a nenhuma proposta religiosa? Ele buscava referências que
dessem sentido à existência e tais referências são os valores humanos. As
diversas religiões existentes, não somente as cristãs, existem como construções
culturais que se pretendem meios, instrumentos, para a promoção desses valores
humanos. Mas as inquietações de meu antigo amigo mostram que tais valores são
inspiração profunda de todos os seres humanos, que buscam alcançá-la por meio
de elementos culturais específicos. E também mostram que as religiões não mais
têm servido como instrumento para responder a tal inspiração humana. Deixaram
de ser um meio, para se constituírem em fim em si mesmas. O que meu amigo busca
não são sacramentos ou rituais, dogmas ou tradições, mas sim a vivência
cotidiana de valores imorredouros e universais. Hoje, tristemente temos que
constatar que as religiões, entre elas o próprio catolicismo, não atuam mais
como facilitadores culturais para que nossas inspirações mais profundas de
crescimento espiritual e humanista possam obter respostas. Na verdade, levando
em conta o catolicismo como exemplo paradigmático, as religiões atuam na defesa
de si mesmas, negando as contradições internas e mostrando-se incapazes em
responder aos desafios contemporâneos. Mulheres e homens dos tempos atuais, com
acesso fácil a todas as informações, não encontram mais respostas nessas
instituições. Isso não significa que não tenham questionamentos espirituais ou
transcendentes. Tais elementos, como já dito, são inspirações humanas
profundamente arraigadas. Se as religiões como estão hoje não respondem a tais
inspirações, o que poderá responder?
A experiência do encontro com a
pessoa de Jesus e o ouvir atentamente sua mensagem podem tocar as cordas
profundas em nosso ser e fazer ressoar mais uma vez as inspirações que trazemos
em nós de valores humanos que tragam sentido à existência. Pode parecer
contraditório, mas o catolicismo produziu um recente documento que enfatiza
essa velha verdade. O documento de Aparecida, fruto da Conferência Episcopal
Latinoamericana, resgata o papel do encontro profundo com a pessoa de Jesus
Cristo como fonte de onde brota toda a experiência de transcendência. Mas
paramos por aqui, pois o Jesus proposto pelo catolicismo não é o mesmo Jesus
descrito no início deste texto. É com este último Jesus que acreditamos ser
necessário o encontro, com o Jesus que era mais humano e ligado às vicissitudes
de sua humanidade do que ao Jesus do Santíssimo. Este Jesus que queremos
resgatar é um pobre camponês artesão analfabeto da Galiléia nos tempos da
dominação romana e que baseou-se no Deus conhecido pelos israelenses para
iniciar um movimento de instauração do Reino de Deus com base em valores de
justiça universal e solidariedade gratuita a toda e qualquer pessoa que se
associasse aos mesmos valores, e até mesmo aos considerados inimigos, com base
na oferta de curas gratuitas e partilha de alimentos em fraternidade.
Tais fundamentos para o Reino de
Deus divergem bastante do que o catolicismo apresenta da pessoa de Jesus como
Deus. A figura de Jesus tomou tamanho destaque e sua devoção é tão mais
importante, que sua mensagem de promoção do Reino de Deus e de valores
comunitários ficaram em segundo lugar, quase irrelevantes. Segundo suas
afirmações, importa mais que nos transformemos internamente e adotemos atitudes
morais, que o restante da sociedade se transformará pela disseminação da
moralidade. Deus acolhe nossas súplicas particulares e os malefícios que
eventualmente nos atingirem servem aos propósitos divinos de que aprendamos
algo ou para nos “amansar”. Em respeito a tradições milenares, não se ordenam
mulheres, assim como os leigos não temos espaço para expor nossos conhecimentos
em teologia e na interpretação bíblica. Não há democracia e não há diálogo
entre presbíteros e leigos. Os ritos não podem sofrer nenhuma alteração em sua
proposição, mesmo em respeito a particularidades culturais de cada sociedade, a
despeito do documento da Conferência Latinoamericana de Santo Domingo, que
propôs a inculturação. Creio que cada um de nós pode lembrar de algo
assemelhado que demonstre como Jesus foi ressignificado ao longo do tempo para
atender a interesses de manutenção e preservação de uma dada visão de religião.
Urge que a pessoa autêntica de
Jesus seja resgatada e promovida, principalmente para se compreender os
fundamentos de sua mensagem e que se ressitue em lugar de destaque a proposta
de instauração do Reino de Deus na vivência cotidiana entre as pessoas. O Reino
de Deus não depende de nenhuma religião, mas precisa de pessoas que vivam os
valores que promove. Em minha experiência com o amigo de longa data, as pessoas
de hoje estão ansiosas por esses valores e a humanidade não aguenta mais como
temos vivido atualmente, em meio a tanta violência, exploração, ganância,
egoísmo, indiferença etc. A humanidade está pronta para propostas profundas de
transformação. Não há outro mestre em humanidade do que o pobre camponês oprimido
Jesus.
Gustavo Lopes Borba
13/06/12