Mitigar sofrimento ou moralismo

Caros irmãos CVX

É com desapontamento que venho aqui expressar minha decepção com as atitudes da hierarquia de nossa instituição religiosa. E o motivo é que o evangelho é deixado de lado para se promover controle moral sobre o comportamento das pessoas, em detrimento de seu bem estar e da prevenção ao sofrimento a que diversas pessoas se veem hoje submetidas por manterem uma relação homoafetiva estável.

Falo do recente julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre o reconhecimento de uniões civis homoafetivas, processo no qual a CNBB usou de nossos recursos para pagar um advogado a defender posição contrária a tal reconhecimento.

Sinto-me profundamente envergonhado pela CNBB ter se dado a este papel de privilegiar mais questões morais do que de agir evangelicamente, procurando dirimir o sofrimento de várias pessoas. Porque esta questão não envolve a discussão sobre “casamento gay” ou qualquer outra falácia semelhante. Trata-se de garantir acesso a direitos a uma grande parte da população, que tem sido tratada de forma distinta pela nossa sociedade e pela lei por não se enquadrarem nos padrões ditos “normais”, “morais” ou socialmente aceitos, apesar de estar presente entre nós, inclusive na instituição religiosa que a CNBB representa, pois temos muitos padres, religiosos, freiras, religiosas, leigos e leigas que se relacionam num padrão homossexual. Portanto, declarar-se publicamente contra uma legislação que venha a promover a igualdade legal e a justiça não pode ser outra coisa que não hipocrisia.

É uma vergonha para os cristãos que a CNBB tenha pago um advogado para apresentar posição contrária à união civil homoafetiva. Na rádio, os argumentos que ele usou foram cinicamente ridículos e pretensamente constitucionais, alegando que o modelo de família apresentado na constituição diverge das propostas de aceitação das uniões homoafetivas.

É preciso deixar claro que a proposta de reconhecimento das uniões civis homoafetivas não trata do mérito moral da união em si e nem é esse o seu propósito. Trata-se de reconhecer a obviedade da necessidade de garantir proteção social legal às pessoas que viveram em união homoafetiva e que, em decorrência dessa união, construíram juntas um patrimônio, tornando ambas as pessoas envolvidas nessa união em merecedoras do recebimento de compensações em casos de separação ou morte de algum dos parceiros. Atualmente, nesses casos, ou a parte economicamente mais frágil fica desamparada pela separação, ou a família do membro falecido do casal fica com seus bens, conquistados conjuntamente com o membro ainda vivo.

A proposta de reconhecimento legal das uniões civis homoafetivas é o reconhecimento da vulnerabilidade social que essas pessoas vivem na eventualidade de uma morte ou separação, garantindo a elas a proteção social a que todos os demais heteroafetivos têm acesso. Não é privilégio, não é apologia à homossexualidade, mas apenas a efetivação da justiça social que deve ser um dos grandes valores desta nação. Além disso, a justiça é marca característica da ação de Deus e um dos grandes objetivos dos cristãos em seu seguimento a Jesus.

Agora, diante da possibilidade de se fazer justiça frente a pessoas que se tornam desamparadas pela sua condição afetiva, qual deveria ser a opção dos cristãos? Qual seria a opção de Jesus? Esquecemos o que é o seguimento. Pensamos primeiro na questão moral e deixamos relevado ao esquecimento o sofrimento das pessoas. Não era essa a opção de Jesus; não deveria ser essa a opção dos cristãos. E nós, leigos, povo de Deus, que vivemos as agruras, alegrias, tristezas e esperanças do mundo cotidiano, fora das sacristias e dos palácios episcopais, temos muitos amigos e familiares homossexuais, sabemos o que está em jogo e como essa situação os afeta. Também o clero sabe do que se trata, pois há entre eles muitos homossexuais. Só que não querem demonstrar nenhuma solidariedade para com eles, ou então teriam que rediscutir o celibato obrigatório e voltaria o questionamento sobre a destinação dos bens pertencentes à igreja instituição.

Não, antes disso, eles preferem a opção não evangélica de ignorar o sofrimento alheio, apegarem-se a normas morais e preservar a instituição. Voltemos aos tempos da inquisição, em que o mais importante é calar as consciências e os espíritos verdadeiramente evangélicos em prol da manutenção da santa madre igreja. É mesmo uma vergonha para os cristãos que procuram ser seguidores fiéis de Jesus.

Nos Princípios Gerais que regem nossa CVX vemos (no nº 4) que “Nosso objetivo é tornar-nos cristãos comprometidos dando testemunho, na Igreja e na sociedade, daqueles valores humanos e evangélicos que afetam a dignidade da pessoa, o bem-estar da família e a integridade da criação. Somos particularmente conscientes da necessidade premente de trabalhar pela justiça, por meio de uma opção preferencial pelos pobres e de um estilo de vida simples que expresse nossa liberdade e nossa solidariedade com eles” (grifos meus).

Como podemos conceitualizar família? Família pode ser entendida como um grupo de pessoas, ligadas por laços parentais ou afetivos que atuam juntas para a manutenção de seus vínculos e de sua estrutura econômica. Sob este conceito cabem diversos padrões familiares encontrados atualmente. Não discrimina as famílias em termos de padrões rígidos de constituição, mas em termos de seu funcionamento. Cabem, portanto, diversos tipos de famílias. É por isso que hoje devemos falar em “famílias”, no plural, e não de forma singular.

Entendendo família dessa maneira deixamos de nos guiar por visões padronizadas já ultrapassadas pela ação social. Talvez algumas pessoas venham a contestar tal afirmação dizendo que não devemos nos conformar à maneira com que esse mundo vive as situações, mas trazer orientações para que procedam de melhores maneiras. Isto está correto! Mas a instituição igreja não tem tido sucesso em sua empreitada de iluminar com valores evangélicos a ações do mundo. Ainda hoje encontramos pessoas de dentro da igreja defendendo o capitalismo como o melhor modelo de organização social e econômica. Ainda temos pessoas que consideram haver uma natural hierarquia entre as “raças”, em privilégio de brancos caucasianos. Ainda hoje vemos pessoas que defendem uma visão meritocrática sobre a situação de pobres, alegando que se eles o são é porque Deus o quis, ou porque não se esforçaram o suficiente para superar tal condição, sem levar em conta as condições sociais a que estamos submetidos e ao controle de acesso a instrumentos de promoção de igualdade social. E também dizemos que ainda hoje há pessoas que consideram que as famílias só devam ser entendidas como aquelas em que temos um casal heterossexual que cuida de seus filhos, naturais ou adotivos. Entre os chamados evangélicos ainda há os que não realizam controle de natalidade por nenhum meio, “recebendo os filhos que porventura nosso senhor achar por bem nos enviar”.

Tais padrões de crenças são medievais, não correspondem à vivência originária dos cristãos e, portanto, receberam muito de influências humanas. E tais influências estão submetidas aos contextos históricos que a comunidade cristã vivencia. Hoje nosso contexto histórico lida com a presença de um contrato social estabelecido e mantido pela lei e pela pretensão de igualdade de todos frente a este contrato. Assim, ou nos tornamos relevantes a essa porção da sociedade, ou continuaremos – como instituição e não como comunidade cristã – sendo irrelevantes à sociedade, não tendo nada a contribuir para as gerações atuais e às futuras, a não ser como um exemplo atemporal de irrelevância e de estrutura medieval, mostrando como a religião está atualmente afastada das possibilidades de influenciar ou de orientar a vida das pessoas, por não reconhecer os dilemas dessas vidas.

Em Aparecida falamos muito em resgatar o fato de sermos discípulos e missionários. Porém, se nossa missionaridade está centrada apenas em tornar as pessoas em novos seguidores da instituição, sem considerar o que podemos fazer de efetivo para tornar a vida delas melhor, estaremos realizando apenas proselitismo vazio, que alcança pessoas sem senso crítico, seguidoras cegas de regras ultrapassadas pelas formas de viver sociais, distantes dos centros de decisão e incapazes de trazer contribuições que modifiquem de fato a forma como as coisas são. Precisamos de cristãos mais engajados, mais críticos, mais influentes, mais no centro da sociedade, e não que se colocam alheios.

Quero me desculpar com todas as pessoas de nossa CVX, mas a indignação tomou conta de mim ao constatar que nossa instituição tem se afastado cada vez mais da comunidade cristã e se tornado cada vez menos evangélica. Penso que precisamos resgatar, junto com o discipulado e com a missão, o profetismo, que denuncia as coisas que são contrárias ao plano de Deus e que anuncia sua mensagem de amor, igualdade, justiça, simplicidade, fraternidade etc. A proteção de direitos a pessoas que hoje ficam desamparadas é luta pela justiça. Declarar que as pessoas e a luta para diminuir seu sofrimento é mais importante do que se elas se comportam segundo padrões rígidos socialmente aceitos é mais importante do que a preservação da palavra institucional de uma pretensa verdade. Assim como estamos longe de compreender o que é o amor (se Deus é amor e estamos longe de compreender quem é Deus, também estamos longe de compreender o que é o amor), também estamos longe de saber o que é a Verdade e qualquer pessoa ou instituição que se diz defensora da Verdade já falhou em seu propósito, por uma impossibilidade existencial básica, pois nenhum ser existente é capaz de dar conta da Verdade transcendente.

29 de maio de 2011