Por quê o nome “cristianismo das catacumbas”?

Na busca pela renovação do cristianismo, pode parecer estranho pra muitos que o nome adotado seja “cristianismo das catacumbas”. Afinal, o momento histórico em que o cristianismo conviveu com as catacumbas foi há muitos e muitos anos atrás, num momento totalmente adverso para os cristãos. As catacumbas funcionavam como local de reunião, culto e sepultamento dos cristãos, que sofriam perseguição por causa da proposta de vida que seguiam e da conseqüente negativa em adorar o imperador romano como um deus.

Diante desse quadro, cabe perguntar: afinal, por que “cristianismo das catacumbas”? Reflitamos sobre como os cristãos viviam e em que época se refugiaram nas catacumbas. Era o surgimento do cristianismo. Haviam se passado poucos anos desde a morte de Cristo. Sua proposta de vida ainda contava com poucos seguidores, ainda que seu número crescesse a cada dia. Na verdade, o seguimento a Jesus Cristo era considerado como uma de inumeráveis seitas de inspiração judaica que existiam na palestina do 1º século. Não tinha, portanto, nada de mais que a diferenciasse de outros movimentos religiosos com que coexistia. Mas ele passou a ser perseguido pelo próprio império. Por quê?

Numa resposta simples, porque começou a fazer a diferença. Não foram poucos os cristãos mortos por se negarem a adorar o imperador romano como um deus. Para esses mártires, a fidelidade ao seguimento do mestre era mais importante do que a própria vida. Podia-se encontrar pessoas com tal coerência a seus princípios com cada vez mais freqüência no império. Mais do que qualquer palavra já dita por eles, o que conseguia arrastar multidões ao Caminho – assim eram conhecidos os cristãos nos primeiros séculos – era seus gestos concretos, seus exemplos de vida, sua coerência entre o que pregavam e o que viviam. A simples existência de pessoas com tal têmpera já serviria para alarmar qualquer governante. Mas o que dava o caráter que diferenciava os primeiros cristãos era sua capacidade de fazer o bem àqueles mesmos que os perseguiam. A despeito de todas as infâmias e tentativas de incriminação, das perseguições e zombarias, os cristãos continuavam acolhendo, socorrendo, apoiando, ajudando os cidadãos romanos pagãos, os mesmos que não hesitaram em lhes apontar o dedo e proferir impropérios.

Por causa das perseguições e das incompreensões, os cristãos dos primeiros séculos eram proibidos de se reunirem para cultuar Deus, nem podiam fazer reuniões em seu nome e nem enterrar os seus mortos segundo seus rituais. A partir daí, começaram a freqüentar cavernas naturais para realizarem seus encontros às escondidas, diminuindo os riscos de perseguição intolerante. Assim, ninguém podia dizer o que diferenciava um cristão de um pagão pelos ritos ou palavras que costumava empregar. Mas, para os mais sensíveis ou conhecedores da proposta de Jesus Cristo, facilmente se distinguiria um cristão pela sua alegria e esperança, pelo seu estilo de vida simples e solidário, pela sua presença na vida de toda e qualquer pessoa, principalmente daquelas em sofrimento ou em necessidade.

Daí que tiramos o nome “cristianismo das catacumbas”. Do momento em que os cristãos viviam seu seguimento com fidelidade heróica; do momento em que o que distinguia o cristão era mais sua atitude para com os outros do que um símbolo pendurado no pescoço ou um rito seguido à risca; do momento em que ser cristão implicava em ser fiel até a última conseqüência.

Gustavo Lopes Borba
08/10/07