“Lâmpada para meus
passos é tua palavra e luz no meu caminho” Sl 119, 105
Bíblia tradução CNBB
A bíblia tem sido usada como
referência para guiar milhões de pessoas em todo o mundo. Lá encontramos um
conjunto de orientações sapienciais para todos os aspectos da vida humana. É
claro que tais orientações têm data e contexto moral. Isso não impede que
muitas pessoas busquem se orientar por seus preceitos nos dias de hoje.
Aliás, um dos grandes
impedimentos para que saibamos nos beneficiar da bíblia da melhor maneira diz
respeito a essa crença de que seus ensinamentos devem ser entendidos hoje como
então, pela letra e não pelo sentido. Isso nos remete à questão da
interpretação da bíblia, ou como dizem os estudiosos, à hermenêutica.
Segundo consta na Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermenêutica),
“Hermenêutica é um ramo da filosofia
e estuda a teoria da interpretação, que pode referir-se tanto à arte da
interpretação, ou a teoria e treino de interpretação. A hermenêutica tradicional
- que inclui hermenêutica Bíblica - se refere ao estudo da interpretação de
textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito”.
Assim, é essencial que
consideremos a interpretação que se faz dos textos da bíblia para considerar
como ela pode nos orientar na vida. Por ser considerada um livro sagrado,
inspirada pelo próprio Deus aos homens que a escreveram, a bíblia ganha uma
natureza de imutabilidade e de irrefutabilidade que impede uma compreensão mais
sensata de seu papel para os cristãos em geral e para as demais pessoas.
Muitas consideram que os textos
da bíblia permitem o acesso mais direto à verdade última, ou à revelação da
verdade sobre a vida e a existência dos seres humanos, de tudo o que foi criado
e do universo. Essa visão coloca a bíblia como parâmetro universal e relativiza
qualquer outra fonte de conhecimentos, inclusive a ciência. Isso, logo se vê,
não permite o crescimento e o amadurecimento, pois não permite abertura para
tal, já que se considera que o nível máximo de crescimento e amadurecimento já
foram atingidos com a bíblia. A ciência traz novas descobertas diariamente,
pois o que consideramos realidade é tão complexo e tão incomensuravelmente
impossível de ser absorvido pela nossa limitada capacidade cognitiva, que
jamais alcançaremos esse nível de compreensão a que chamam de verdade última.
Mas existem aqueles que acreditam nisso e estão até dispostos a apostarem suas
vidas na defesa disso. Ocorre não só no cristianismo, mas também nas demais
religiões. Hoje em dia vemos muito em voga na mídia a exposição dessa defesa
suicida associada ao islamismo, mas encontra-se em todas as denominações
religiosas. Aliás, o que faz com que se destaque uma ou outra nos diferentes
períodos históricos são os interesses políticos de cada momento.
Se a bíblia é a verdade última
revelada por Deus e se todas as outras fontes de conhecimento são relativas e
não têm a capacidade de trazer nada de novo frente a essa verdade, teremos
muitas pessoas que acreditam nisso dispostas a darem suas vidas na defesa de
tal crença, inclusive ameaçando a vida daqueles “infiéis” que não acreditam ou
não admitem que assim seja. Paradoxalmente, aqueles que se fiam nisso deixam de
expressar paralelismo com as palavras do livro que dizem defender, pois passam
a odiar os inimigos e a tramar o mal para eles, simplesmente para defenderem seu
ponto de vista sobre os textos ali reunidos. Ou seja, a ideia que se tem do
texto é mais importante do que o que o próprio texto diz.
Por outro lado, também temos
aqueles casos em que há choques de interpretação, nos quais grupos que realizam
diferentes interpretações entram em choque pela defesa de seus pontos de vista.
Aqui já se aceita que os textos devem ser interpretados. Não há, porém,
concordância sobre o resultado dessa interpretação. Vemos que os textos são
objeto de interpretação e que deles se retira como resultado algo que pode ser
considerado como uma aproximação da mensagem que se produziu originalmente no
momento de sua elaboração para o contexto atual em que o intérprete vive, de
forma a tornar a mensagem relevante à contemporaneidade em que ele vive.
O exercício de abertura à
novidade que os textos bíblicos podem representar aos períodos posteriores de
tempo é dificultado devido à constituição do que se convencionou chamar de
“tradição”. A tradição é a consideração do que se firmou entre os intérpretes
de um período histórico como sendo “verdadeiro” e que foi passado adiante para
as gerações posteriores, constituindo a base para novas interpretações. Ou
seja, não se parte para novas interpretações a partir de conquistas quanto à
capacidade de tradução dos textos em suas línguas originárias ou dos novos
conhecimentos arqueológicos dos lugares de origem dos textos, mas se considera
o que foi descoberto sobre os próprios textos e suas interpretações anteriores
para se considerar como válidas interpretações contemporâneas. As
interpretações que não estejam de acordo com a tradição, mesmo que embasadas em
novos conhecimentos na tradução ou na arqueologia, são desconsideradas ou
desabonadas, simplesmente por esse fato. A mim, não parece algo sério que se
aposte nessa abordagem, pois impossibilita justamente o que os defensores
inveterados da bíblia como palavra revelada parecem defender: que se alcance a
“verdade última”. Aliás, é difícil alcançar qualquer verdade se não se está
disposto a descobrir o que é falseável a partir de novos conhecimentos e
descobertas sobre algo produzido a tanto tempo atrás.
Enfim, há aqueles que usam a
referência do texto bíblico para tentar compreender a vontade de Deus para si
em seu momento histórico e para sua vida factual. Tal exercício pode ser feito
sob diferentes métodos e ter diferentes nomes. Consideremos o uso do termo
“discernimento” para conceber tal ato. Uso aqui o termo de forma extensa, não
querendo especificar nenhum método em particular e nenhuma referência a algum
ramo de espiritualidade definido. Quero apenas ter à mão um termo que me ajude
a prosseguir com a reflexão que ora desenvolvo.
Muitas pessoas procuram na bíblia
referência para sua vida e para seu bem estar. Para isso usam de diversas
estratégias – atentem que não chamei de método, pois não estou realizando um
estudo exaustivo sobre isso – no manuseio do livro sagrado que consideram
eficazes para o discernimento da vontade de Deus. Muitos simplesmente pegam a
bíblia de forma inadvertida e a abrem na primeira página que sair, acreditando
que o acaso na abertura e na leitura representariam maiores chances de
encontrarem ali o que Deus deseja que leiam para aquele dia, ou momento. Tal
prática é perigosa e enganosa, já que o livro da bíblia foi escrito com
determinados objetivos e cada texto deve ser compreendido como um produto
humano localizado histórica e socialmente, devendo ser assim entendido, pois
seus textos são datados e necessitam de esclarecimentos quanto ao contexto e
quanto ao texto. Sem esses cuidados, corremos grandes riscos de nos tornarmos
fundamentalistas sanguinários, tal como descrito logo no início.
Uma breve palavrinha sobre os
termos “fundamentalista” e “radical”. Defendo a ideia que temos que nos tornar
cristãos radicais, mas afastarmo-nos do cristianismo fundamentalista. Com o
termo “radical” quero me referir ao necessário retorno às raízes de nosso seguimento de Jesus Cristo, de buscar as raízes do
cristianismo, ou seja, que nos movamos na direção do ponto fundante do
cristianismo, buscando compreender como essa origem se deu, o que representou
para a sua época, que propostas apresentou ao seu tempo e como tais propostas
podem ter o mesmo papel hoje como tiveram no seu tempo. Ser radical no
seguimento de Jesus é procurar ser cada vez mais como ele, só que nos dias de
hoje e através de nossa vida. Por outro lado, o fundamentalismo implica em uma
fixação em padrões constituídos na origem do movimento cristão e que busca
realizar movimento diverso da radicalidade. Não querem considerar como
atualizar a mensagem original para promover o mesmo efeito comparado à época de
sua origem. Querem é transformar o momento atual para voltar a ser como era no
momento da origem do movimento cristão. Não querem falar às pessoas do tempo
atual. Querem fazer o tempo atual voltar ao passado e se tornar o que era na
sua origem. Querem tornar a sociedade semelhante ao que era em seus fundamentos. Não dialoga com a
diversidade, mas exige sua volta ao passado, segundo os ditames de sua origem.
Retornando à discussão das
estratégias para discernir a vontade de Deus a partir da bíblia, considero que
outro erro ligado à nossa herança supersticiosa é de acharmos que o acaso é
mais representativo da vontade de Deus para cada um de nós do que a capacidade
de realizar planejamento, promover preparação para o entendimento dos textos e
previsões de ações. Abrir a bíblia em qualquer página não garante acesso à
vontade de Deus. Não representa entrega aos desígnios do Pai em confiança
plena. Parece até ser uma forma de colocar à prova a intervenção divina para
assegurar que ela age em prol daqueles que expressam sua entrega aos seus
desígnios: “Vamos ver se Deus está mesmo comigo, agora que me dedico a ele. Se
ele estiver do meu lado mesmo, vai ter que haver uma ligação entre o que estou
vivendo e o texto que sair aqui por acaso”. Isso não é forma de interpretar a
bíblia para que nos oriente em nossa vida. É fazer roleta russa com a
diversidade de textos que compõem a bíblia, além de nos afastar do Deus
verdadeiro e nos colocar próximos a panteístas, animistas e demais teístas não
amadurecidos, cuja base para a crença está relacionada a elementos com
concretude e palpabilidade. Não creem realmente em Deus; necessitam de
elementos aos quais precisam se apoiar para continuar com essa crença.
Outras pessoas procuram discernir
a vontade de Deus considerando que os textos bíblicos irão se referir
especificamente a suas vidas, ao momento que estão vivendo, trazendo uma
resposta imediata ao que se passa, sem necessidade de nenhuma interpretação.
Isso também é um grande erro, pois coloca a pessoa no centro do universo e
todos os elementos bíblicos estariam a serviço dela. Desconsidera a
especificidade da criação do texto original e os vieses dados pelas traduções
diferentes. Mostra que tal pessoa se exime totalmente da responsabilidade sobre
sua vida e suas ações, escondendo-se sob o manto da alegada “vontade” de Deus.
A vontade de Deus para nós é que assumamos o máximo potencial de que somos
capazes, assumindo nosso ser integralmente, inclusive a capacidade de responder
(responsabilidade: respons - habilidade) por nossas escolhas. Deus não nos quer
manipular ou tirar-nos o direito e a graça de crescermos por nossas escolhas,
sejam elas acertadas ou enganosas. Deus quer nos proporcionar a maior das
graças, que é o crescimento maduro, possível somente quando assumimos a
responsabilidade pelas opções que adotamos ao longo da vida. Se não
compreendermos isso, como esperamos compreender a vontade de Deus para nós ou a
“verdade última”? Como esperamos compreender o que Deus quer de nós
simplesmente pela leitura de um texto da bíblia?
O discernimento da vontade de
Deus para nós depende da interpretação que se faz da bíblia como texto
produzido e de cada um de seus textos com relação à compreensão dos contextos
histórico e social, além do contexto intra texto. Caso não se leve em conta
tais elementos, perdemos a capacidade de considerar a vida do texto e de
atualizá-lo para o momento contemporâneo. Lidos como estão, são letra morta,
pois como terra seca que antes possibilitou a vida. Ao considerarmos os elementos
necessários para sua interpretação, tornam-se parte de nós mesmos e vivem
conosco o nosso cotidiano, pois que nos alimentam e nos direcionam,
constituindo nosso existir. A bíblia é um texto que pode tornar a viver para
cada pessoa, dependendo do cuidado com que a manuseamos. Não podemos ser
levianos ao nos aproximarmos dos textos da bíblia. Ao mesmo tempo, não podemos
ser fundamentalistas com relação ao que ali está, pois o texto é um só, mas sua
interpretação deve mudar para atender a novos elementos descobertos. O texto
deve ser vivo, ser atualizado e responder ao sentido geral a que se propunha o
autor naquele período de elaboração. Jesus nos ensinou a ter essa postura
quando mostrou que o Deus do antigo testamento é o mesmo Deus do novo, mas que
a forma com que se escreve sobre ele é que muda; ele não. Deus é um Deus de
amor, misericordioso, muito diferente do Deus vingativo e o senhor dos
exércitos apresentado no antigo testamento. Foi Deus que mudou? Ou foi a forma
dos homens experimentarem e sentirem sua presença e sua intervenção? Quem é
mais falível a erro? Deus ou os homens, mesmo sendo aqueles que escreveram os
textos inspirados da bíblia? Acredito na segunda opção.
Por fim, Deus não está no que
chamamos de acaso, aquele ocorrer imprevisto de fatos que nós mesmos interpretamos.
O acaso pode ser outro nome para a ação de Deus em nossa vida, mas quando é
realmente fortuito. Ao abrirmos uma bíblia sem atentarmos para o livro que vai
sair e chamarmos isso de acaso estamos falseando o verdadeiro acaso e impedindo
a ação de Deus em nossa vida, além de estarmos enveredando por um caminho
perigoso que pode resultar em que nos embasemos numa imagem errônea de Deus e
que nos faça cada vez mais egoístas. Deus tem planos para nós e quer que nos
tornemos conscientes de sua vontade para que a realizemos. A forma de fazer
isso é diversa, inclusive com o uso da bíblia. A nós cabe aprendermos a cada
dia mais coisas sobre os textos que compõem a bíblia sagrada para que a
possamos usar como referência de discernimento da vontade de Deus para nós.
Deus se preocupa com cada momento
de nossas vidas. Essa é uma tarefa que só ele pode realizar. Mas não quer de
nós que busquemos respostas a questões relacionadas ao nosso cotidiano. Quando
buscamos discernir sua vontade para nossa vida, ele está mais preocupado em nos
fornecer uma orientação geral para a vida e para que a usemos em nossos
posicionamentos, sem distinção quanto a um momento específico que vivemos. Ele nos
pede que vejamos a figura em seu todo, e não as pequenas peças que a compõem.
Seu chamado é para grandes questões que se expressam no cotidiano, como a fome,
a desigualdade social, o sofrimento humano, o egoísmo. Suas orientações dão a
imagem maior, para que assumamos a responsabilidade de responder diante da
concretude desses eventos em nosso cotidiano. Nós devemos assumir
posicionamentos diante de tais coisas, e não pedir a Deus que nos diga o que
fazer diante de cada fração de tempo que vivemos. Ele nos dá sua visão e o que
é sua vontade para cada um frente a tais questões e espera que assumamos na
vida, nesses pequenos flashes diários, o dever de tornar viva sua vontade. A
responsabilidade é somente nossa, e não de Deus. Tantas pessoas se perguntam
como é que Deus permite o mal e o sofrimento de tantos inocentes. Deveriam se
perguntar como podem tornar concreta, diante dessas realidades, a vontade de
Deus que só tem a eles como meio de se expressar e mitigar tais males.
Gustavo Lopes Borba
05/03/12